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01/06/2009 - 08:16:31
Cinco pontos sobre redes sociais na Internet - Parte 1

Por Raquel Recuero (*)

Imagem ilustrativaNos últimos anos, assistimos a um crescimento espantoso das chamadas tecnologias de comunicação. Essas tecnologias tornaram-se mais rápidas, mais populares e mais instrumentalizadas no cotidiano de milhares de pessoas em todo o mundo. Passaram, assim, a fazer parte de um conjunto de práticas sociais que permeia o século XXI, construindo sentidos e modificando comportamentos.

Dois elementos são marcantes nesta mudança estrutural: o primeiro deles é o foco na participação, que principalmente através da Internet, torna-se o carro chefe da popularização dessas tecnologias. O segundo é que essa participação dá-se em uma escala global, nunca antes proporcionada por nenhum meio de comunicação a indivíduos. É nesse âmbito que o foco nas chamadas "redes sociais" retorna à discussão. Nesse contexto, observamos novas práticas sociais que emergem da apropriação desses sistemas, primeiro com a popularização das salas de bate-papo, depois com ferramentas como fóruns, blogs, fotologs e, finalmente, através dos chamados sites de redes sociais.

Foi o surgimento desses sites (a partir de 1997, com o Six Degrees) e sua posterior popularização (a partir de 2002, com o Friendster) que banalizou o uso do termo "rede social" para os grupos formados na Internet. Sites de redes sociais são caracterizados principalmente pela exposição pública da rede de conexões de um indivíduo, que mostra aos demais quem são seus amigos e a quem está conectado; e pela construção de representações das pessoas ali envolvidas. (Esta última, enquanto fator necessário para que a primeira possa emergir.) Assim, as redes sociais na Internet não podem ser confundidas com a ferramenta que as suporta; são, por si, expressões de grupos sociais, de pessoas e instituições que estão permanentemente interconectadas pelas novas tecnologias de comunicação e informação. São constituídas pelas representações das pessoas (os perfis no Orkut, as páginas pessoais e etc.) e as conexões que existem entre essas representações ("amigos" no Orkut, links em um blog, etc.).

Muito se tem falado a respeito dessas redes. Tanto sobre o seu potencial de colaboração quanto dos elementos egocêntricos que rodam sua publicização. Nos meus próximos artigos, vou desenvolver o que chamarei de alguns "pontos", sistematizações e argumentações obtidas, principalmente, através de pesquisas empíricas, a respeito do fenômeno, onde pretendo mostrar como essas redes podem ser constituídas (e o são, muitas vezes) enquanto espaços de ações relevantes para a sociedade. É com o objetivo de sistematizar alguns conhecimentos sobre redes sociais na Internet que foco esse texto.

Ponto 1: Redes Sociais na Internet são sobre pessoas e não são desconectadas das redes offline

A referência às redes sociais no contexto do ciberespaço pode ser uma novidade. Mas os grupos sociais que surgem nesses sistemas não o são necessariamente. Como o trabalho de muitos pesquisadores tem mostrado (notadamente o trabalho das pesquisadoras americanas Danah Boyd e Nicole Ellison, por exemplo), esses sites tratam de complexificar relações já existentes, mais do que simplesmente proporcionar o surgimento de grupos novos. As pessoas estão utilizando essas ferramentas para reencontrar amigos, auxiliar a manter relações sociais e ampliar suas redes. Aqui, portanto, temos um primeiro ponto: As redes sociais na Internet vão expressar um conjunto de relações já existentes e vão manter um espaço contínuo de conexão para os atores sociais. Dentro dessa perspectiva, essas redes vão se constituir sim em espaços de trocas e interação e é esse o primeiro uso dessas ferramentas: conectar pessoas.

É essa conexão que contém grande parte do apelo dessas ferramentas. Não apenas pelo valor da sociabilidade mas, também, pelo valor do lazer. Assim, são comuns os casos de pessoas que encontram amigos de infância com quem não mantinham contato há anos através do Orkut, ou famílias que se reúnem com parentes desaparecidos, descobertos através dessas ferramentas. Estudos desenvolvidos a respeito do uso do Facebook nos Estados Unidos, por exemplo, demonstraram que muitos um dos principais valores da ferramenta era permitir que os jovens mantivessem contato com suas redes sociais locais quando se mudavam para estudar em outra cidade. Ou seja, a Internet auxiliava na forma de manter as conexões sociais das pessoas, como forma de amplificar o alcance dos contatos.

Assim, as ferramentas de comunicação mediada pelo computador não criam redes sociais desconectadas, distantes do mundo concreto de um determinado indivíduo. Ao contrário, expressam e complexificam as relações sociais já existentes, a partir do momento em que parte dos espaços sociais vai desaparecendo do mundo contemporâneo.

Ponto 2: Redes sociais na Internet são construídas pela apropriação

Outro ponto importante que precisamos levar em conta nessa discussão é que essas redes sociais, como espaços de "expressão do eu", são também construídas através da comunicação. São unicamente as trocas entre os indivíduos que vão estabelecer as conexões que depois serão mantidas pelo sistema. Como espaços sociais, as redes ultrapassam o objetivo da ferramenta. Elas vão além daquilo que foi pensado como possível. Assim, essas tecnologias têm seus significados reconstruídos pelos grupos sociais, que fornecem, através de suas práticas, sentidos diferentes para cada ferramenta.

Ora, as comunidades do Orkut, originalmente criadas como espaço de discussão, passaram a ser utilizadas por muitas pessoas como meros "crachás", demonstrando filiações e gostos e auxiliando na construção de um perfil. Assim, as comunidades foram apropriadas pelos grupos sociais brasileiros e reconstruídas com novos sentidos. O Twitter, outra ferramenta popular, por exemplo, também superou o foco na pergunta "o que você está fazendo" e se tornou um espaço de circulação de informações de todos os tipos, inclusive, noticiosas. Chamo esses usos de apropriação.

Essas apropriações não são determinadas pelas ferramentas e são quase sempre criativas e diferentes para grupos sociais diferentes. Essas apropriações vão construir redes sociais diferentes, conexões diferentes em cada espaço. Isso significa que os sites de redes sociais não são utilizados do mesmo modo. Grupos diferentes criam sentidos diferentes para as ferramentas.

Assim, há ferramentas de nicho, como o MySpace, que tem ganho popularidade por conta do foco na música, que tem sido apropriado por diversas bandas e grupos musicais como ferramenta de divulgação de seu trabalho e contato com fãs. Isso significa, também, que as redes sociais que são expressas nesses sites não são todas iguais. Mais ainda, dentro do mesmo sistema, podemos ter diferentes apropriações. Há, por exemplo, muitos grupos utilizando o Orkut como ferramenta de expressão. Mas também há grupos que se organizam e trocam informações através da ferramenta. Assim, a apropriação não pode ser generalizada ou generalizadora. O sentido é construído na ação das pessoas e em sua interação.

Continuação...

Tags: artigo, facebook, linkedin, orkut, raquel recuerto, rede social, redes sociais, twitter.


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