Capítulo-chave 3

A
Proposta de Lúcifer

Orion e Ablon desceram por túneis obscuros, que terminavam em um grande salão escavado na pedra. Uma galeria escura nascia além da passagem, e estava abarrotada de ossos, no chão e junto às paredes. Labaredas ocasionais brotavam do solo, iluminando o cenário e soltando fumaça.

Apesar da amplitude da gruta, o renegado experimentou uma desagradável sensação de claustrofobia, talvez por causa da atmosfera enevoada, que reservava zonas de penumbra aqui e ali, ocultando inomináveis perigos.

Lúcifer, a Estrela da Manhã, estava no fundo da furna, elegantemente sentado em seu trono de crânios. Sua postura majestosa era muito superior a dos líderes comuns, e imitava a imponência de um deus. De longe, parecia um homem belíssimo, de rosto juvenil, traços finos e aparência angelical. A pele era macia, delicada, e os olhos refletiam um azul profundo, tal qual o brilho do céu. Os longos cabelos loiros estavam presos em trança, atados por pequeninos fios de ouro. Uma túnica de seda branca cobria todo o seu corpo delgado, deixando escapar a única coisa que realmente o distinguia como um ser infernal: um horrendo par de asas de morcego.

Em pé, ao seu lado, estava o seu principal conselheiro, o odioso demônio Samael. A primeira vista, era só uma criaturinha desprezível, magra e esguia. Tinha o corpo como o das serpentes, e uma língua dupla que se agitava, para dentro e para fora da boca, por entre as presas ofídicas. Andava se arrastando, pois não tinha pernas, só braços, iguais aos humanos, em contraste com sua forma bizarra.

Quando ainda era um anjo, Samael foi incumbido da tarefa de transmutar-se em cobra, e ir ao Jardim do Éden tentar o memorável Adão. A sua natureza vil e perigosa o aproximou de Lúcifer desde o início, e depois da Queda ele acompanhou o seu mestre às trevas do Sheol. Ao converter-se em demônio, continuou a deixar sua marca detestável na humanidade, tendo guiando inúmeras almas à corrupção. Ficou tão famoso entre os terrenos que muitas vezes foi confundido com o próprio Diabo, recebendo pelos mortais a designação de Satã ou Satanás .

Orion se ajoelhou diante de seu mestre nefasto, espalhado na cadeira de ossos. Mais atrás, o general estava em alerta. Sua visão era afiada, e ele enxergava mesmo no breu.

- Bom trabalho, meu servo – elogiou o Arcanjo Negro, reconhecendo o esforço de Orion – Eu agradeço por sua lealdade.

Depois, ele fitou o general, satisfeito, e voltou aos seus comandados.

- Orion, Samael – falou aos demônios –; vocês podem ir agora.

- Sim, meu amo – aceitou o atlante, retornando ao mesmo túnel por onde tinha entrado. Samael se arrastou, e desapareceu em um canto obscuro.

Quando teve certeza de que seus súditos já não mais o escutavam, o Filho do Alvorecer relaxou, e abriu um longo sorriso cordial.

- Não imagina como estou feliz por ter aceitado o meu convite, Ablon.

- Poupe-me de suas amabilidades, Lúcifer. Esta é uma viagem de negócios.

- Mas é claro que é – acedeu a Estrela da Manhã, com um sorriso malvado, que foi ocultado pela fumaça das labaredas.

- O que aconteceu com seus chifres e cauda? Você parece ter mudado bastante desde a última vez que o vi.

O Arcanjo Negro se levantou do assento moldado, deixando transparecer muita calma. A autoconfiança, certamente, era a sua característica mais importante.

- Ora, general, não fique impressionado. Eu posso assumir qualquer forma. No princípio até eu me surpreendia, mas depois de tantos anos a coisa vai ficando aborrecida. “O Diabo tem muitas faces”. Você já deve ter ouvido isso em algum lugar.

A expressão séria do Querubim não se alterou, apesar do humor diabólico.

- Entendo – disse apenas, como quem não vê graça em uma piada de mau gosto.

O Anjo Caído caminhou firme na direção do renegado, mas estacou a uma distância aceitável.

- A propósito, espero que Apollyon não tenha causado problemas na entrada. Se o fez, eu peço desculpas. Tente compreender que ele e você são como os dois lados de uma moeda. Absolutamente diferentes, mas pertencentes à mesma peça.

- O que quer dizer? – reagiu o celeste, perguntando a si mesmo se aquele não era mais um dos muitos estratagemas da espécie infernal.

- Perceba, o destino de vocês está unido desde o princípio. Apollyon uma vez foi um anjo, o anjo encarregado de destruir Sodoma e Gomorra. E nós sabemos que a conjuração que você comandou foi deflagrada quando Miguel ordenou a aniquilação dessas duas cidades. Infelizmente vocês puseram tudo a perder quando levantaram armas contra o Conselho.

- Infelizmente – Ablon se apressou em esclarecer – eu confiei a minha revolta a um dos arcanjos, a um dos Grandes. Eu acreditava que ele também estava indignado com a tirania do príncipe, e com sua intenção de acabar com a humanidade.

E ao dizer isso, o guerreiro olhou zangado para o anfitrião, e completou:

- Mas esse arcanjo me traiu.

O Filho do Alvorecer logo entendeu a indireta, e passou à defensiva.

- Eu não queria de fato fazê-lo, Ablon, eu juro a você! – protestou, com um toque de inocência infantil.

- Então por que o fez? Sabia que delatando a conjuração conseguiria mais poder e prestígio. Foi por isso, não foi? Ambição.

- Sim, sim! – exclamou, excitado por ter a oportunidade de expor a sua versão dos fatos – Eu os delatei para poder subir na hierarquia, e me igualar a Miguel. Só assim poderia arquitetar a minha própria rebelião, e ter chance de sair vitorioso. Eu sabia que vocês nunca despojariam o tirano. Eram apenas 18. Dezoito anjos! – o infernal se esforçava para ser convincente – Eu, ao contrário, consegui trazer um terço do Céu para o meu lado. Tínhamos realmente a chance de debelar o perverso. Será que entende agora? Não foi nada pessoal. Nunca tive coisa alguma contra você. Sempre admirei a sua vontade e perseverança. Mas tive que sacrificar a Irmandade para dar início a algo muito maior, que, imaginava eu, duraria para sempre.

- Não seja hipócrita, Lúcifer. Você nunca quis o bem dos humanos, ou tampouco dos anjos. Queria depor Miguel por razões particulares. Queria tomar o seu lugar e ascender acima de Deus.

- Isto não é verdade, general. Eu quero o bem da humanidade. E foi por isso que o chamei aqui. Para evitar que o nosso inimigo traga o Armagedon sobre a Terra.

- E por que você acha que eu ia querer impedi-lo? – ele repetiu o que dissera ao espírito Korrigan – O Armagedon marca o despertar do Altíssimo. Yahweh acordará de seu sono e punirá os injustos.

- Ora, Ablon, pense bem! Se isso é verdade, então por que Miguel está se preparando para o Juízo Final, por que está tão ávido por esse momento? Ele é um opressor, e seguramente o primeiro a ser condenado se o Criador acordar.

- Qual é a sua hipótese, então?

- Miguel provavelmente descobriu um meio de usar a energia que será desprendida ao despertar do Altíssimo para se converter em um deus, ele próprio – declarou Lúcifer, chegando ao ponto onde queria.

O Querubim estava confuso.

- Isso é possível?

- Sem dúvida.

Ablon sabia que a Miguel não faltava vontade de tornar-se onipotente. Sua gana de poder era ilimitada. Ele seria capaz de qualquer coisa para alcançar a divindade, até mesmo roubar a energia do Pai. Quanto a isso o renegado tinha certeza, mas como pretendia implementar seu projeto macabro?

A Estrela da Manhã passeava pela caverna, aguardando a reflexão do guerreiro. As asas de morcego movimentavam-se lentamente, para frente e para trás, acompanhando o caminhar elegante. Parou ao lado de uma labareda e brincou com o fogo, pondo o dedo dentro da chama.

- Estou pedindo a sua ajuda para impedir que o Príncipe dos Anjos conclua o seu plano terrível, poupando assim milhares de vidas humanas – desfechou o Senhor do Sheol.

- Se é verdade que Miguel pretende ascender ao nível de Deus, então o que me assegura que você não tentará imitá-lo?

- Eu já disse que não quero ser Deus, Ablon. Talvez no passado, quando ainda era um arcanjo, isso já tenha passado pela minha cabeça, hoje não. Dê uma olhada à sua volta. Eu tenho o meu próprio reino aqui. Tenho meus servos. Nada me ameaça, nem as legiões celestiais – garantiu, caminhando de volta ao seu trono – Trazer as almas injustas para cá e torturá-las é o que eu gosto de fazer, você sabe disso. Para mim, é imperativo preservar as coisas, como elas estão. Anjos no Céu; nós, demônios, no Inferno. Não há ninguém que se beneficie mais com essa disputa do que eu. Ela move o Paraíso também, mas a verdade é que o meu irmão percebeu que está perdendo a contenda. A degradação tomou conta da humanidade. Cada vez mais, os mortos vêm até mim. Por isso Miguel quer o fim do mundo, quer que o Tecido logo se desintegre – O Caído se sentou novamente, e teceu uma explicação mais detalhada – Nós, os infernais, não temos devaneios de pureza. Veja o caso daqueles que morrem em bondade. Seus espíritos seguem ao Céu, e lá permanecem por toda eternidade, enfiados naquelas chatíssimas colônias celestes. Os arcanjos nunca permitiriam que eles se tornassem alados. Mas nós... ah, conosco é diferente – regozijou-se – Toda alma corrompida que vem para cá tem a sua chance de crescer, de prosperar, e de vir a comandar hordas inteiras. Não é um caminho fácil, é claro, mas com isso as nossas forças estão se multiplicando. Em breve teremos contingente suficiente para invadir o Paraíso.

O renegado não gostou nem um pouco do que ouviu, mas Lúcifer o tranqüilizou:

- É claro que não pretendemos fazer nada disso. Eu sei, melhor do que ninguém, que não há trevas sem luz. Mas a verdade é que aquele déspota lá no Poleiro – ele apontou um dedo para cima, evocando uma gíria popular no Inferno, usada para designar os Sete Céus – está se borrando de medo do que eu possa vir a fazer – o tom ficou mais agressivo –, e encontrou a hora certa para agir.

A capacidade de persuasão do Diabo era lendária. Por muitas vezes, Ablon tinha repetido para si mesmo que recusaria o acordo, mas agora não podia negar que estava ansioso para ouvir a proposta. Ainda não sabia se iria aceitá-la, mas o fato era que os argumentos do Arcanjo Negro faziam todo o sentido. Poucas vezes o guerreio escutara verdades tão sérias sobre o tirano Miguel. As suas proposições, com efeito, eram postas de forma que eles dois – Ablon e Lúcifer – pareciam já aliados, contra um perigo maior.

- Digamos que eu aceite. Qual é a minha parte no acordo?

O Filho do Alvorecer sorriu na penumbra, e se ajeitou no trono de ossos.

- Você conhece a Fortaleza de Sion – não era uma pergunta.

- Eu a vi ser construída, e depois presenciei quando a Roda do Tempo foi fixada em seu pináculo – A Fortaleza de Sion era o maior bastião das forças celestiais fora do Céu. Ficava no Plano Etéreo, sobre os arredores da cidade de Jerusalém.

- Em uma câmara no penúltimo andar de Sion está a Sala dos Portais. É um aposento circular, com muitas portas, que na verdade são passagens místicas para outros planos de existência. Uma delas leva ao Sheol, ligando a câmara a um ponto específico no Inferno, muito próximo a esta caverna em que estamos agora. O que você precisa fazer é entrar na torre e abrir a porta correta. Assim, eu e minhas hostes poderemos invadir o baluarte por dentro. Pegaremos Miguel desprevenido, e o mataremos, abreviando assim os seus dias de crueldade. De outra maneira nunca poderíamos penetrar na bastilha.

O Anjo Renegado fitou o vazio, digerindo as palavras. Enquanto isso, Lúcifer enfiou a mão em um buraco ao lado do trono, e de lá tirou um objeto rústico, moldado em barro sólido. Tinha a forma de uma cruz, envolvida por um anel, e o tamanho não superava ao de uma palma aberta. A aparência era ordinária, simplória, mas suas vibrações eram muito fortes. Era um artefato místico de grande poder, com certeza, mas um terreno nada daria por ele. A superfície estava toda marcada por inscrições ancestrais, em uma linguagem só acessível aos anjos.

- Pegue! – O Arcanjo Negro jogou o objeto no ar, e o lutador o agarrou por reflexo – Esta é a chave. Basta que você a encaixe na cavidade da porta, e empurre a passagem. Estaremos lá em instantes.

O renegado analisou a relíquia, e constatou sua autenticidade.

- Por que eu? – indagou de repente, ainda relutante em concordar – Por que você precisa de mim para fazer o serviço?

O infernal contemplou o convidado, com certo ar de admiração.

- Primeiro porque você é o melhor combatente que eu conheço. Depois de tudo pelo o que passou, e a todos os inimigos que enfrentou, não creio que haja hoje no mundo quem possa vencê-lo em combate direto – Era um exagero, é claro, mas o Caído entendeu que deveria exaltá-lo, como técnica de eloqüência – Segundo, porque você viveu muito tempo na Haled, e sabe melhor do que ninguém ocultar sua aura pulsante. Por isso, os guardiões de Sion não poderão ser alertados de sua presença, se você decidir por uma infiltração sorrateira, o que eu recomendo fortemente. Afinal, nem mesmo um general sobreviveria a um exército de Querubins furiosos – concluiu, e aguardou a reação do guerreiro, deixando-o bem à vontade.

O Anjo Renegado estava ainda indeciso, mas não sabia exatamente porquê. Como poderia acertar um pacto com a mesma entidade que havia, há anos, posto ele e seus amigos na linha de fogo?

- O que eu ofereço – reforçou o demônio, percebendo a hesitação do celeste – não é apenas a oportunidade de derrotar Miguel. É a chance de salvar o universo.

Ablon ponderou. Não era exatamente aquilo o que esperava ouvir do Senhor do Sheol. O Diabo sempre tinha as palavras corretas para o momento mais oportuno. Em contestações verbais era invencível.

- Escute, guerreiro – prosseguiu o demônio, emendando um novo assunto –, não ache que eu estou alheio ao que acontece na Terra. Eu sei que os homens estão envolvidos em sua própria guerra, e que desenvolveram armas capazes de devastar o planeta. Mas para nós, imortais, essas bombas que ameaçam cair são apenas sinais que nos indicam a iminência do Apocalipse. Por mais que os humanos tentem se destruir, nunca terão sucesso absoluto. Nem mesmo nós conseguimos isso. Você se lembra da Era Glacial? Lembra-se do Dilúvio? Já perdi a conta de quantos cataclismos os arcanjos fomentaram – ele ajustou a tonalidade da voz, para parecer mais dramática – Não... os terrenos vão sobreviver a esta Guerra Mundial, como já fizeram anteriormente, em batalhas e hecatombes, e os seus remanescentes ressurgirão das ruínas. Entretanto, se Miguel conseguir o que planeja, os massacres continuarão. Sem o Tecido da Realidade para limitar os seus poderes, os anjos da morte vagarão pelos escombros, ceifando cada vida humana, até que não reste mais “nenhum primata para sujar a Criação”. Mas... – o tom mudou novamente, assumindo um caráter glorioso – se vencermos... se vencermos tudo voltará a ser como era antes da tirania, e o Paraíso será finalmente governado pelos alados devotos à Palavra de Deus. Você alcançará a sua redenção, e voltará ao Céu como herói.

- E quanto a Deus? – surpreendeu o anjo, encurralando o infernal.

- Deus? – pela primeira vez Lúcifer se complicou, mas com a sua mente aguçada logo contornou a situação – Bem... se Yahweh acordar mesmo, general, então Ele saberá o que fazer. Mas eu acho que não devemos contar mais com isso. Caso você queira mesmo saber, a minha consciência está limpa. Sempre fiz o que achei certo. Nunca me curvei e nunca me curvarei a um assassino. Todavia, tenho ciência de que eu não serei o meu próprio juiz. Se o Altíssimo resolver me punir, então não poderei fazer nada além de aceitar a sentença. Não tenho vergonha dos meus pecados, porque eles não são maiores do que os erros dos outros.

Foi um discurso impressionante, reconheceu o lutador, mas será que as palavras do Arcanjo Negro eram verdadeiras, ou aquilo não passava de uma encenação para empurrá-lo à armadilha, ou para usá-lo como peça em seu jogo mortal? O Filho do Alvorecer era astuto, traiçoeiro, e acima de tudo sedutor. Dominava a oratória e sabia explorar os pontos fracos de seus entrevistados. Qualquer um se dobraria facilmente a ele, sobretudo diante de uma proposta tão tentadora: destruir o perverso Miguel, salvar a humanidade e retornar ao Paraíso. O que mais um anjo renegado poderia querer? Tudo se encaixava, e pelo que o Querubim conhecia da personalidade de Lúcifer, ele não estava sendo adverso à sua natureza. Todos ganhariam: anjos, demônios e homens. É claro, muitos mortais seriam vitimados pela força de suas armas humanas, e pela guerra que eles próprios arquitetaram. Mas o general já testemunhara situações bem piores, como a que sucedeu ao Dilúvio, quando somente um punhado de terrenos sobreviveu, e mesmo reduzidos revitalizaram toda a civilização.

As evidências empurravam o renegado à resposta positiva, mas seu veredicto final surpreendeu o Diabo.

- Eu não posso fazer isso, Lúcifer.

- Eu não compreendo, general – Sua expressão era séria, mas neutra – Se nos unirmos, poderemos concretizar aquilo que tanto eu como você sempre sonhamos: pôr fim à opressão dos arcanjos.

- Eu sou um anjo renegado – explicou o visitante – Nunca tomei parte nesse confronto entre o Céu e o Inferno porque nunca concordei com ele. E não será agora, próximo do Fim, que eu vou mudar a minha posição – ele virou o corpo, já se preparando para deixar a caverna – Mas não se preocupe. As suas informações estão seguras comigo. Eu vou usá-las da melhor forma, e talvez até faça alguma coisa para deter o Armagedon – e acrescentou, com firmeza –, mas não será ao lado de um traidor.

As palavras saíram agressivas, mas não havia raiva em seu coração. Era uma opinião sólida, consciente, que provinha da experiência, e não do furor da vingança. Em verdade, Lúcifer nunca fora o objeto de sua desforra, e nem mesmo o arcanjo São Miguel, mas sim o demônio Apollyon, que torturou seus amigos.

Preparado a qualquer investida, o celestial fechou os punhos e recuou uns dois passos. Lúcifer não era o tipo que engolia desaforos, e talvez não tivesse gostado de ter sido chamado de traidor. Mas, como o demônio observara anteriormente, Ablon era um oponente inigualável, e agora contava, ainda, com a proteção das runas mágicas gravadas em seu braço pela Feiticeira de En-Dor. Uma delas o imunizava contra qualquer ataque mental, e a outra o salvaria da morte.

Contrariando todas as suas expectativas, entretanto, o infernal replicou:

- Eu respeito a sua decisão, general. Se é nisso em que acredita, então que assim seja.

Sim, era isso. E ponto final. Não havia muito mais a dizer, e Ablon não estava disposto a continuar por ali, em tão funesta companhia. Caminhou à saída, mas aí se lembrou que ainda segurava a chave de pedra – a relíquia mística que Lúcifer o entregara e que, supostamente, abriria a passagem ao Inferno. Como não tinha selado qualquer acordo, achou por bem devolvê-la, mas a Estrela da Manhã o impediu.

- Não, Ablon, fique com a chave. Para o caso de você mudar de idéia.

O Querubim estranhou. Lúcifer sempre fora esperto e prudente, mas não havia prudência alguma em deixar uma peça tão importante em poder de alguém que não fosse seu aliado. O anjo imaginou que aquela atitude poderia ser calculada, uma ação posta em prática para fazê-lo reconsiderar. Mas se esse era o seu objetivo, o Arcanjo Negro falhara. O renegado não estava disposto a entrar na ciranda. Moveu a cabeça em uma negativa, e mais uma vez pensou em largar o objeto, porém o anfitrião reiterou:

- Não se preocupe comigo. Eu mandei fazer uma cópia – declarou, piscando um dos olhos e reassumindo sua faceta sarcástica – Leve-a com você.

Por fim, o herói concordou, e guardou a relíquia no bolso – não havia mal algum em ficar com ela. Talvez as suas vibrações pudessem denunciá-lo, mas quem viria caçá-lo, a essas alturas? Acabara de se encontrar com o próprio Diabo, e se Miguel em pessoa aparecesse para matá-lo, ele o enfrentaria. Mais uma vez refletiu sobre todas as artimanhas e trapaças possíveis, e inferiu que o Filho do Alvorecer não era mais uma ameaça. Em seguida, deixou a caverna.

A sua última visão da gruta foi bem parecida com a primeira. Ele vislumbrou o Anjo Caído sentado em seu trono de crânios, com a expressão indecifrável por trás da fumaça.

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