Chuva de Sangue

Por Eduardo Spohr

A legião de anjos cortou o céu, deixando o interior da enorme nuvem que explodia em fogo e calor logo atrás de si. Fazendo o chão do deserto queimar, a nuvem espalhava areia fervente, produzindo uma cratera de quilômetros e devastando tudo que se encontrava na região.

Um anjo musculoso, com a pele escura como a terra queimada do deserto, asas afiadas como lâminas e longos cabelos negros, seguia na frente, empunhando um par de espadas flamejantes. Os outros o conheciam como Azrael, o Anjo da Morte, um formidável guerreiro, temido pela sua frieza e obsessão à lealdade para com Deus.

Não era exatamente um Querubin, apesar da sua capacidade de combate, mas talvez seja por isso mesmo que fosse tão temido. Azrael gostava de trabalhar sozinho, de ceifar vidas a mando de Deus, e provavelmente por esse fato estivesse ali, a guiar toda uma legião para um destino cruel. Ele conduzia os Querubins com suas espadas e armaduras douradas, que reluziam como chamas diante da luz fraca do sol poente.

A legião empreendia uma formação cerrada de ataque, semelhante a ponta de uma flecha, e o barulho de suas asas em conjunto fazia o solo do deserto tremer como que atingido por um terremoto.

Durante muitas milhas entre o Mar Cáspio de o Rio Tigre, não havia nada. Somente as areias do deserto. Uma vasta extensão de terra infértil, que ia ganhando cor à medida que as águas do Tigre penetravam no solo.

Já era quase noite quando os habitantes de um grande acampamento assírio sentiram o chão tremer e o céu pegar fogo. Já estavam ali há algum tempo, embora o local fosse só um acampamento. Isso era realmente fácil de se deduzir quando um bando de crianças choronas, mal vestidas e famintas corriam para dentro das tendas agrupadas em volta de um pequenino lago, algo semelhante a um oásis. Não era costume viajar com crianças, e qualquer andarilho concluiria que os pequenos haviam nascido após o grupo ter se fixado no local. Deviam haver vinte ou trinta famílias ali, ou talvez até mais.

Ninguém sabia ao certo o que fazer. Os idosos - e havia poucos - ficaram a olhar a explosão no céu, que aqueceu o ar gelado do início da noite. Os adultos hesitaram por um momento, mas logo depois ficaram a esperar, todos olhando para cima, contemplando o belo espetáculo de luz e cores, concluindo que aquilo só podia ser uma manifestação de seu deus.

Como que em um gesto mútuo, os habitantes do acampamento puseram-se de joelhos a proferir preces. Todos rezavam por si, e a maioria agradecia a Deus pela visão que mudaria as suas vidas. Infelizmente, eles estavam certos.

Então, alguém avistou uma formação de homens com asas deslizando no firmamento, semelhantes aos pássaros, com algo de metal dourado sobre o peito, e espadas brilhantes nas mãos. As crianças puxaram as saias das mães, apontando para as aves gigantes que sobrevoavam o acampamento. Os adultos tentaram acalmar os meninos, dizendo que eram mensageiros de Deus e que nada fariam contra eles.

Ao alcançar o acampamento que se estendia abaixo deles, Azrael fez um movimento com sua espada na mão direita, indicando que iniciassem o ataque, e apontando na direção da pequena aldeia, solitária na imensidão do deserto. A legião de anjos se espalhou, ganhando o céu, e cada um voou em uma direção, descendo para atacar.

Os homens e as mulheres permaneciam ajoelhados, rezando, enquanto as crianças corriam, apavoradas, já pressentindo o perigo que estava por vir.

O primeiro anjo a atacar foi Azrael, brandindo sua espada em um golpe circular, fazendo queimar uma das tendas ao centro do acampamento, fulminando seus ocupantes.

Um homem e uma mulher, perto dali, puseram-se em disparada, procurando fugir para algum abrigo não existente. Em um vôo espiral, Azrael deu a volta e pôs-se a perseguir o casal.

O homem e a mulher corriam lado a lado, em desespero, os seus músculos agindo quase em movimento involuntário, mesmo ao vento gelado do deserto. O Anjo da Morte, então, desceu em vôo rasante por entre as duas pobres almas. O alado abriu ao máximo suas gigantescas asas brancas com as bordas afiadas e, enquanto passava por entre os dois, suas penas cortaram as cabeças dos indefesos mortais, que tombaram de imediato, o sangue sendo rapidamente absorvido pela areia grossa.

Agora, a maioria fugia. Alguns atacavam com as inúteis armas que possuíam, e outros esperavam parados a chegada de seu cruel destino. Não havia como escapar. As tendas estavam em chamas e a fumaça já atingia o céu, iluminado agora pela luz da lua cheia que acabara de nascer no horizonte.

Os corpos jogados no chão já ultrapassavam três quartos da população inicial da pequena aldeia. Cicatrizes enormes de queimaduras trespassavam os corpos, enquanto alguns gemidos de dor eram ouvidos por aqueles que ainda não tinham morrido. As pessoas que sobraram se espalharam pelo deserto, e isso fez com que os anjos corressem em seu encalço, matando uma por uma. Mas ainda havia sobreviventes no acampamento.

Um anjo de cabelos loiros e ondulados, feições finas e corpo delgado, segurava a sua espada quando aterrissou em frente a uma tenda, uma das poucas que permaneciam intactas depois do massacre. Ahadiel comprimiu suas enormes asas brancas, como era de costume quando as usava, e sentiu as suas sandálias a tocar o solo. Pressentiu que havia alguém dentro da tenda, alguém que os outros não tinham percebido, talvez porque estivessem ocupados demais com aqueles que fugiam.

À medida que se aproximava da tenda escura, podia sentir que a presença que captava era doce e inocente. Parecia que ele era o único Querubim daquela legião que não havia ceifado vida alguma desde o início do morticínio. E não desejava ceifar. Mas não tinha escolha. Ou será que tinha? Aquela a vontade de Deus, ou pelo menos a ordem que lhe fora dada. Não era permitido questionar.

Tentando esfriar ao máximo o seu coração, o anjo de cabelos loiros puxou com força o pano de seda, que servia como porta, dando visão ao interior da tenda. A luz de sua espada iluminou rapidamente o interior e Ahadiel viu que haviam duas pequenas crianças lá dentro, no canto, ocultas pela penumbra. Os olhos cheios de medo e pavor estavam inundados de lágrimas, e o corpo inerte de uma mulher jazia no chão, com um grande ferimento nas costas que ainda desprendia fumaça.

Para Ahadiel não havia dúvidas que a vítima, ainda viva, fora golpeada por uma espada de anjo, e tentou correr para dentro da tenda, procurando salvar seus filhos.

O Querubim olhou melhor o pequeno casal de crianças - o menino um pouco mais velho do que a menina. Seis e sete anos, calculou Ahadiel.

Com a simples visão da armadura do celestial, os meninos se abraçaram, como que para se proteger, e choravam baixinho, um choro já seguido pelos soluços - quase não restavam mais lágrimas.

O alado entrou na tenda, mas não foi para matar as crianças. Embora soubesse que a mulher já havia falecido, tocou as costas do cadáver para perceber melhor a gravidade dos ferimentos. Largou a espada no chão para se aproveitar de ambas as mãos. Depois, dirigiu-se para as crianças que se encolhiam como presas encurraladas. Ahadiel tocou suavemente o rosto sujo da menina com a ponta dos dedos, e disse algumas palavras na língua dos mortais. Demorou uma fração de segundos para lembrar qual idioma usavam. O Querubim fitou o menino, depois a menina, e sua voz imponente encheu o aposento.

- Não tenha medo. Não vou lhes fazer mal.

As crianças respiraram e arregalaram os olhos, cheios de melancolia, mas o Querubim sentia que o horror começava a se dissipar.

Nesse instante, Ahadiel virou o pescoço, sentindo a aproximação de alguém potencialmente poderoso. A seda da entrada foi novamente escancarada, desta vez para jamais voltar a ser usada. Lá fora, diante deles, a figura forte e corpulenta de Azrael, segurando suas duas espadas, encarava Ahadiel de maneira sinistra.

- Que estás a esperar, Ahadiel? Temos pressa. Ele não tolera atrasos.

Ahadiel encarou Azrael profundamente, como que em desafio. Depois, pegou a espada do chão e a guardou diretamente na bainha do cinto.

- Ele quem? - indagou, com a mente cheia de dúvidas e questionamentos por estar sendo parte daquilo - Às vezes penso que talvez não tenha sido Ele que ordenou isso tudo.

Azrael pareceu se irritar. A expressão no seu rosto sugeriu que estivesse a chamar Ahadiel para fora da tenda, e este saiu para o vento do deserto. Dali, o bondoso Querubim pôde perceber o balanço final do ataque. As tendas e as carroças estavam todas destruídas, algumas pegando fogo, mas a maioria reduzida a brasas. Os anjos agora voavam rente ao solo, agarravam os corpos e os arremessavam no pequeno oásis, transformando o local em um poço da morte, contaminado de sangue e corpos.

Azrael pareceu controlar um pouco sua raiva, e então disse:

- Qual é o problema Querubim? Estas a questionar as ordens proferidas por Ele?

- Como já disse, pergunto-me se Ele está conivente com o que acontece aqui.

- Não esperas que Ele dê as ordens a todos um por um. Yahweh tem assuntos inúmeros a tratar, por isso fala através de Miguel.

Ahadiel fez uma pausa para pensar, mas nada iria obrigá-lo a ceifar a vida de duas crianças. Depois de um instante de silêncio, o Querubim abriu a boca para contestar. Azrael, já sabendo de suas intenções, o cortou.

- Estás a receber uma ordem agora, e eu falo em nome Dele. Não pretendo ficar aqui neste mundo de porcos a discutir com um Querubim de seu ciclo. Ordeno-te que entre nesta tenda e acabe logo com isso.

Ahadiel olhou para a lua e a imagem tornou-se ligeiramente turva. Percebera, então, que estava a derramar lágrimas. Lágrimas não só pelas crianças, mas também pelo cruel destino que haviam sofrido os habitantes daquela aldeia. Pagãos ou não, qualquer que seja o motivo, nem mesmo Deus tinha o direito de fazer com que tantos sofressem. Era fácil ficar sentado em um grande trono, dando ordens e dizendo que Deus havia ordenado carnificinas. Aquilo era bem do feitio do arcanjo Miguel, o Príncipe dos Anjos. Mas onde estava Deus, onde estava Yahweh para dizer o que era certo e o que era errado. Quem decidia, afinal?

Ahadiel fixou novamente os olhos em Azrael, e concluiu:

- Não posso fazer - e virou as costas, dirigindo-se para longe. Ainda pôde perceber no canto da boca um leve sorriso de Azrael, um sorriso que era uma mistura de desprezo e satisfação. Então o Anjo da Morte entrou na tenda.

- Neste caso eu farei.

Voltar ao topo