Por Raquel Recuero (*)
Uma das funções que está cada vez mais aparente na apropriação dos sites de redes sociais é seu uso como filtro de informações. As redes sociais conectadas através da Internet começam, cada vez mais, a funcionar como uma rede de informações, qualificada, que filtra, recomenda, discute e qualifica a informação que circula no ciberespaço.
A discussão sobre a função do gatekeeper remonta à década de 40 e 50, principalmente pelo trabalho de Kurt Lewin, que apresentou a proposta da associação do fluxo de informações em um dado sistema com a presença de determinados filtros (gatekeepers), que permitiriam ou impediriam a circulação de determinadas informações. No jornalismo, a idéia do gatekeeper é relacionada também com a comunicação de massa e o poder sobre a informação deixado a cargo dos mídia, mas perde força. Com a complexificação e a ampliação das conexões entre os atores nas redes sociais, principalmente pela Internet, que proporcionou um canal que está sempre aberto para o tráfego de informações, a discussão sobre o gatekeeping começou a beirar a superfície novamente.
Um dos primeiros motivos é o elemento complicador da Internet como meio: a supervia de informações. A Rede proporciona uma imensa quantidade de informações disponíveis e acessíveis, que correm pelo ciberespaço. Como uma releitura da gigantesca biblioteca de Babel Borgiana, é um universo de informações que se tornam invisíveis pela dificuldade de organização e hierarquização, pela dificuldade de encontrar o que é relevante. Quando tudo é acessível, pouco é relevante.
Neste universo, as redes sociais parecem organizar-se como filtros, no sentido de auxiliar na organização dessas informações. Como? As redes passam a eleger e atuar como gatekeepers. Através da seleção e da publicação de informações especializadas e localizadas, os atores sociais estão construindo relevância, a partir de valores sociais como reputação. Nichos de pessoas interessadas em determinados assuntos vão produzir informações relevantes, detalhadas e novas. Esses atores vão filtrar as informações do ciberespaço e publicá-las, para quem quiser ouvir/ler. Através da escolha de seus próprios gatekeepers, os demais atores vão construir uma leitura focada das informações que lhes são importantes. Essa leitura é assim, personalizada, através da escolha de suas próprias fontes informativas.
Vários exemplos dessas atuações já foram expecificados pela literatura. Mas além do jornalismo cidadão ou participativo, construído pela ação dos atores sociais, o papel de gatekeeper a que me refiro parece ser ainda mais amplo. Quando um determinado ator social seleciona sua lista de leituras de feeds, por exemplo, está filtrando as informações a partir de outros filtros. E se as republicar em outras ferramentas, também será, ele mesmo, um filtro para os demais. O papel da rede social vai ainda mais longe: Além de filtrar, ela qualifica, complementa, discute. Uma informação que é passada adiante no Twitter, por exemplo, raramente o é sem uma qualificação, um julgamento de valor ou observação daquele que a passa. O próprio “retweet” é um instrumento que qualifica uma informação, lida e considerada relevante pela rede. Mesmo um feed que é repartido com a rede social é valorizado. Trata-se assim, de uma nova estrutura informacional, onde o trabalho de filtragem de informações é realizado pelos próprios atores para os próprios atores sociais. Cada informação pode ser trazida a luz, desconstruída, discutida, repassada e debatida por ação dessas redes, em uma dimensão completamente nova e em escala quase planetária.
Um dos grandes questionamentos que permeia esta mudança é, justamente, seu impacto na mídia tradicional e no jornalismo. Não sabemos bem, ainda, como essas redes poderão atuar junto aos veículos informativos tradicionais. Mas sabemos que uma grande parte da informação que começa a ser veiculada e considerada relevante pelas redes sociais offline está vindo dessa efervescência informacional dos espaços online e dos novos gatekeepers.
*Raquel Recuero é doutora em Comunicação, professora e pesquisadora da Universidade Católica de Pelotas e do CNPq e consultora em mídias sociais. Mantém o blog Social Media.
Tags: gatekeeper, raquel recuero, rede social, redes sociais.Para comentar é preciso estar logado. Faça aqui o seu login.
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| Postado por rchimirri em 02/03/2010 - 15:58:19: As redes sociais, de fato, são um grande avanço. Observo pelo meu São Carlos em Rede, depois que passei a utilizar as redes sociais como ponto de suporte, as informações passarem a atingir mais pessoas e os resultados são cada vez melhores. Esse é o caminho do futuro. | ||
| Postado por 123456 em 25/04/2009 - 17:18:29: Que o ciberespaço é um ambiente rico de possibilidades,conteúdos e informações já sabemos,e uma das procupações principalmente do meio jornalístico no que se refere a "fonte" é saber se esse conteúdo tão disponível é realmente relevante. Atrelar novos conteúdos focados na informação que se quer construir ou desconstruir através da produção de idéias ímpares e descomprometidas das mídias convencionais é um passo imprescindível e criativo além de necessário num espaço democrático onde nem tudo pode ser aproveitado. Quanto a questão do jornalismo em si,é uma importante ferramenta que proporcionará otimizar as vantagens do ciberespaço.As midias tradicionais por certo passarão por uma tranformação física e principalmente postural, visto que o novo por si requer. | ||
![]() | Postado por raquelpassos em 21/04/2009 - 10:55:30: Como já foi dito nos três comentários anteriores, a internet é o meio mais fácil de dispôr conteúdos relevantes e pertinentes ao indivíduo. Porém, o que Raquel Recuero pontua muito bem é justamente a respeito dessa relação criada entre conteúdo x espaço x pessoas. "Quando tudo é acessível, pouco é relevante", ou seja, a quantidade de informações que são disponíveis/acessíveis na internet supera a própria demanda. Achei muito interessante ela falar sobre a internet como "supervia de informações". Como já foi pontuado nos três comentários anteriores ao meu, hoje já constatamos de que é fato que a internet nos permite interagir com os autores de informações postadas nas redes e de que cada indivíduo tem seu papel diante da construção da informação, como diz Pierre Lévy em um de seus textos a respeito do ciberespaço e o papel do indivíduo neste ambiente "novo". Portanto, penso que a partir do momento em que você pesquisa, encontra textos nos quais possuem hiperlinks que te levam a outros textos relacionados e você começa a não parar dentro do ciberespaço, construindo seu ponto de vista e tendo a oportunidade de desconstruir os já (e até então) estabelecidos, é onde a autora deste texto pretende chegar... Percebi então que a informação qualificada, quando é filtrada pelos atores nas redes sociais, passam a se tornar organizadas dentro do ciberespaço e assim, proporciona a um número maior (e mais qualificado, inclusive) de pessoas a ler/ouvir tais informações. Segundo a autora Recuero, esta é uma nova maneira de organizar as informações. "Trata-se assim, de uma nova estrutura informacional, onde o trabalho de filtragem de informações é realizado pelos próprios atores para os próprios atores sociais. Cada informação pode ser trazida a luz, desconstruída, discutida, repassada e debatida por ação dessas redes, em uma dimensão completamente nova e em escala quase planetária." | |
| Postado por nicelma em 18/04/2009 - 18:30:18: A internet nos permite de um modo geral,pesquisar,argumentar e nos orientar sobre a informação postada pela rede.É através dela,que nos orientamos do que está acontecendo em tempo real, gerando opiniões diversas onde diversas pessoas de vários locais se comunicam..interagindo expondo seu ponto de vista,tanto positivo,como negativo. | ||
![]() | Postado por poly em 18/04/2009 - 14:24:50: O fato é que tanto os profissionais de comunicação quanto nós estudantes estamos diante de uma nova mídia, onde todas as ferramentas que a constituem funcionam como fonte de informação.Cabe ao profissional está ,apto para as peculiaridades da nova mídia que já faz parte de nosso espaço. Temos que permanecer atento a tudo. Pois, este é o meio onde podemos opniar, concordar,discordar com o próprio leitor/ou jornalista seja lá quem for. A internet proporciona a capacidade de interagir em tempo real. | |
| Postado por shis em 17/04/2009 - 19:50:53: Esse assunto referente ao ciberespaço, nos permite uma reflexão ampla, pois hoje a internet abre um leque de oportunidades, para obtermos de diversas formas informações. São sites de relacionamentos, blogsites e tantos outros meios. E sobre essa questão da internet ela nos possibilita publicar,filtrar, discutir e complementar idéias. Isso gera pelo seu teor de relevância, uma conscientização Social. Realizando uma busca habitual em sites de informação e entretenimento, localizei um texto de Ricardo Kotscho cujo tema era:"Por que tanta gente quer ser jornalista". Achei muito interessante a colocação do autor quando tenta entender o por que, da procura por esta área, que ao mesmo tempo enfrenta grandes problemas, o mais atual, a questão do Supremo Tribunal Federal em querer provavelmente acabar com a obrigatoriedade do diploma, logo após, enviei imediamente o texto para os colegas da turma da faculdade inclusive a professora. Ou seja, isso nos permite perceber, como a internet pode nos aproximar e nos levar a discutir temas onde ao mesmo tempo, podemos nesse ambiente concordar com a opinião do autor ou descontruir essa idéia e formular outras. Tudo isso é permitido no ciberespaço. Shislane Vitória | ||