Mario Cavalcanti
por — 01/11/2007 em Notícias

Os rumos da pesquisa mundial em tecnologia

Raquel Recuero comenta dois recentes congressos internacionais voltados para pesquisa de Internet e ciência da informação

Raquel Recuero (*)

Imagem ilustrativa: ASIS&T, evento voltado para a ciência da informação.Nas duas últimas semanas estive participando de dois grandes congressos internacionais: o da AOIR (Association of Internet Researchers) 8.0 e o da ASIS&T (American Society for Information Science and Technology), ambos anuais. Esses dois eventos representam um pouco do que está sendo pensado na pesquisa mundial em tecnologia e, normalmente, têm grande participação (e patrocínio!) das principais empresas do ramo no mundo (como a Microsoft, a Linden Lab e por aí vai), que também costumam mandar funcionários para ver o que há de novo no horizonte. Muitas empresas, como a Microsoft, a HP e a Google, têm, inclusive, setores de pesquisadores, e muitos comparecem nesses eventos para apresentar partes do que estão fazendo em seus trabalhos.

Para quem se interessa pelos temas, mas não pôde ir, vou fazer um rápido resumo dos principais tópicos e assuntos que apareceram nos grupos de discussão e nas palestras. Muitas coisas se repetem, o que mostra um certo foco atual da pesquisa e da indústria.

O mundo acadêmico está consideravelmente interessado no potencial do Second Life (SL) como ambiente educacional e de interação. Assisti a uma palestra de um dos representantes da Linden Lab (empresa criadora do SL), o John Lester. Ele mostrou várias iniciativas interessantes deste mundo virtual, como, por exemplo, o uso de espaços para experiências de socialização e tratamento de pessoas com a Síndrome de Asperger. Falou muito também do uso do sistema para escolas, com salas de física e química com simulação de experimentos, simulações de ecossistemas para as aulas de biologia e assim por diante. Por fim, John também pontuou o uso do SL através da reconstrução de prédios e monumentos históricos como, por exemplo, um espaço do Antigo Egito, onde é possível perceber hábitos e observar construções que não mais existem, realizadas por usuários estudiosos da Antigüidade.

Imagem ilustrativa: panorama de um cenário do Second Life.Muitos trabalhos foram apresentados a respeito da construção de campi virtuais das universidades, de educação à distância através das salas de aula no SL, e também de iniciativas de marketing e publicidade no sistema. A maioria dos trabalhos aqui apresentados foi mais de relatos de experiências que, propriamente, apontamentos novos. Mas há muita gente interessada no que se chamou de "ambiente de imersão" (o que o SL diz ser), que permite experiências diversas da maioria dos ambientes de interação.

Os sites de redes sociais e o estudo das estruturas e dinâmicas dos grupos na Internet têm sido importante foco também da indústria. Claro que, no caso dos sites de rede social, o grande foco é no MySpace e no Facebook, as duas estrelas do hemisfério norte (embora trabalhos sobre o Orkut e outros sites também tenham aparecido). Mas de um modo geral, todos estão interessados em compreender como as pessoas apropriam esses sites e constroem suas redes, e como se dão as dinâmicas de migrações entre as páginas diversas.

Danah Boyd, uma pesquisadora americana, falou sobre o processo de migração que acontece entre adolescentes e jovens adultos no MySpace e no Facebook. Enquanto o MySpace é um sistema mais "bagunçado", onde cada um pode construir seu perfil como quiser e, por isso, associado ao segundo grau (ou highschool), o Facebook, por ter um design mais constante, mais "sério", é associado aos universitários. Logo, Danah discute que há um ritual de passagem entre o fim da escola e o início da universidade, que é aparente também na construção de um perfil no Facebook e na redução do uso do MySpace.

Imagem ilustrativa: página da comunidade virtual do JW na rede social Facebook.Durante os congressos, muita gente estava já na expectativa da aquisição de uma parte do Facebook pela Microsoft (o que acabou se confirmando pouco tempo depois) e do que isso representa no uso da publicidade nos sites de redes sociais. Fred Stutzman falou um pouco disso e das visões dos usuários a respeito das mudanças de funcionalidades e design do Facebook através dos últimos anos. Parece que vem coisa nova por aí, já que muitos pesquisadores da própria Microsoft estão, também, atuando na área de redes sociais.

Muitas pesquisas mostraram, em várias mesas redondas que pude participar, um certo padrão de apropriação das redes sociais. Parece que, em muitos lugares e em muitos sistemas, acontece uma apropriação muito parecida por parte das pessoas. Ou seja: há uma consistência ou um padrão emergente do uso dos sites de redes sociais. Países diferentes usando sistemas diferentes da mesma forma foram um dos pontos mais aparentes nas discussões.

Outro foco muito forte da pesquisa está na questão da Web 2.0. Há muita discussão em torno do conceito, que muitos consideram "marketeiro" e outros, um novo momento na Web. Especialmente no ASIS&T, que é mais focado na ciência da informação, vi muitos trabalhos discutindo as questões de construção coletiva e cooperação como "Web inteligente", e as potencialidades para melhorar a busca de informações na Rede.

Essas três questões, com foco especial nas duas primeiras, foram as mais freqüentes nas mesas temáticas dos eventos. De um modo especial, mostram uma certa atenção da pesquisa na área.

*Raquel Recuero é doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora e pesquisadora da Escola de Comunicação Social da Universidade Católica de Pelotas.

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