Raquel Recuero
por — 14/02/2009 em Artigos

Discutindo redes sociais e jornalismo na Internet

Raquel Recuero comenta como o jornalismo online pode fazer uso das redes sociais.

Por (@raquelrecuero)

Uma das discussões que tem feito falta no jornalismo atualmente é o debate a respeito de como as redes sociais podem contribuir e atuar junto aos veículos jornalísticos. Muito se fala com relação à ação dessas redes na produção de informações noticiosas de forma colaborativa, mas pouco com relação à otimização da participação nas redes sociais pelo jornalistas e veículos. É com a ideia de proporcionar um pouco de discussão a respeito desta questão que escrevi esse texto. Mas comecemos do princípio.

Mas o que são as redes  sociais?

Inicialmente, é preciso entender que as redes sociais são diferentes dos sites de redes sociais e que estes não são todos iguais. Isso significa que o Orkut, por exemplo, possui redes sociais (que são as pessoas, os atores e instituições sociais) que utilizam o sistema como forma de se expressar. Assim, o Orkut é apenas uma ferramenta e não uma rede social. Além disso, as pesquisas têm mostrado que os sites de redes sociais no Brasil não são usados da mesma forma. Enquanto o Twitter tem um caráter mais informacional, por exemplo, o Orkut é um site mais social. Isso significa também que esses sites são diferentes entre si e que as pessoas os compreendem de forma diferente. Assim, o primeiro passo para um veículo jornalístico utilizar essas ferramentas é entendê-las e, a partir daí, elaborar a melhor estratégia para atingir seu público. Minha ideia é que os veículos também se apropriem dessas ferramentas, extraindo valores das redes sociais que estão expressas nelas.

E como os sites de redes sociais funcionariam para o jornalismo?

Uma vez compreendido que sites de redes sociais são diferentes, os veículos jornalísticos podem utilizar os sites com base na sua apropriação pelos indivíduos. Primeiro, vou discutir esses sites de forma geral, e depois focarei em algumas possíveis apropriações pelos veículos jornalísticos.

Sites de Redes Sociais como fontes

O primeiro e mais óbvio uso dos sites de redes sociais é como fontes. Através dessas ferramentas, o jornalista tem acesso a um número infinito de fontes, mais especializadas e até mesmo com maior credibilidade e a um número infinito de informações que podem gerar matérias. Essa característica pode auxiliar a encontrar um especialista mais apropriado para comentar uma matéria ou mesmo receber uma informação em primeira mão de alguém que está presente ou próximo do ocorrido. Os sites de redes sociais podem também auxiliar a refinar uma informação, encontrar novas impressões e completar uma cobertura. Não estou falando aqui naquilo que o jornalismo online tem mais feito no Brasil – procurar perfis do Orkut para ilustrar matérias. Falo especificamente de usar essas redes como fontes, observar as insatisfações, os comentários e as informações publicadas pelas pessoas e a partir daí, pensar em construir matérias mais próximas dos grupos sociais a que se destinam.

Sites de Redes Sociais como feedback

Sites de redes sociais também oferecem feedback para os veículos jornalísticos.  Uma matéria bem feita pode gerar comentários, discussões e ser propagada dentro dos grupos sociais de forma a amplificar seu impacto. Já uma matéria mal feita ou mal apurada pode ser rapidamente desmentida e ridicularizada pelos grupos sociais. Observar o que se fala do veículo e como se fala, apesar de muitas vezes doloroso, pode oferecer clareza naquilo que insatisfaz as pessoas e naquilo que o veículo pode melhorar. Vejo um grande clamor, por exemplo, por notícias locais melhores. Parece absurdo que em um mundo ridiculamente globalizado, as notícias locais parecem sempre piores, mais difíceis de ser encontradas e mais superficiais. E quanto mais conectadas as pessoas estão, mais amplos os canais de informação e maior sua capacidade de receber informações relevantes. Essa medida de relevância das notícias é algo que o jornalismo parece custar a entender. Apresentar um jornal online com as mesmas notícias de 90 outros não é apostar na relevância. Notícias especializadas, focadas e localizadas podem ser bastante ampliadas nas redes sociais, gerando também valor para o veículo.

Sites de Redes Sociais como espaço de atuação

Outro elemento que parece de difícil compreensão para o jornalismo hoje é usar os sites de redes sociais como um espaço também do veículo. Estar presente onde está seu público é uma característica dos veículos jornalísticos. Assim, utilizar esses sites para comunicar, interagir, obter informações, complementar informações e mesmo anunciar novas notícias é relevante. Não falo aqui de criar um perfil no Orkut para o jornal, por exemplo. Mas criar uma comunidade, ter um ombudsman focado naquilo que o público discute, oferecer um espaço de debate das notícias, utilizar o Twitter como ferramenta para atualizar seu público-alvo com notícias relevantes e rápidas é fundamental. Penso em quantos jornais poderia utilizar o Twitter, por exemplo, para informações do tempo, do trânsito e últimas notícias no Brasil e quão poucos realmente investem nisso.

Aplicando essas questões para os sites de redes sociais hoje, poderíamos discutir várias estratégias. O Orkut é um site mais social, focado mais na interação e o mais abrangente do Brasil. Isso significa que ali as pessoas conversam mais do que procuram informações. Apesar disso, nas comunidades é possível encontrar discussão e até mesmo solicitações de informação. Além disso, as redes sociais no Orkut costumam ser bastante focadas nos territórios offline, ou seja, as pessoas se organizam em torno de cidades, estados, vizinhanças e etc. e o sistema é, muitas vezes, a porta de entrada da Internet para muitos brasileiros. Portanto, talvez o uso de comunidades para acompanhar discussões e debates sobre as notícias locais e globais seja um uso interessante e relevante. Fixar a marca com notícias de interesse local e mobilizar comunidades também. O Orkut portanto, pode funcionar como fonte e como feedback, embora eu aposte mais na última opção.

O Twitter, por outro lado, é um site de nicho no Brasil. Tem, portanto, poucos usuários, mas um impacto bastante expressivo em boa parte das informações que circulam na Internet. Tem sido utilizado por um público mais ativo na Internet, e é mais focado em informações. Poderia ser utilizado como forma de informar rapidamente o público–alvo de pequenas notícias. A relevância das informações, que poderia ser estabelecida através de canais e do envio para ferramentas móveis (uso do celular para receber informações do trânsito, da temperatura e etc., por exemplo) ajuda a aumentar o seu valor para o jornalismo. Aqui, a ideia é realmente noticiar, apostar no “furo” e na relevância e não simplesmente comentar informações antigas, apostar no contato com as fontes e no monitoramento de informações relevantes. O Twitter pode emprestar agilidade para os veículos na publicação das notícias.

Fotologs e sites de imagens poderiam ser apropriados como formas de aumentar a importância do fotojornalismo. As imagens ainda são fundamentais para a maior parte das notícias.

Utilizar um canal específico para divulgar as imagens com qualidade, contar a história da matéria por fotografias e mesmo  oferecer a possibilidade de que cidadãos possam contribuir também com imagens dos fatos exige um canal específico. Muitos jornais possuem canais de imagens, onde as fotografias ficam em qualidade reduzida, onde muitas vezes não podemos encontrar a matéria que acompanha a imagem ou mesmo a organização das mesmas de uma forma que faça sentido para o leitor. Não digo aqui que o jornal necessite criar um perfil em uma ferramenta, mas que simplesmente, crie um canal do tipo para o veículo, talvez dentro de seu próprio site, que proporcione elementos semelhantes àqueles dessas ferramentas.

É claro que essa discussão só faz sentido para aqueles jornais que já estão mas ou menos focados na Internet, que já ultrapassaram a barreira de criar e manter um website com notícias relevantes, focadas, e com a produção específica de informações para a Web. Aqui, discuti algumas formas de utilizar essas redes sociais para o jornalismo, mas não falei em todas as formas. A ideia é que essa discussão passe a ser realizada nas redações, com a aposta cada vez maior na relevância das notícias.

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