Mario Cavalcanti
por — 11/09/2006 em Notícias

Subhash Rai e o ciberjornalismo indiano

Mario Cavalcanti entrevista o jornalista indiano e criador do Indian Online Journalism, site que debate o cenário online no país

Por Mario Lima Cavalcanti (*) 

Quem costuma ler publicações especializadas na cobertura das mídias tradicional e digital, certamente vez por outra esbarra com alguma notícia relacionada com o mercado online da Índia. O cenário no país vem se desenvolvendo e, há algum tempo, produz pensadores de mídias digital de renome, como Rafat Ali, criador do blog paidContent, que aborda, entre outras coisas, a questão do conteúdo pago na Internet.

Para conhecer um pouco melhor o cenário online indiano, JW entrevistou outro nome significativo, o ciberjornalista Subhash Rai. Em entrevista via Skype, o criador do site Indian Online Journalist, que procura debater o futuro do jornalismo online na Índia, nos mostrou como vão as coisas hoje em dia naquele país. Acompanhe abaixo:

JW – Pode nos falar um pouco sobre você? Quando e como começou a se envolver com jornalismo online?

Subhash Rai – Comecei minha carreira a cerca de 15 anos como desenvolvedor, mas eu sempre tive essa paixão pelo jornalismo. Então certa vez fui apresentado ao BBS (Bulletin Board System). Aquilo foi muito inspirador. Era como comunicar sem limites. Em pouco tempo eu já estava conectado à Internet e então tudo mudou. Isso foi um ano após a Guerra do Golfo, creio eu. Mas como jornalista online eu atuo a cerca de nove anos. Controlo o site Indian Online Journalism (IOJ) e modero uma lista de discussão homônima criada no Yahoo! Groups. Profissionalmente, já trabalhei para a edição online do maior diário financeiro da Índia, ensinei jornalismo online e agora trabalho para a Frontline, uma publicação quinzenal sediada em Chennai, no sul da Índia.

Foto de DivulgaçãoJW – Quando o jornalismo online começou na Índia? Quais publicações foram as pioneiras?

SR – Excelente pergunta! Creio que começou em 1994. Existem algumas publicações que se dizem pioneiras no meio online indiano. O diário The Hindu, do mesmo grupo da Frontline, foi um dos primeiros jornais indianos online. O Deccan Herald, em Bangalore, também foi um dos primeiros. Mas, em se tratando de empresa de mídia não-tradicional, Rediff.com é realmente o nome que as pessoas identificam como o mais próximo da época em que as notícias online começaram a surgir. Agora, vale citar o The Times of India e o The Hindustan Times, que são os mais agressivos.

JW – O IOJ e o JW parecem ter histórias semelhantes, pois ambos foram lançados em 2000 com uma lista de discussão homônima no Yahoo! Groups. Qual a idéia por traz do IOJ?

SR – Isso é mesmo um detalhe interessante! Bem, Acho que toda a discussão a cerca de jornalismo online/nova mídia é muito centrada nos Estados Unidos. Nos precisamos urgentemente olhar para questões locais que afetam/contribuem para o crescimento do jornalismo online. Acredito com um fórum como o IOJ eu posso estar provendo uma avenida para pessoas discutirem sobre nossa própria experiência com jornalismo online.

JW – No ano passado você viajou para a Alemanha para fazer um curso de jornalismo online. Como foram o curso e a viagem para lá?

SR – Foi brilhante! Conheci pessoas muito interessantes. Tive a oportunidade de visitar muitas redações online. Fiquei particularmente impressionado com as operações online do Handlesblatt, um diário financeiro baseado em Dusseldorf. E é difícil não invejar o Spiegel online. Eu tenho grande fé em serviços de mídia públicos. As emissoras públicas deles têm presença online, mas podem claramente fazer muito mais. Eu gosto do que o Deutsche Welle faz. A passagem pela Alemanha foi uma boa oportunidade para conhecer pessoas de nove países diferentes e conviver com elas por três meses. Foi definitivamente uma experiência de aprendizado.

JW – A Índia produz bons pensadores de mídia online. Podemos citar o Madan Rao, o Rafat Ali e, claro, você. A Índia produz também blogs sobre conteúdo online bem conhecidos, como o contentSutra e o MocoNews. Como você vê o cenário indiano de jornalismo online hoje em dia?

Imagem ilustrativa: logotipo do BlogCamp India. Fonte: Blogcamp.inSR – Bem, você está sendo muito generoso comigo. Mas não me considero. Concordo com você. Rafat Ali é um grande cara. Realmente aprecio o que ele faz. Mas acho que o jornalismo cidadão está acontecendo também. Veja como exemplo o BlogCamp India [maior conferência da Índia sobre blogs]. Neste fim de semana, pessoas de várias partes daqui foram para Chennai discutir sobre blogs. Kiruba Shankar é uma pessoa que se tornou bastante popular como blogueiro. Ele é uma inspiração para muitos aqui. Mas eles são indivíduos. O que é realmente triste é que publicações "mainstream" ainda não estão fazendo coisas originais no meio online. E isto tem efeito terrível em nós, jornalistas online. Ainda somos aqueles técnicos que fazem upload de artigos para as publicações. O ciberjornalista tem que saber responder como ganhar dinheiro online. É compreensível, mas fazer dinheiro não é trabalho de um jornalista. É assim que o cenário está. Mas sou otimista. As coisas vão melhorar em breve.

JW – Aqui no Brasil Teremos também uma conferência participativa sobre Web 2.0 e blogs nos próximos dias 16 e 17 de setembro.

SR – Temos mesmo muitas similaridades! (risos)

JW – Você pode citar exemplos de bons projetos de jornalismo cidadão na Índia?

SR – Olha, realmente não há nada muito grandioso. A razão pela qual mencionei Kiruba Shankar é que ele fez um trabalho fantástico quando tivemos o trágico tsunami em 2004. Através de seu blog, ele conseguiu mostrar ao mundo o que estava acontecendo, ele conseguiu voluntários para vir para cá e trabalhar aqui. Isso foi uma coisa realmente maravilhosa.

JW – Que tecnologias e periféricos você geralmente usa no seu dia-a-dia?

SR – Bem, um sistema de gerenciamendo de conteúdo é o que eu mais uso. Carrego comigo todo dia uma câmera digital da Olympus com gravador de voz.

JW – Pode dar exemplos de diários online que na sua opinião fazem um bom trabalho?

SR – Fundamentalmente, não tenho agora um bom exemplo de site de jornal fazendo algo que me marcaria, que eu lembraria pra sempre. Poderia, claro, citar muitos sites que estão fazendo um excelente jornalismo online. Tem alguns que eu gosto, como o Guardian e a BBC. Existe um site promissor, o Assignment.net, controlado pelo Jay Rosen [crítico de imprensa americano, professor de jornalismo na Universidade de Nova York e criador do blog PressThink]. Mas, em se tratando de "mainstream", acho que o Guardian é realmente o melhor.

JW – Entendi. Subhash, obrigado pela entrevista. Foi certamente muito proveitosa.

SR – Agradeço muito a oportunidade de falar para os brasileiros. Devo dizer que depositei muitas esperanças no Lula, mas estou desapontado com ele. 🙂

JW – O prazer foi nosso. 😉

*Mario Lima Cavalcanti é editor de conteúdo do JW.

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