Por Mario Lima Cavalcanti (*)
A Associação de Negócios de Mídia da Noruega divulgou recentemente uma pesquisa que concluiu que virtualmente ninguém está interessado em versões PDF ("Portable Document Format" ou "Formato de Documento Portátil") de jornais. No último dia 21 de fevereiro, o jornalista Steffen Fjaervik, diretor associado do Instituto Norueguês de Jornalismo, comentou o estudo no blog E-Media Tidbits, sob o título "Nobody Wants the PDF Paper" ("Ninguém Quer o Jornal em Paper"). O levantamento em questão, no entanto, foi feito com um público relativamente pequeno, os leitores de um país. E se tivermos como base um público maior? Será que realmente ninguém está interessado em jornais PDF?
De uns tempos para cá, muitos veículos têm optado pelo formato - desenvolvido pela Adobe Systems em 1993 para representar documentos de maneira independente dos recursos usados para criá-los (para mais informações sobre o formato, visite aqui o verbete na Wikipedia) - a fim de oferecer ao leitor uma alternativa. Praticamente todos os jornais de grande porte em todo o mundo possuem uma edição em PDF. Na Europa, onde atualmente existe uma crescente oferta de diários vespertinos gratuitos, grupos de mídia optaram pelo PDF para aumentar a distribuição de seus veículos. Por outro lado, o formato é visto por algumas publicações como uma solução barata para permanecerem vivas. Criada em 1998, a revista espanhola de música Efe Eme anunciou que está deixando de existir como veículo impresso para começar a ser distribuída em formato PDF.
Baseado nas situações acima e focando no meio jornal, perguntei aos membros da lista de discussão do JW quais as vantagens de um diário em formato PDF. No Brasil, mais especificamente entre jornalistas ligados ao meio online, edições em PDF de jornais dividem opiniões.
Para o jornalista Carlos D'Andréa, que edita um blog sobre mídias digitais, o formato é promissor do ponto de vista da Internet como meio distribuidor.
- A primeira reação de todos certamente será "detonar" o formato PDF por ser uma mera reprodução do formato impresso no ambiente essencialmente hipertextual da WWW. Alguns devem se lembrar quando o Estadão, possivelmente o pioneiro entre os grandes no Brasil, adotou apenas este formato há alguns anos e foi extremamente criticado. E com razão. Se pensamos na Internet como um canal de distribuição, no entanto, formatos para impressão podem ser uma solução bem interessante. Um projeto que me chamou a atenção, mas que não sei se vingou em termos de audiência e anúncios, é o 24 horas do El Pais, que disponibiliza algumas vezes por dia PDFs atualizados para impressão. É o bom e velho jornal impresso quebrando sua clássica periodicidade diária em prol da sociedade de engarrafamentos e filas - diz Carlos.
Já o jornalista Nicolau Centola tem opinião contrária, acreditando que edições em PDF apresentam várias dificuldades e não trazem vantagem para os leitores.
- Pra mim não existe vantagem nenhuma. Talvez para designers que estudarão a evolução da diagramação etc. Mas para quem lê, acho que não há vantagem nenhuma. Existem desvantagens como tamanho do arquivo; dificuldade em ler na tela; dificuldade em trabalhar a hipermídia e conteúdos correlatos (sei que é possível em PDF, mas não é fácil); e dificuldade em imprimir em tamanho compatível com a leitura. Como ler uma página de jornal impresso em A4? Alguém já tentou imprimir uma página do Estadão em PDF, por exemplo, em uma impressora qualquer? Eu já, e além de ter que fazer cinco testes até que finalmente a página não seja cortada na impressão, fica tão pequeno que a dificuldade de ler é grande. Ou seja, quem quer imprimir o PDF precisa ter uma impressora especial, que imprima tamanhos maiores. E aí o PDF começa a ficar mais caro que ir à banca comprar o jornal. A única vantagem, a meu ver, fica para a empresa de comunicação - explica Nicolau, que em 2003 já havia escrito um artigo sobre a questão do PDF.
Entre estas e outras opiniões, todos parecem de acordo com um ponto: um jornal não deveria funcionar somente através de PDF, mas sim ver o formato como uma opção. Acostumada a ler edições em PDF de vários jornais, a jornalista Juliana Herling acha que o formato vale como um complemento e o vê como um atributo da personalização.
- A discussão partiu do post no E-Media Tidbits que, baseado em pesquisas, diz que ninguém está interessado nos jornais em PDF. Mas, qual é a amostragem? Foi feita na Noruega com um público que tem acesso ao jornal local e que deveria pagar pela versão deste em PDF. É um contexto bem marcado, certo? Agora vou dar o exemplo do meu caso. Eu leio várias edições, Estadão, Folha, O Globo e as locais. Na correria, prefiro ver a capa online sem precisar ir à banca. Acho bacana ter a versão impressa em PDF como um complemento, até para eu comparar as capas do dia. Por que uma empresa jornalística deveria ignorar-me como leitora, se gerar um PDF para ela é fácil? É aí que entra a questão da personalização, de oferecer ao leitor o conteúdo do jeito que ele quer, de um modo que também seja viável para a empresa, claro. Vejo isso como diversificação, oportunidade de conquistar leitores diferentes e, o mais importante, a construção de uma base de informações que pode ser útil na criação de conhecimento - conta Juliana.
O mestre em Informática e especialista no meio online Raphael Perret, também editor do Ponto JOL e acostumado com diversas formas de publicação online, sustenta a idéia do PDF como uma alternativa.
- Acho que o jornal se oferecer apenas através do formato PDF é um desperdício. O ambiente Web permite tantos recursos adicionais (multimídia, hiperlinks, só pra ficar nos básicos), que oferecer somente o PDF é atestado de pobreza de mentalidade. Agora, eu acho muito bom que o jornal ofereça, sim, como complemento, uma versão em PDF. Ou até algo semelhante, que deixe o leitor ver na Web como o jornal foi impresso na versão das bancas. O Globo faz isso hoje, como lembrou a Juliana, e a Folha, desde a primeira vez que acessei seu site, já disponibilizava o "fac-símile da capa". E tudo isso por um motivo bem particular: adoro ver capas de jornais - acredita Perret, que deixa a dica do site Newseum para aqueles que também apreciam capas de diários.
Tentando concluir a questão, vejo também o formato PDF como uma boa alternativa, e creio que, em se tratando de veículos online de grande porte, ele não deva ser nem esquecido e nem tido como única forma de leitura. Optar por uma edição em PDF vai esbarrar nos planos de cada grupo de mídia, na viabilidade e na necessidade por parte do público-alvo.
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Referências sobre o formato PDF:
Site oficial brasileiro do PDF
Site oficial do Acrobat Reader
Verbete PDF na Wikipedia
Site brasileiro sobre o formato PDF
*Mario Lima Cavalcanti é pesquisador de mídias digitais e editor do JW.
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