01/02/2013

Estudantes educomunicadores fazem cobertura jornalística da Campus Party

Blogs e redes sociais são alguns dos meios usados pelos jovens para divulgar em tempo real o que descobrem no evento.

Exemplo de educomunicação na Campus Party. Foto: Agência Brasil.SÃO PAULO (Agência Brasil), 1º de fevereiro – A câmera de vídeo comandada por Wesley Oliveira, 15 anos, e o microfone nas mãos de Nicolas Oliveira, 15 anos, possibilitam mais do que o registro das novidades tecnológicas expostas na Campus Party. Por meio do Projeto Imprensa Jovem, uma experiência que mescla educação e comunicação, os estudantes exercem o direito de produzir e divulgar conteúdo, aprendem sobre tecnologia e compartilham o que fazem com pessoas do mundo inteiro na Internet. Blogs e redes sociais são alguns dos meios usados pelos jovens para divulgar em tempo real o que descobrem na feira.

Nicolas participa do projeto desde 2010, quando ainda estava no 6º ano. No grupo de comunicadores estudantis, ele atua como repórter. “Sou mais solto, então fiquei com essa parte de entrevistar”, relatou. Para Wesley, que se considera tímido, o trabalho com filmagem foi mais fácil. Assim como eles, 30 mil jovens, pelo cálculo da prefeitura de São Paulo, participam de projetos de educomunicação – conceito que agrega as duas áreas – na rede pública de ensino.

Além da cobertura de eventos, a cargo da equipe do Imprensa Jovem, são desenvolvidos projetos de rádio escola, jornal mural, fotografia, quadrinhos, jornal comunitário e profissionalização na comunicação para estudantes do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao todo, 250 escolas municipais desenvolvem projetos desse tipo. “O chamado é por adesão. A secretaria apoia, capacita, mas a escola é que manifesta o interesse”, diz o coordenador do projeto, Carlos Lima.

Ele explica que essas experiências permitem articular conteúdos e facilitam o processo de ensino-aprendizagem. “O professor educomunicador consegue articular ações interdisciplinares. É possível transitar com vários disciplinas. Dialogar, por exemplo, sobre português e matemática e fazer um projeto de comunicação com os alunos. Ele vê o conjunto informações e não conteúdos isolados”, defende.

INTERAÇÃO COM O PÚBLICO E COM A COMUNIDADE

Em um dos trabalhos de educomunicação desenvolvidos por Nicolas e Wesley, eles tiveram a oportunidade de conhecer melhor a história do bairro de Perus, onde vivem. “Um dos pontos mais conhecidos [do bairro] é a fábrica de cimento, que teve uma revolta de quem trabalhava lá e depois fechou. A gente sabia que existia, porque meus avós, minha mãe, falavam, mas com esse trabalho a gente ficou sabendo mais”, relataram. Eles reconhecem que esse conteúdo talvez não fizesse parte das aulas de história convencionais.

Para o coordenador do projeto, a interação com a comunidade é uma das principais vertentes do conceito de educomunicação. “Entender o ecossistema comunicativo da sala de aula até a comunidade, para que através disso sejam criadas redes e as pessoas  e comuniquem melhor”, defendeu. Ele destaca que esse processo vai além de explicar técnicas. “Não é formar um novo jornalista nem tomar o espaço dos meios de comunicação. É agregar um potencial importante que tem a linguagem midiática no processo de ensino”, explicou.

CONFRONTANDO MODELOS TRADICIONAIS DE COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO

O professor Ismar Oliveira, coordenador de licenciatura em educomunicação da Universidade de São Paulo (USP), destaca que esse conceito confronta modelos tradicionais, tanto de comunicação, quanto de educação. “A educomunicação é uma via que dialoga com os campos da comunicação e da educação para ampliar o coeficiente comunicativo das pessoas, para colocar essas relações [sociais] a serviço da construção de um mundo solidário. É uma utopia, no sentido [de] que é uma militância”.

O professor de língua portuguesa Fábio Nepomuceno, 37 anos, da escola Jairo Almeida, em Perus, aceitou o desafio de usar a comunicação para o processo de aprendizagem e relata que ele mesmo se modificou como educador nesse processo. “Comecei em 2011 com a curiosidade de usar o equipamento de uma rádio escolar que estava desativada. Eu pude contribuir para uma postura mais crítica dos alunos, especialmente em relação ao que a mídia convencional produz, mas também estou evoluindo como professor, procuro sempre melhorar”.

Na prática, a experiência de educomunicação constrói uma perspectiva prática do processo de ensinar e aprender. “Aprendi muita coisa com eles. Uma delas foi a editar vídeo. Aprendi com um aluno, o Diego. Lembro como se fosse hoje: cortar, colocar foto. Outra coisa que aprendi foi a me comunicar melhor com eles. Percebi a forma como os próprios alunos falam entre si e isso influencia um pouco a forma como você fala com eles depois”, relembrou.

Por Camila Maciel. Edição: Tereza Barbosa.

Mario CavalcantiEstudantes educomunicadores fazem cobertura jornalística da Campus Party