Mario Cavalcanti
por — 16/07/2007 em Notícias

Pedro Markun e a cobertura móvel da Flip – Parte 1/2

Em entrevista ao JW, diretor geral do Jornal de Debates conta como foi a experiência de cobrir um evento usando apenas telefones celulares

Por Mario Lima Cavalcanti (*) 

Imagem ilustrativa: logotipo da Festa Literária Internacional de Parati (Flip)No último dia 4 de julho, munido de celulares de última geração, Pedro Markun, diretor geral do site de opiniões Jornal de Debates (JD), embarcou com sua equipe de jornalistas em uma jornada diferente: cobrir um evento de porte internacional utilizando dispositivos móveis. O destino foi a Festa Literária Internacional de Parati, a Flip, cuja edição 2007 aconteceu entre os dias 4 a 8 de julho.

Em entrevista concedida via Skype ao JW – cujo trecho em áudio pode ser ouvido aqui, em nosso Media Center -, Markun contou ao JW como foi essa odisséia e opinou sobre os cenários de conteúdo e cobertura móvel. Leia abaixo:

JW – Recentemente, na Flip, a equipe do Jornal de Debates experimentou uma cobertura via celular. Como foi a experiência?

Pedro Markun – Na verdade essa idéia de fazer alguma coisa utilizando o celular como mídia de produção já era algo que vinha passando pela minha cabeça há algum tempo. E aí, por indicação de uma amiga, chamei para conversar o Paulo Castilho, da TV Cultura, que já tem um trabalho longo de videorreportagem com celular. A gente bateu um papo, ele me passou o contato da Nokia e disse que eles estavam afim de fazer uma coisa com celular. Então eu liguei para a Nokia e propus pra eles a idéia. De uma maneira ou de outra, eu já ia para a Flip com o Jornal de Debates cobrir da maneira que a gente tradicionalmente cobre os eventos, com um videorrepórter que vai com sua PD-170, um jornalista com um microfone e uma pessoa segurando um pau de luz. A Nokia e as outras empresas têm celulares com capacidade de vídeo enorme. Os novos modelos têm uma qualidade técnica surpreendente. Eu pensei: "vamos testar essa nova plataforma". Fui com cinco jornalistas pra Flip, mandei fazer camisetas do Jornal de Debates, e fizemos essa cobertura móvel. Foi muito interessante essa aventura que tivemos com os celulares, porque, quando você altera um suporte de captação e ela passa a ser um dispositivo que não pesa nem 300 gramas e é do tamanho da palma da sua mão, a mobilidade que você ganha é sensacional, nunca antes se teve essa mobilidade com essa qualidade.

JW – No festival você percebeu algum outro tipo de cobertura experimental?

PM – Sim. Totalmente. A Flip primou por uma cobertura Web total. Mesmo as grandes redações, os grandes veículos, estavam trabalhando na dinâmica do blog. Você entrava na sala de redação e tudo o que você via eram pessoas sentadas na frente de sua interface favorita de blog, seja um WordPress ou a interface da própria redação. Foi notório e uma coisa que me impressionou muito. Os blogueiros estavam lá. O pessoal do Digestivo Cultural estava lá. Tinham pessoas que produzem para a Web há bastante tempo cobrindo o evento. O Marcelo Tas, por exemplo, teve a mesma sacada que eu e estava lá com um celular cobrindo a Flip, mas de uma maneira diferente da nossa, porque o JD não produz reportagens. Eu estava só juntando testemunhais, que é, na minha opinião, a grande possibilidade desse novo tipo de vídeo móvel. Mais do que você montar uma reportagem, uma videorreportagem tradicional, ela é muito baseada no poder do testemunhal e na possibilidade de você está de noite ali andando pela Flip, entrar num bar, encontrar o Fernando Morais e falar com ele. A estética do celular é outra. Em uma situação, peguei uma mesa inteira, gravei as pessoas, me custou dez minutos e eu saí dali com um testemunhal que tem um valor sensacional, mesmo que a qualidade da imagem não seja mais aquela que era padrão na videorreportagem.

JW – O resultado pode ser visto online?

PM – O resultado está disponível no site. Cabe dizer que a metodologia que a gente utilizou ainda não foi a ideal a meu ver, porque a conexão Wi-Fi lá em Parati estava muito instável. O ideal é você produzir, editar e subir através do celular. Utilizar ele como central multimídia. As duas primeiras etapas – a captação e a edição – eu conseguia fazer do celular, mas depois disso eu era obrigado a descarregar isso num pendrive, levar até a sala de imprensa e enviar de lá. Estou subindo os vídeos pro YouTube e replicando dentro do JD. Então é possível ver todos os vídeos no site do JD, nos debates sobre literatura que a gente subiu lá, ou através do próprio YouTube. Se você fizer uma busca por Fernando Morais, vai cair no vídeo da mesma maneira.

JW – Houve alguma pesquisa prévia feita pelo veículo para saber se cobertura móvel era algo viável ou foi pura aposta? Enfim, de onde veio a idéia?

Divulgação: Nokia N95, um dos modelos utilizados por Markun e sua equipe na cobertura móvel da Flip. Foto: Nokia.comPM – Foi uma aposta. Se você vai em qualquer palestra sobre convergência das mídias, novas mídias ou jornalismo online, a palavra de ordem é essa. As pessoas bradam que o celular vai ser o grande dispositivo do futuro. Elas pegam o aparelho, sacodem para a platéia e dizem: "É isso aqui. A partir de agora vai ser aqui". Agora, fala-se muito desse dispositivo portátil como uma central multimídia, mas faz-se muito pouco. Mas, se fala-se tanto, na minha visão, é porque existe uma viabilidade, um futuro, que eu acho que vai acontecer a partir de celulares como a que eu usei, que já lhe permite ter uma qualidade superior. Até então você tinha vídeo no celular, mas ele era uma espécie de brincadeira. Não tinha a qualidade do áudio, especificamente, que é o grande problema quando você está tratando de testemunhal. Então, você acabava não podendo usar aquilo de uma maneira mais profissional. Eu acho que o celular no Brasil ainda não chegou num patamar onde você pode usar o aparelho como um receptor de mídia. O celular, enquanto receptor de mídia, ainda é muito defasado por causa das severas restrições das operadoras. Como produtor de mídia, como produtor de conteúdo, no entanto, é seguramente uma das ferramentas mais incríveis que eu já vi.

JW – Que recursos você acha que mais vão vingar no meio móvel?

PM – Bom, quando você atinge um nível de qualidade com um aparelho celular, ele deixa de ser um aparelho celular. Então, quando a gente fala em móvel, nesse sentido, ele carrega uma carga de aparelho celular, ou seja, de aparelho que você vai usar pra se comunicar. Quando eu pego um aparelho desses, eu tenho sim na mesma máquina uma câmera, uma filmadora, um garavador de áudio e um telefone. Todas essas funcionalidades vão ter a sua primazia nesse novo mundo digital. Então, um jornalista armado com uma câmera dessas, ao se defrontar com uma possível notícia, ele tem diversas opções. Eu posso deslizar o celular pra cima e gravar um vídeo da cena que está acontecendo. Eu deslizo o celular pra baixo, ele vira uma câmera fotográfica, bato uma foto e depois escrevo um texto em cima disso. Ou posso fazer uma entrevista em áudio. Enfim, é realmente uma central multimídia de produção de conteúdo. E todas essas funções vão funcionar em momentos distintos para compor uma mesma matéria.

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