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26/06/2001 - 09:20:06
Histórias não contadas de Joelle Rouchou
Por Geiza Rocha. Rouchou trabalhou 11 anos no JB e Veja. A jornalista leciona redação e fala sobre técnicas de entrevistas

Por Geiza Rocha (*)

Joelle Rouchou foi buscar o material de sua tese de doutorado nas histórias que ouviu na infância sobre a chegada dos pais ao Brasil. As lembranças dos refugiados judeus, expulsos do Egito na época da Crise do Canal de Suez, em 1956, foram levantadas a partir de uma série de entrevistas, e servirão de base para que a jornalista teorize sobre um material primordial para o nosso trabalho: as entrevistas.

Na pesquisa, Joelle também descobriu algumas coisas interessantes. Entre elas, um site na internet onde estes judeus, que na época se espalharam pelo mundo, conversam e trocam fotos e lembranças de uma Alexandria onde árabes, judeus, franceses e ingleses conviviam em paz. 

JW - Que história você vai contar na sua tese?

Joelle Rouchou - A tese vai falar da imigração dos judeus do Egito para o Brasil. Com a crise do Canal de Suez, em 1956, todos os estrangeiros são expulsos do Egito, inclusive os judeus. A maioria foi para a França e para os Estados Unidos. Uma parte veio para o Rio de Janeiro e São Paulo. Acho que eles nem chegaram a 800 pessoas, eu ainda estou levantando o número certo. Nos depoimentos que já recolhi, dá para perceber que estes judeus que vieram para cá acreditavam num país novo e na possibilidade de refazerem suas vidas. A tese, que eu defendo pela Escola de Comunicação e Artes da USP, a ECA, vai contar um pouco dessa história. Meu material de análise serão as entrevistas, matéria prima dos jornalistas. Só que são belas entrevistas, longas. Não é uma coisa imediata e, sobre entrevista, a gente tem pouco material teórico. Então eu estou tentando produzir e criar alguns mecanismos que limitem a entrevista, e discutam a importância dela, para comparar com a História Oral que também se baseia em entrevistas. 

JW - Esta diferença entre a entrevista na história oral e no jornalismo é muito grande?

Joelle Rouchou - A gente tem a preocupação com o leitor, dele logo ser satisfeito. Na História as preocupações são outras. Para eles, nós jornalistas somos superficiais. Eu tinha muitas brigas com o meu professor de História Oral porque para eles a entrevista é um documento. Para nós, jornalistas, a gente talvez não dimensione da mesma forma porque quando a gente vai falar com alguém e depois reproduz o que foi dito nem sempre tem espaço, nunca tem o tempo que a gente gostaria de ter para preparar as entrevistas, para poder retornar para a pessoa. Então eu quero discutir um pouco esta questão do tempo X o jornalista na entrevista, partindo do princípio de que a gente sempre depende dela para o nosso trabalho.

JW - E a forma de apresentar a entrevista na História também é diferente?

Joelle Rouchou - O jeito de escrever a entrevista também é diferente. Em algumas correntes da História Oral eles pegam a entrevista e reproduzem exatamente como ela foi feita colocando entre parênteses alguns códigos para marcar para o leitor o que aconteceu durante a entrevista. Outros acham que é possível transcriar, reescrever a entrevista, que é o que a gente faz no jornalismo quando edita. Outros ainda usam a história oral como mais uma técnica para conseguir resgatar uma história, que é o que estou fazendo.
 Outra diferença é na forma de abordagem. Na História Oral você nem pergunta. Você aborda o tema e deixa a pessoa falar, sem interferir. No caso da minha tese é diferente porque eu estou indo com uma pauta na cabeça, eu tenho um objetivo. 

JW - Por que você escolheu esse tema?

Joelle Rouchou - Porque não há nada escrito, eles nunca se preocuparam com isso, e é uma memória que eu não gostaria de perder. Porque esta história tem a ver com a história do Rio de Janeiro. Quero trabalhar este material que é riquíssimo, lindo, triste e emocionado, sobre pessoas que foram expulsas, tiveram que largar tudo, e vieram para cá para recomeçar a vida e sobre as lembranças que eles têm. Até porque eu faço parte desse grupo, o que, no início, achei que pudesse ser um problema para mim. Uma vez, contei isso para o Muniz Sodré e ele disse: "Mas quem vai falar sobre judeu? O judeu, não tem jeito. Quem escreve sobre negro? A maioria é negra". O importante é deixar claro que eu também vim nessa leva com meus pais. 

JW - Os filhos destes judeus que vieram para o Brasil conhecem as histórias dos pais?

Joelle Rouchou - Os filhos não sabem quase nada, é meio folclórico e é por isso que eu quero fazer esta pesquisa também. Para saber um pouco mais sobre o que aconteceu. Assim como para mim foi superlegal ouvir outros relatos além dos que eu ouvia desde pequena, pode ser que eles também curtam. Outro dia eu estava assistindo na TV5 um programa chamado "24 horas no Cairo". Teve uma hora em que o repórter foi para a Alexandria e entrevistou as pessoas lá que são árabes, e eles também falam com a mesma saudade daquele tempo que os judeus daqui falam, citando o cheiro do mar Mediterrâneo e o cheiro de jasmim, uma memória recorrente nas entrevistas que fiz também. Foi muito curioso porque serviu de contraponto para eu ter a noção exata da força dessa lembrança, que não é só deles. 

JW - Como você encontrou as suas "fontes"?

Joelle Rouchou - A maioria dos entrevistados eu já conhecia, foram referências de quando eu era pequena, de tias, avós e tal. Mas estou peneirando porque não dá para entrevistar todo mundo. Tem uma história maravilhosa que eu desconhecia. Uma das moças que entrevistei foi presa em 1955 porque achavam que ela era comunista, o que é super curioso porque os judeus que vieram do Egito eram absolutamente apolíticos. Eles eram muito de namorar, fazer esportes, trabalhar e ganhar dinheiro. E não se misturavam muito à política do país. Essa moça que me deu o depoimento era completamente alheia à política. Um dia, a polícia chegou e perguntou à ela se ela conhecia uma mulher. Ela disse que sim, que era a sua amiga, que estudava com ela. Os policiais disseram que iam prendê-la porque a amiga era agente infiltrada e ela estava na lista de telefone dela. A mulher foi presa sem saber de absolutamente nada e foi levada para um lugar, uma espécie de campo de concentração, onde as pessoas, na maioria judeus, ficavam até serem liberadas. Dali eles só podiam sair para o país de origem do passaporte. Quem era apátrida, que era o caso dela, não tinha para onde ir. 

JW - A internet foi para você uma boa fonte de pesquisa?

Joelle Rouchou - Um dos capítulos da tese vai ser sobre a internet. Porque esse grupo consegue se reunir no mundo inteiro a partir de uma revistinha e de um site criado por um senhor suíço. Ele criou uma página chamada "Les Anciens de Alexandrie" que é um lugar na internet onde eles se encontram e falam como se o tempo não tivesse passado. Pela página, eles marcam encontros e apresentam os relatórios dos encontros que organizam pelo mundo. Mas o vocabulário, as referências deles, é como se eles ainda estivessem lá. De vez em quando um grupo vai visitar Alexandria. Aí eles põe as fotos como se fosse um álbum para que essa família de internautas possa ver. É muito legal: eles se encontram, comemoram. E os outros podem acompanhar isto pela rede.

JW - Qual a maior dificuldade para você nesta tese?

Joelle Rouchou - Estou levantando os dados ainda. Só devo apresentá-la daqui a dois anos. Mas quando fiz mestrado, minha sensação era a de que eu estava produzindo uma enorme reportagem. Agora, eu estou fazendo uma reportagem ainda maior do que a do mestrado, gigantesca. Na verdade ela será uma edição de todas as entrevistas que vou fazer, e minha pauta é: como era a vida no Egito, o que aconteceu na crise de Suez, e como foi chegar ao Brasil. Quero saber como foi o susto que tiveram, a viagem, porque para eles a viagem foi tristíssima, a chegada aqui e a adequação. Todos se deram muito bem e não se vêem como um grupo isolado. Na verdade eles chegaram aqui para construir uma nova vida, se espalharam pela sociedade e puderam reproduzir a coexistência da diferença, como existia no Egito. Aqui eles foram bem-vindos, são bem tolerados e toleram. Mas todos se adaptaram e hoje, quando você pergunta, a maioria deles bate no peito e dizem que são brasileiros. 

JW - O jornalista está lidando o tempo inteiro com histórias muito diferentes. Não enjoa mergulhar num assunto durante anos?

Joelle Rouchou - Tem hora que dá vontade de desistir de tudo, de mudar de tema, mas faz parte. Como já fiz mestrado, isso nem me assusta mais. E no jornalismo também não é muito diferente. Todo ano você vai ter uma entrevista com Caetano Veloso, uma entrevista com o Chico Buarque. Na Geral, todo ano vai ter missa do D. Eugênio Sales, todo ano tem carnaval no sambódromo e enchente. Muda mas sempre voltamos aos mesmos assuntos. No doutorado, o tema é um só, mas que eu tenho que trabalhar as entrevistas e a história e nisso eu vou aprendendo muita coisa que não sabia. Trabalhando em jornal, eu sentia falta de estudar. Eu sentia que tudo que eu sabia estava sendo sugado pelo jornal e nada estava sendo posto no lugar. Então agora é assim: eu leio livro sobre identidade cultural, identidade isso e aquilo e esse processo de aprendizado é que me estimula.

JW - Você se considera uma jornalista que virou pesquisadora?

Joelle Rouchou - Não. Mas você pode estar pesquisadora, né? A minha profissão não é nem jornalista, é repórter. Eu vou morrer repórter. Adoro apurar e não existe melhor pesquisador do que um repórter. Eles não sabem disso, os historiadores, mas a gente sabe porque a gente sabe o que a queremos procurar, a gente sabe produzir e onde encontrar as coisas. É o mais importante: eu não deixo de ser repórter nunca. 

Joelle Rouchou trabalhou 11 anos no Jornal do Brasil e Veja. Hoje, além da tese a qual dedica todo o tempo livre que lhe sobra, ela é pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. Também dá aulas na Faculdade de Cidade sobre edição no jornalismo, técnica e prática de Redação.

*Geiza Rocha é jornalista e redatora Web.

Tags: geiza rocha joelle rouchou entrevistas história historia redação redacao.


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