Mario Cavalcanti
por — 20/08/2007 em Notícias

Uso de dispositivos portáteis na produção da notícia

O jornalista Fernando Firmino da Silva fala sobre o crescente e atraente campo do jornalismo móvel

Por  Fernando Firmino da Silva (*)

Imagem informativa: já disponível no Brasil, o Nokia N90 traz recursos que permitem uma boa cobertura móvel.O jornalismo contemporâneo cada vez mais se alimenta de plataformas móveis tanto para a produção quanto para a difusão de conteúdo digital. Essa tendência está sendo chamada de jornalismo móvel e se caracteriza pelo uso de dispositivos portáteis digitais como celulares, smartphones, PDAs, pendrive, notebooks, câmeras e gravadores digitais e a utilização de conexões sem fio como Wi-Fi, WiMAX, Bluetooth, GPRS, GPS e outros. O repórter tem a possibilidade de trabalhar à distância com acesso remoto à Internet e fazer o upload em tempo real do material produzido (textos, áudio, vídeos, fotos) para postagem em um site jornalístico, num moblog ou para uma edição impressa.

Tudo isso tem sido possível devido ao desenvolvimento, principalmente a partir da década de 1990, de tecnologias móveis digitais avançadas com capacidade para substituir os computadores de mesa (desktops) em diversas situações e colocar o repórter em condições de mobilidade pelo espaço urbano. O mais importante nessa perspectiva não são as tecnologias, mas a mobilidade que elas proporcionam ao repórter para que ele possa exercer suas atividades (coleta de informações, entrevistas, edição e  publicação de notícias) de qualquer lugar sem a necessidade de deslocamento até uma redação física.

As conexões sem fio e os dispositivos móveis disponíveis atualmente atendem de forma plena a essa estrutura de produção jornalística móvel. Denomino essa estrutura de ambiente móvel de produção,  por se caracterizar pela interface entre o espaço urbano e o espaço virtual a partir da conexão permanente (online) com o ciberespaço. Essas condições favorecem  a exploração de bancos de dados visando a apuração, a construção de reportagem e a edição de material jornalístico em mobilidade. Na cobertura dos jogos do Pan, no Rio de Janeiro, e do acidente da TAM, em São Paulo, alguns jornalistas utilizaram notebooks, celulares e conexões sem fio para o envio das notícias. Nessas circunstâncias fica mais visível o uso das tecnologias móveis digitais, mas gradativamente elas vão adentrando a prática jornalística cotidiana das grandes empresas de comunicação. Como se definiria o termo jornalismo móvel a partir dessas práticas? Quais as diferenças e proximidades entre jornalista multimídia e jornalista móvel? Quais as vantagens e desvantagens do trabalho jornalístico nessas condições?

O conceito de jornalismo móvel que adotamos aqui ainda está em aberto, mas podem-se apontar algumas características que ajudam a compreender suas especificidades no âmbito do jornalismo atual. O termo mobilidade, por exemplo, não é novo e vem sendo  utilizado em diversos campos do conhecimento como a sociologia, o urbanismo e arquitetura, na educação física e na comunicação. Consiste numa definição que se molda ao contexto e se metamorfoseia ao longo do tempo.  No campo do jornalismo e das práticas de comunicação contemporâneas, refere-se, principalmente, à mobilidade proporcionada às pessoas pelas tecnologias para a ação do deslocamento físico, mantendo-se interface com o ciberespaço. O próprio telefone móvel – celular – nos ajuda a compreender o seu significado de forma mais concreta. A diferença básica entre o jornalista multimídia e o jornalista móvel está exatamente centrada na ênfase à questão da mobilidade. Um jornalista multimídia poderia trabalhar exclusivamente dentro de uma redação utilizando tecnologias avançadas. Entretanto, o jornalista móvel se vincula de forma mais objetiva à condição do deslocamento e da mobilidade pelo espaço urbano para o desenvolvimento da sua produção jornalística, seja em coberturas de conflitos, de acidentes, de eventos esportivos e políticos, seja de matérias factuais.

É importante perceber que com a expansão das tecnologias móveis fora das estruturas das empresas de comunicação de massa – como o celular e as câmeras digitais – essa produção também emerge dos leitores/internautas através do jornalismo participativo (ou cidadão, colaborativo, open source). Diversas situações dessas possibilidades podem ser mencionadas, como a gravação do enforcamento de Saddam Hussein no ano passado, os atentados em Madri (11 de março de 2004) e Londres (7 de julho de 2005) e o acidente da TAM (17 de julho de 2007). Experiências jornalísticas a partir do uso de plataformas móveis já começam a surgir em vários países como o do jornal News-Press, da Califórnia, nos Estados Unidos, em que os repórteres saem a campo em busca de notícias que serão produzidas e editadas em notebooks e celulares e enviadas através de conexão wireless; o projeto Voices of Africa, do Africa News, em que a equipe de repórteres espalhados por países da África do Sul utiliza tecnologia GPRS nos celulares para envio das notícias; O portal Periodista Digital, em Madri, na Espanha, onde os repórteres utilizam laptops portáteis, cartão 3G sem fio para conectar-se de qualquer lugar, e câmeras de vídeo e fotográfica digitais; e, aqui no Brasil, o Jornal de Debates, que utilizou celulares Nokia na cobertura da Feira Literária Internacional de Parati – Flip, além de diversos jornais e portais da mídia brasileira como Estadão, Folha Online, G1, Terra e Lance!.

Os recursos disponíveis nos equipamentos como nos smartphones e celulares já possibilitam fotografar, gravar vídeos, editar textos e enviar em tempo real. Para otimizar essa produção surgem aplicativos apropriados para uma cobertura móvel como o Farcast Reporter e o Mobile Reporter. Esses dois softwares funcionam como plataformas para a produção e upload de textos, vídeos, fotos e áudio diretamente para a publicação no site com a possibilidade de flexibilização quanto à escolha da seção, data e horário e anexo do material que será publicado em real time.

Outras questões relativas a esse processo que se desenvolve na combinação jornalismo, tecnologias móveis e mobilidade é o impacto sobre as rotinas produtivas dos jornalistas. Há uma nítida convergência de funções. A pauta, a foto, a pesquisa, a edição e publicação da notícia pode se concentrar num único profissional: o repórter móvel, que agora absorve uma série de atividades que antes (ou ainda) se distribuía entre pauteiros, fotógrafos, editores. Outro aspecto é que o dead line desaparece. A noção do tempo para o fechamento da matéria é o tempo real. Alterações nas rotinas produtivas, convergências de funções jornalísticas, adoção do tempo real como dead line são questões que devem ser mais bem estudadas nesse novo âmbito, pois se referem à qualidade da notícia produzida (se melhora ou piora), à qualidade de vida do profissional (se o nível de estresse aumenta ou diminui) e, principalmente, ao perfil de um novo profissional de jornalismo que lida com alta tecnologia móvel digital, novos processos de produção e uma forma diferente de percepção do espaço e do tempo.

O termo jornalismo móvel pode se expandir para outro entendimento, de que o jornalismo, a partir das tecnologias móveis, passa por modificações constantes (mutável) que perpassam as rotinas produtivas e o fazer jornalístico. Novas possibilidades abertas pelo ciberespaço e as novas tecnologias reconfiguram a relação entre repórter, espaço urbano e fontes de informação e estabelecem convergências de funções. Essas transformações se aproximam do que Zygmunt Bauman (no livro Modernidade Líquida) chama de fluído ou líquido, devido à  necessidade de se adaptar às mudanças que surgem nesse novo contexto e impactam a solidez do jornalismo tradicional instaurando novas práticas.

*Fernando Firmino da Silva é jornalista e radialista, professor do Curso de Jornalismo na Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. É mestre em Ciência da Informação pela UFPB e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas na Universidade Federal da Bahia – UFBA. Sua tese de doutorado, sobre orientação do professor André Lemos, trata da produção jornalística a partir do uso de dispositivos móveis digitais e conexões sem fio. Edita o blog Jornalismo Móvel.

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