História

“E olhei quando abriu o Sexto Selo; e eis que sobreveio um grande terremoto. E o sol tornou-se negro como um saco de crina; e a lua vermelha como sangue.”

Apocalipse 6:7

A história de A Batalha do Apocalipse se passa em um futuro muito próximo, um cenário em que a ganância e a intolerância humanas acabaram por levar o planeta a uma guerra mundial. Ao mesmo tempo, a aproximação do Armagedon anuncia a desintegração do Tecido da Realidade e a fusão dos dois mundos, o que abre caminho para o grande combate entre as forças celestiais no Plano Etéreo.

Entenda um pouco mais sobre a cronologia deste cenário gótico-fantástico.


As Batalhas Primevas

Pouco se sabe sobre as verdadeiras origens do espaço. De acordo com os Malakim, houve um tempo, muito anterior à aurora do universo, em que o Infinito estava dividido em duas províncias, a província das Trevas e a província da Luz.

A escuridão era então governada por uma divindade hedionda, Tehom, a deusa do Caos. Essa monstruosidade cósmica era assistida por diversos deuses menores – dentre eles Behemot, o Horrendo, com sua lâmina negra – e controlava a maior parte do extenso Vazio. Seu opositor era o deus da Luz, o resplandecente Yahweh. Em determinada ocasião, Yahweh e Tehom entraram em guerra.

Para ajudá-lo nesse combate, o Reluzente fez nascer os cinco arcanjos, seres de poder fabuloso, que lutaram ao seu lado contra os Deuses das Trevas. Yahweh e seus arautos venceram o confronto, ao qual nos referimos como Batalhas Primevas, e lançaram ao Inferno os cadáveres de seus inimigos.

Com Tehom derrotada, o Pai Celestial assumiu as duas províncias, comandando tanto a Luz quanto as Trevas, e consagrando-se onipotente sobre todas as coisas. Invencível, Ele teve o seu tempo para iniciar a criação do universo.

Com um estalo, o Altíssimo deu a vida aos anjos, todos de uma vez, povoando o espaço com as legiões celestes. Depois, ele produziu uma fagulha de luz, e principiou a feitura do cosmo.

A Criação do Universo

Ao correr de bilhões de anos, o Criador cultivou Seu labor, dividindo Seu projeto em dias. Cada um desses dias sagrados corresponde a milhares de anos humanos, e no Primeiro Dia Ele criou o céu, o sol e os primeiros astros do firmamento.

Construiu uma miríade de luas e planetas, até descobrir Seu mundo perfeito.

Por incontáveis séculos, a Terra foi o lar dos animais, o canteiro dos anjos, até que, no fim do Sexto Dia, surgiram os homens, a maior de todas as obras de Deus. Encantado pelo Seu resultado final, Yahweh deu a eles uma alma, concluindo a tarefa da Criação. Então, exausto e realizado, o Reluzente caiu em letargo.

Voou até o Sétimo Céu, ao Seu santuário no topo do Monte Tsafon, e lá adormeceu, deixando aos arcanjos o serviço de governar em Seu nome. Terminou assim o Sexto Dia, e começou o Sétimo, que persiste até hoje.

Os arcanjos, e também os Malakim, sustentam que o Altíssimo despertará no futuro, para punir os injustos, e esse será o tempo do Apocalipse, um evento universal que encerrará o Último Dia. Miguel, o Príncipe dos Anjos, detém, no pináculo de sua fortaleza, em Sion, a Roda do Tempo, um artefato incrível que marca, supostamente, a continuidade do Sétimo Dia. Quando seu ciclo estiver terminado, o Onipotente ressurgirá, e instaurará um reino de paz.

A Terra sob a intervenção dos arcanjos

Quando o Reluzente deu uma alma ao homem, os arcanjos, e também muitos anjos, se encheram de ciúmes e raiva. Assim, no instante em que o Altíssimo adormeceu, o príncipe Miguel iniciou sua política de destruição.

Alegando falar em nome de Deus, ele avisou que o Pai estava farto da crueldade humana, e que decidira eliminar todo mortal da face da Terra. Começou, com isso, a era das grandes catástrofes, dentre as quais a maior foi o Dilúvio.

As Guerras Etéreas

Naqueles dias antigos, anteriores mesmo à conjuração, os anjos eram numerosos e fortes, e alguns por demais violentos. Antes do Dilúvio, a civilização humana na Terra era dominada por duas nações rivais: Enoque, a Bela Gigante, e Atlântida, a Pérola do Mar. Mas apesar da majestade das grandes potências, e de seus heróis inesquecíveis, sua influência não chegava a todos os rincões do planeta. Porções significativas continuavam independentes, e dezenas de milhares de tribos e clãs habitavam o mundo.

Muitas aldeias não reconheciam a existência de um único Deus, e veneravam suas próprias divindades locais. Essas divindades nada mais eram do que espíritos de grandes heróis, que adorados após a morte se tornaram entidades poderosas, crescendo com a energia das preces de seus dedicados fiéis. De maneira a permanecer em contato com o seu séqüito de adoradores, essas entidades preferiam não seguir para o Paraíso, mas permanecer na camada mais profunda do Mundo Espiritual, o chamado Plano Etéreo – daí chamá-las de espíritos etéreos .

Com o tempo, os espíritos etéreos, personificados sob a forma de divindades tribais, foram ampliando sua influência, à medida que seus cultistas se multiplicavam. Esse poder paralelo na esfera mística ameaçava a autoridade dos celestiais, que assistiam, aos poucos, à decadência de seu domínio sobrenatural sobre os seres humanos. Não raro, a aparição dos anjos materializados chegava a ser enfrentada, e os videntes mortais não os reconheciam como figuras celestes.

Diante da situação, os arcanjos determinaram que os espíritos etéreos deveriam ser confrontados e destruídos. Iniciaram-se então as Guerras Etéreas, uma série de campanhas militares conduzidas no Plano Etéreo, cujo objetivo era aniquilar toda e qualquer entidade deificada. As Guerras Etéreas duraram cerca de dois mil anos, entre 12 mil e 10 mil anos antes de Cristo. Em algumas regiões, especialmente no Oriente, as legiões celestes foram destronadas, mas em outras partes elas saíram vitoriosas.

O maior de todos os triunfos das Guerras Etéreas aconteceu na região da Palestina, onde um experimentado general Querubim chamado Ablon – hoje renegado – invadiu o castelo do deus (etéreo) Rahab, o Príncipe dos Mares, próximo ao atual Monte Sion, e o derrotou em combate direto. A sua legião, a Legião das Espadas, foi a primeira a entrar no palácio, superando por pouco a segunda divisão, comandada pelo então general Apollyon, hoje um impiedoso demônio, que na época era também um Querubim. Por sua façanha incrível, Ablon recebeu a alcunha de Primeiro General , dando partida à perpétua contenda com seu opositor Apollyon, o Anjo Destruidor.

De maneira a garantir a supremacia dos anjos no Plano Etéreo, Miguel ordenou que o castelo de Rahab fosse demolido, e em seu lugar ele ergueu a Fortaleza de Sion, uma torre formidável, o grande bastião dos guerreiros alados. Para demonstrar seu poder também sobre a espécie angélica, o arcanjo roubou do Sexto Céu a Roda do Tempo, um artefato místico construído por Deus, e a colocou no pináculo do baluarte.

Alguns sustentam que a construção de Sion não passou de um engodo para desviar a atenção dos celestiais para o fracasso de dezenas de campanhas da guerra. Em verdade, só o Oriente Médio foi tomado aos anjos. O Extremo Oriente nunca foi dominado, nem mesmo o leste da Ásia. O sul da África e toda a Europa também permaneceram intocados, assim como toda a América, já povoada por culturas indígenas. Os espíritos etéreos, reconhecidos como deuses verdadeiros até a propagação do cristianismo, foram mais tarde denominados deuses pagãos pelos homens mortais.

Enoque e Atlântida

Adão foi um dos primeiros seres terrenos a ganhar de Deus uma alma, propriedade que dá aos mortais a dádiva do livre-arbítrio e o dom do esclarecimento. Assim como Adão, outros homens, em outras partes do mundo, também passaram a raciocinar e a decidir por si próprios, e esse foi o princípio das civilizações sobre a Terra.

Adão teve dois filhos, Caim e Abel. Caim, o primeiro a explorar os rincões além do Jardim do Éden, construiu uma cidade esplendorosa chamada Enoque, a Bela Gigante, que mais tarde se tornaria um dos maiores impérios de seu tempo.

Enoque foi governada por muitas gerações pela linhagem de Caim, e se tornou tão grande que quase não podia ser superada.

Mas Enoque contava com uma rival: Atlântida, a Pérola do Mar, um reino cuja capital ficava em uma ilha, um lugar de infinitas maravilhas, onde a magia fazia parte do dia a dia.

Enoque e Atlântida se enfrentaram em uma série de longas batalhas conhecidas como “Guerras Mediterrâneas”, que culminou com a vitória da Pérola do Mar. Os atlantes, porém, não exigiram qualquer tributo, e os dois impérios tiveram que aprender a conviver pacificamente.

Essas batalhas geraram grandes heróis e estimularam os homens a aprimorara suas habilidades sobrenaturais. A magia, que já era conhecida em Enoque, foi aprimorada.

Os humanos que habitavam Enoque se tornaram tão poderosos e confiantes, que não temiam nem os anjos, chegando mesmo a enfrentá-los com armas místicas e feitiçaria. Orgulhavam-se muito de seu passado e do valor que tinham em suas almas para se curvarem a qualquer voz tirânica vinda do céu.

A indolência dos homens de Enoque irritou Miguel, o Príncipe dos Anjos, e deu a ele a desculpa que queria para iniciar sua campanha de extermínio, que passou a ser conhecida como A Era das Grandes Catástrofes.

O Dilúvio

A vontade de Miguel em devastar a humanidade não era compartilhada por todos os arcanjos. Lúcifer era contra. Então, o Príncipe dos Anjos decidiu que uma comissão formada por três anjos seria enviada à Terra, para comprovar que os mortais tinham mesmo uma natureza indigna.

Foram escolhidos para essa missão o Ofanim Nathanael, o Hashmallim Balam e o Querubim Euzin.

Depois de sua incursão, os anjos retornaram. Balam havia conseguido tentar todos os mortais e provar que a carne era o elemento que os fazia impuros. Contudo, um homem resistiu às tentações: Noé. Diante deste fato, o Conselho Celestial, mesmo não conseguindo impedir a catástrofe, pediu que a vida de Noé fosse poupada.

Acreditando que o humano não fosse conseguir procriar a espécie, os Miguel acatou a sugestão.

Os Ishim do fogo foram escolhidos para fazer o trabalho. Ficou acertado que uma grande inundação se abateria sobre a Haled, eliminando de forma definitiva todos os mortais.

Amael, o Senhor dos Vulcões, hoje um Anjo Caído, foi o escolhido para comandar a catástrofe. Para auxiliá-lo, ele recorreu à ajuda de Aziel, seu pupilo e amigo, mas esse recusou a participar do que chamou de “destruição inútil”. A Aziel seria delegada a função de aquecer as águas do Dilúvio, para que até mesmo as criaturas marinhas fossem eliminadas.

Então, Amael derreteu as calotas polares e o Dilúvio varreu o planeta.

Uma grande montanha abrasada foi lançada sobre Enoque, a um maremoto sepultou a inesquecível Atlântida.

Mas Noé sobreviveu. Em pouco tempo, a espécie humana caminhava novamente sobre as areias do deserto.

Sodoma, Gomorra e a Irmandade dos Renegados

Depois do Dilúvio, Miguel fez novas tentativas de destruição, mas elas iam se tornando cada vez mais inúteis. Isso porque o Tecido da Realidade, a membrana que divide o Mundo Espiritual do Mundo Físico, estava se tornando cada vez mais espesso.

Essas hecatombes indignavam muitos anjos, mas a maioria não estava preparada para reagir, ainda, e nem para desafiar a autoridade do monarca alado. Por isso, Ablon, o Primeiro General, o mesmo herói das Guerras Etéreas, decidiu articular uma conjuração.

Ablon reuniu 18 anjos, todos guerreiros leais a ele, e começou a idealizar sua revolta. Mas para que a conspiração se tornasse uma revolução, ele precisaria do apoio de um dos grandes, de um dos arcanjos. Assim, ele foi procurar Lúcifer, a Estrela da Manhã, o principal rival de Miguel entre os Primogênitos.

Enquanto isso, os anos correram, e os homens voltaram a se multiplicar, o que enfureceu sobremaneira o Príncipe dos Anjos. Sua fúria caiu, então, sobre a cidade de Sodoma, um centro terreno que prosperava e crescia. Miguel resolveu devastar o lugar, e convocou todos os anjos para uma assembléia, com o intuito de anunciar a sua decisão.

Após um demorado discurso, ele confirmou o extermínio não só de Sodoma, mas de todas as cidades na vastidão da planície. Irritados, os conjurados levantaram a palavra, e tudo não teria passado de discussão, se o ardiloso Lúcifer não tivesse os delatado.

Ali, em frente ao conselho, o Arcanjo Sombrio traiu a Irmandade, revelou a conjuração, e então os Dezoito foram obrigados a sacar suas armas.

Uma luta violenta se sucedeu, até que os pilares do Paraíso racharam, e os conjurados despencaram. Fantástico e insuperável é o poder do sinistro Miguel, e ele os amaldiçoou, condenando-os à pior sentença aos celestiais. O Príncipe dos Anjos os encarcerou em seus avatares, em seus corpos físicos, e os expulsou para a Terra.

A Rebelião de Lúcifer

Delatar a conjuração deu a Lúcifer influência e prestígio, um poder que ele usou para arquitetar sua própria revolução. Atraiu milhões ao seu lado, prometendo um governo de paz e o fim da tirania.

Lúcifer acreditava ser o mais perfeito dos arcanjos, e queria depor Miguel, para assumir o seu lugar no topo mais alto do Monte Tsafon, onde supostamente Deus descansava. Alguns bons anjos aderiram à sua revolta, desiludidos com o ministério do príncipe Miguel. Grande parte deles, porém, tinha os corações tão negros quando o de seu líder, e buscavam na batalha uma forma de subir na hierarquia.

Pouco tempo depois do expurgo da Irmandade dos Renegados, uma guerra sangrenta agitou o Paraíso. Muitos espíritos foram perdidos, em meio ao caos da batalha. No campo de guerra, enquanto as espadas acendiam relâmpagos no céu, Lúcifer e Miguel se evitavam, tomando seus tronos nos limites opostos do firmamento.

E, depois de tudo, a rebelião foi derrotada. O Diabo e seus anjos foram lançados ao Sheol, uma dimensão escura e funesta, e lá permanecem até hoje, como demônios do desespero.


A guerra civil

Milhares de anos se passaram, e o Tecido da Realidade adensou-se. A Era das Grandes Catástrofes havia chegado ao fim, e com ela a intervenção direta dos arcanjos na vida dos seres humanos.

A sociedade mortal crescia, e com isso também a degradação da humanidade. À medida que os homens se tornavam mais civilizados, mais corrompidos ficavam. Os grandes líderes e os grandes impérios se perverteram, mergulhando seus súditos na mais completa putrefação.

Em Canaã, então, nasceu um homem que muitos anjos julgavam ser o Salvador da humanidade. Miguel o teria matado, aprisionado sua alma, mas o arcanjo Gabriel, que antes seguia diretamente as ordens do Príncipe, foi tocado pela bondade do Salvador. Com isso, Gabriel deixou para trás seu passado de assassínios e atrocidades, e montou uma resistência espiritual na Palestina para garantir a integridade do Iluminado.

Muitos anjos que sempre haviam sido contra as carnificinas dos arcanjos, mas que não tiveram coragem de se juntar à Irmandade dos Renegados e visão para recusar o apelo de Lúcifer, viram nessa nova contenda a chence de lutarem pelo que julgavam correto.

Com isso, o Céu se dividiu. De um lado estava Miguel, o tirano, com suas tropas do medo, erguendo ainda a bandeira do ódio aos seres humanos. Do outro estava Gabriel, agora sensível à natureza dos mortais, carregando as idéias há anos cultivadas pela Irmandade dos Renegados.

Gabriel deixou o Palácio Celestial, no Quinto Céu, e solicitou exílio na Cidadela do Fogo, no Primeiro Céu. Teve apoio de Aziel, um Ishim que controlava o lugar, e lá os chamados Novos Rebeldes – assim distinguidos dos rebeldes de Lúcifer – se estabeleceram.

E mesmo depois de o Paraíso ter sido palco de duas rebeliões, Miguel não se dava por vencido. A sua insistência arrastou as duas facções para uma guerra civil. O Quarto Céu transformou-se em um infinito campo de batalha, onde os exércitos lutaram, por mais de mil anos, em pé de igualdade. A cada instante, uma fortaleza caía, e outra era retomada.

As tropas estavam tão niveladas em termos de contingente e perícia que os progressos eram ínfimos. As forças do tirano não conseguiram invadir o Primeiro Céu e sitiar a Cidadela do Fogo, e o exército dos Novos Rebeldes não foi capaz de subir ao Quinto Céu e atacar o palácio.

Assim, a Guerra Civil duraria mais de dois mil anos.

Ensaios para o Apocalipse – a Guerra dos Homens

Muitos milênios se seguiram às duas guerras angélicas, e então os humanos reinventaram o período das grandes catástrofes, com suas próprias armas modernas. No alvorecer do novo século, a humanidade caminha lentamente para o Apocalipse.

No início do século XXI, a crise econômica mundial voltou a fomentar o expansionismo das grandes potências, a exemplo do que acontecera em fins do século XIX. Os Estados Unidos da América, abalados por problemas políticos e financeiros, buscavam expandir seus territórios de influência, invadindo e ocupando dezenas de países menores.

Após a invasão do Afeganistão, os americanos avançaram para o Iraque, e depois continuaram a operação ocupando a Síria, o Irã e a Líbia, sempre sob o pretexto de autodefesa. Acusavam levianamente os seus inimigos de deterem arsenais de armas químicas, biológicas e nucleares, argumentos que quase sempre eram refutados pelos inspetores das Nações Unidas. Fixando o domínio sobre esses estados, os estadunidenses fechavam o cerco ao Oriente Médio, estabelecendo bases sólidas para suas operações na Ásia.

Para assegurar o contingente de tropas nas regiões ocupadas, os EUA selaram um pacto de cooperação com os principais países da Europa, encabeçados pela Grã-Bretanha, Itália e Alemanha. Assim criou-se a chamada Liga de Berlim, uma alusão ao nome da capital que abrigou os chefes de estado durante a conferência que finalizou o acordo.

Surgia, porém, a necessidade de implantar um posto de operação no Oriente, e o marco escolhido foi Taiwan, cujo governo aceitou de bom grado o capital investido por seus patronos ocidentais. Mas a aliança com a ilha não passou desapercebida aos olhos da China e da Coréia do Norte, nações que, assim como os Estados Unidos, desejavam expandir suas áreas de influência e dominar mercados.

Os dois países exigiram a evacuação das empresas ocidentais de Taiwan, e a recusa levou ao primeiro grande conflito do século XXI, a Guerra dos Trezentos Dias, que vitimou em apenas um ano cerca três milhões de pessoas, entre militares e civis, e terminou com a vitória do Oriente. A Liga de Berlim foi obrigada a deixar a ilha, e desde então os dois blocos engolem hostilidades, como uma panela de pressão prestes a explodir.

A China e a Coréia do Norte entenderam que eram os principais alvos da Liga, e decidiram pela expansão. Em uma campanha sem precedentes na história da humanidade, os dois exércitos invadiram o Japão sem disparar um só tiro, e ocuparam todo o arquipélago, na chamada ofensiva dos Dois Exércitos. Fecharam acordos de cooperação com a Índia, Mongólia, Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas, mas o golpe final ainda estava por vir.

Descontentes com a miséria crescente após o fim do comunismo, os russos abraçaram com todas as forças a causa chinesa, e o país uniu-se ao bloco oriental formando uma aliança, a Aliança Oriental, que recebeu, em poucos meses, adesões de algumas ex-repúblicas soviéticas.

Preocupados com a sua soberania, os americanos conseguiram, depois de inúmeras conversações, o apoio do Canadá e da preciosa Oceania, e continuaram a sua política expansionista, invadindo Cuba e o Panamá. Um novo confronto entre os dois blocos estourou na Turquia, único país muçulmano aliado à Otan, a já desfeita Organização do Tratado Atlântico Norte.

O governo turco se dividiu, dando origem a dois partidos que pegaram em armas e transformaram Ancara em um mar de sangue, afundando a nação em uma guerra civil. Cada uma das potências enviou armas e tropas. Para a Liga de Berlim, era imperativo deter o controle da Turquia, para que pudesse fazer uma ponte com os países ocupados do Oriente Médio. A Aliança Oriental, por sua vez, sabia que se seus inimigos tomassem a capital, abrir-se-ia uma frente de invasão pelo sul.

Estava, então, armado o palco para um conflito mundial. De um lado, a Liga de Berlim, formada pelos Estados Unidos e Europa; do outro, a Aliança Oriental, liderada pela China, Coréia do Norte e Rússia. E no meio desses dois blocos, conservavam-se neutros os países pobres da África e da América Latina, agora mais preocupados em defender as suas próprias fronteiras.

Mas isso tudo seria simplesmente mais uma guerra, não fossem os rasgos permanentes no Tecido da Realidade – a membrana mística que separa os dois mundos, o Físico e o Espiritual.

Todos, no Céu e no Inferno, sentiram que o Tecido estava a se desintegrar, e é sabido que, à chegada do Armagedon, a película cairá por completo, o que marcará também o despertar do Altíssimo.

A Batalha do Armagedon

Anjos e demônios vêem a Guerra dos Homens e seus desdobramentos como os sinais que indicam a iminência do Apocalipse. Para muitos, inclusive, o Apocalipse já começou.

Todas as profecias indicam que o Apocalipse viria procedido não por uma guerra, mas pela guerra que devastaria totalmente o planeta. Esse é, definitivamente, o poder que os mortais adquiriram ao criarem suas armas nucleares.

A maior prova de que os sinais estão corretos, para os seres espirituais, é a desintegração do Tecido da Realidade. Desde que os homens deram início à histeria coletiva da guerra, a membrana já se afinou.

A conclusão do Apocalipse é marcada pela desintegração total do Tecido. A Terceira Guerra Mundial devastará todas as civilizações e todas as instituições. Com isso, a membrana cairá, e os mundos Físico e Espiritual se tornarão um só.

O fim do Apocalipse marca também, supostamente, o momento do despertar do Altíssimo, do Deus Yahweh, que voltará para julgar todos os pecadores. Contudo, não há nenhuma garantia de que Deus regressará, e os celestiais não parecem dispostos a arriscar.

Por isso, os dois partidos celestiais – os anjos de Miguel e os de Gabriel – estão prontos para se enfrentar no Plano Etéreo, no que mesmo antes de acontecer já é chamado de “A Batalha do Armagedon”. Aqueles que vencerem terão para si a soberania da Terra, assim que o Tecido cair, e se Yahweh não despertar.

Enquanto isso, no Inferno, Lúcifer esfrega as mãos e se diverte com a briga entre seus irmãos alados. Qual será a participação dele neste confronto final? Qual facção pretende apoiar?

Provavelmente nenhuma. Gabriel tornou-se uma entidade bondosa, e Miguel expulsou os Caídos do Céu.

Até lá, até que o fim chegue de fato, a intervenção da mais ardilosa criatura do universo permanecerá velada.

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