Mario Cavalcanti
por — 27/12/2001 em Notícias

Publicações independentes na selva virtual

Mario Lima Cavalcanti entrevista especialistas da Web sobre a possibilidade de sites independentes se manterem na internet

Por Mario Lima Cavalcanti (*)

Ainda há como sites independentes e/ou mantidos por uma só pessoa sobreviverem na gigantesca e imprevisível Selva Virtual? Especialistas e jornalistas da Web respondem a essa questão.

Mal gerenciamento, falta de grana ou simplesmente o fato dos responsáveis por um projeto online não terem a mínima idéia de como o mercado virtual "funciona", são fatores que levam um site a ser – como costumam dizer – descontinuado.

E isso não é relativo. Não acontece somente com sites de "classe média" para baixo. Há diversos casos de pequenos projetos que geraram grana e de gigantes portais que foram à falência. Já foi provado também que a aparentemente sem-fronteiras Selva Virtal é para todos, e não só para grandes corporações. Os blogs estão aí provando isso. Ainda mais se eles forem "tocados" por seus editores como um trabalho secundário/paralelo. Nos Estados Unidos, por exemplo, weblogs de jornalistas vêm ganhando cada vez mais espaço por trazer furos e conteúdo de qualidade.

Mas se o sujeito decidir sair de seu atual emprego para ser dono/criador/fundador/CEO de uma publicação virtual/site independente? Deve encarar a Selva sozinho? Entrar de cabeça? Veja abaixo o que alguns profissionais pensam sobre isso:

JW – Como você acha que publicações virtuais independentes e/ou feitas por uma só pessoa podem sobreviver hoje em dia?

Xico Vargas, editor do NO. – Aí está uma pergunta difícil de responder, nestes tempos bicudos para as pontocom. Acredito em duas vertentes para publicações independentes que prestam de serviços nas áreas de cultura, lazer, entretenimento, turismo e medicina & saúde. Para publicações individuais, acho que as newsletters eletrônicas e os clippings podem ser caminhos interessantes. Para cultura, lazer etc, acredito que o serviço poderia incluir venda de ingressos, reservas de lugares e acomodações e que tais.

David Wallis, jornalista e fundador do Featurewell.com – A chave para qualquer publicação é encontrar um nicho que permita ao dono do projeto cobrar pelo conteúdo. Isto é um desafio, mas não é impossível. Publicações tradicionais servem toda a indústria, mas um webpublisher pode se dedicar a notícias especializadas, enviando-as mais rápido para seus leitores que seu rival impresso.

Jameson Rangel, consultor em webmarketing – Acredito que independente do tamanho do projeto e do número de pessoas envolvidas nele alguém tem que pagar a conta. Essa é a questão e o grande desafio, mas não é só hoje em dia, sempre deveria ter sido assim. Por que você acha que muitas empresas pontocom quebraram? Existem milhares de idéias sensacionais que entraram e saíram do ar porque simplesmente não tinham como se manter no ar sem um mínimo de recurso financeiro.

O ideal é saber exatamente o que se pretende antes de colocar um projeto no ar para não ter que tirá-lo depois. Deve ser realizado um levantamento de custo mínimo para que o projeto funcione e saber exatamente quem arcará com ele. Dependendo do projeto até mesmo um ou mais profissionais podem bancá-lo, mas por quanto tempo?

Estamos falando tanto de projetos que envolvam pequenos valores até milhares de reais. Por exemplo, ter um custo inicial de R$ 1.000,00 e mensal de R$ 50,00 pode parecer pouco, mas acaba pesando no bolso de quem não tem retorno sobre esse investimento.

JW – Quais as melhores formas para uma publicação virtual independente ter sucesso economicamente?

Xico Vargas – Não acho que existe uma, exclusiva. De qualquer maneira, atravessamos um momento em que já foi possível perceber que a Rede está sendo depurada, ou seja: não é lugar para aventuras. Com isso, espera-se que permaneçam apenas as iniciativas profissionais. Na área de publicações virtuais, parece-me que a sobrevivência só poderá ser obtida com a independência de opinião associada ao movimento comercial de anúncios e à venda de conteúdo, que é como sobrevivemos (NO.) hoje.

David Wallis – Eu não vejo muito futuro para e-zines de interesse geral, no entanto, websites tocados por jornalistas renomados, como o Andrew Sullivan, cada vez mais tendem a arrecadar dinheiro a partir de doações dos leitores. A tecnologia torna o processo fácil como nunca, mas eu suponho que a renda continue modesta.

Jameson Rangel – Acho que o ideal é buscar o Sucesso Total, ou seja, o sucesso pela qualidade do trabalho e pelo retorno para quem investir nele. Somente o sucesso por um bom serviço, por reconhecimento, por prazer etc com certeza não basta. É claro que é possível manter por algum tempo algo de extrema qualidade sem investimento, mas não por muito tempo. A questão não é nem de se ganhar dinheiro com o projeto, mas ele deve ao menos se pagar.

JW – Você acredita em anúncios como única fonte de renda de um site independente?

Xico Vargas – Não. Apesar de ser mídia interessante e com inúmeras vantagens em relação às formas impressas, as agências ainda não consideram as publicações virtuais merecedoras de grandes fatias das verbas publicitárias. Mas isso está mudando rapidamente, em grande parte como conseqüência da depuração de que falei acima.

Jameson Rangel – Sim. Apesar de toda a crise na venda de publicidade (aliás, ela é mundial e não é só na internet). A questão é que para se vender publicidade existem 5 questões básicas que devem ser realizadas:

A primeira é que o site deve ter uma audiência razoável, não precisa estar entre as maiores audiências do país.

A segunda é a qualificação dessa audiência. De nada adianta uma audiência imensa se não se tem o perfil exato desse público ou se ele não interessa ao anunciante.

A terceira e uma das mais importantes é a equipe de vendas do site. Alguém especializado deve executar essa tarefa. Não adianta deixar essa questão na mão de quem não conhece ou não está focado em metas a serem alcançadas.

A quarta é o modelo de venda. Deve se avaliar bem como veicular a publicidade e quais os valores a serem cobrados. Existem várias opções como patrocínio do site ou de um canal específico, venda por período mensal, trimestral, semestral ou anual, por visualização (CPM) etc. Além disso, é preciso pensar nos padrões a serem utilizados. Se possível, o melhor é utilizar os padrões IAB.

A quinta e última é a busca de resultado para o anunciante. De nada adianta simplesmente vender e vender publicidade se o anunciante não obtiver retorno com essa mídia. Deve se buscar fazer com que as campanhas desenvolvidas alcancem os objetivos do anunciante, seja realizar fixação/interação com sua marca, visitas a seu site, cadastro ou venda de produtos ou serviços.

*Mario Lima Cavalcanti é editor de conteúdo do JW.

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