Eduardo Spohr
por — 09/07/2006 em Artigos

Credibilidade evolui no jornalismo digital

Portais de conteúdo deixam para trás fama de tabloides para conquistarem espaços entre mídias confiáveis.

Por (@eduardospohr)

Sempre tive a impressão de que credibilidade é palavra-chave do jornalismo, pelo menos no que diz respeito a hard news. Se você avalia que um veículo não é capaz de divulgar uma notícia correta e isenta, então talvez seja melhor descartá-lo, e é isso que a maioria das pessoas costuma fazer, mesmo inconscientemente. Instintivamente, o espectador acaba selecionando suas fontes de informação.

Na web, então, essa premissa não só é verdadeira como é reforçada pela disponibilidade que o internauta tem em acessar os veículos de conteúdo. Em questão de segundos – e de graça – um usuário pode visualizar dezenas de sites, mas na prática o que acontece é que, mais cedo ou mais tarde, ele vai acabar se decidindo por dois ou três. Essas páginas selecionadas vão para a pasta “Favoritos”, e para tirá-las de lá ou para substituí-las às vezes nem mesmo um “format c:” funciona – uma vez que, na mente do internauta, a escolha já foi feita.

O jornalismo online é um fenômeno novo. Quanto a isso não há dúvida. Como a maioria dos movimentos no ambiente digital, porém, sua transformação tem se mostrado bastante veloz. E a credibilidade é justamente o ponto central que tem evoluído nos últimos anos.

Trabalho desde 1999 em redação de portais de jornalismo e me lembro que, há 5 anos, ninguém levava muito a sério o que se lia na web. A internet era muito mais um tabloide de notícias bizarras e de entretenimento do que um veículo de hard news – não que já tenhamos superado isso totalmente. Mas hoje já é possível ver um telejornal divulgando reportagens baseadas em informações “da versão eletrônica” de algum periódico internacional. No final dos anos 90, isso dificilmente aconteceria.

Essa credibilidade que o meio digital vem ganhando acompanha o movimento natural da evolução tecnológica. É lógico que quanto mais gente tiver acesso à internet, e durante mais tempo, mais veículos tradicionais vão migrar para a web, e outros serão criados, próprios para esse ambiente. É o caso de diversos jornais que atualmente contam com redações separadas, para o meio digital e para o meio impresso (JB Online, Globo On, Lancenet, New York Times, Wall Street).

É também curioso observar como essa tendência afeta as agências de notícias – como elas estão se adaptando à velocidade do meio. Em 2001, era muito comum um editor receber pelo sistema de seu jornal artigos curtos, freqüentemente com erros de português, com o lead no pé e acompanhados por atualizações ao longo do dia. Naquela época, quase sempre você recebia uma nota com o anúncio do fato, às vezes em uma linha, e posteriormente mais informações. Ora, para um jornal impresso esse método é perfeitamente funcional – o redator tem tempo para recolher todos os textos (ao longo do dia) e estruturar seu artigo.

No jornalismo online, entretanto, supõe-se que o fato deve entrar no ar no momento em que acontece ou, pelo menos, o mais rápido possível. É gritante ver, com isso, como as agências incrementaram tanto a sua agilidade quando a qualidade de seus textos. Ainda é de praxe o envio de atualizações, mas mesmo as primeiras matérias costumam ter um conteúdo mais elaborado, com pelo menos quatro parágrafos e sem erros de português.

Justamente por isso, para os profissionais que trabalham nos portais de jornalismo, o quesito velocidade x qualidade é cada vez mais cobrado. À medida que o amadorismo vai ficando para trás, é exigido do jornalista da web mais eficácia. Ainda que errar seja humano, pressa na publicação não é mais desculpa para cometer erros. Ausência de revisores também não.

Assim, da mesma forma que a internet vem para agregar mídias, o jornalista que trabalha no ambiente eletrônico também deve ser um agregador de funções. Ele apura (repórter), escreve (redator), revê (revisor) e publica (editor), além de, por vezes, ter que traduzir o texto de uma fonte internacional (tradutor).

E é agora que o ciclo encontra o seu fim – na qualidade. Se toda essa maratona for feita de forma correta e isenta, o veículo marca o gol de placa da credibilidade, garante a confiança do leitor e conquista o seu tão almejando lugar ao sol na preciosa pasta “Favoritos”.

Sobre o autor |

Escritor, jornalista, professor universitário (curso de extensão, mas tá valendo), blogueiro, podcaster, filósofo de botequim e PHD em contar piadas sem graça.

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