Carla Schwingel
por — 13/04/2008 em Artigos

Simpósio discute convergência de redações

Carla Schwingel, jornalista e mestre em Cibercultura, analisa o Simpósio Internacional de Jornalismo Online

Por (@caru)

O Simpósio Internacional de Jornalismo Online, em sua nona edição, coloca em prática nos Estados Unidos preceitos que ainda hoje não se consolidaram no ciberjornalismo brasileiro. Ocorrido nos dias 04 e 05 de abril, em Austin, Texas, proposto e organizado pelo jornalista e professor Rosental Calmon Alves, o evento reafirma o diálogo entre o cotidiano da prática e a análise de especialistas, para além de discursos somente mercadológicos ou acadêmicos.

O processo de convergência na união das redações online e impressa e as dinâmicas, rotinas e habilidades que os ciberjornalistas estão sujeitos foram os principais assuntos abordados neste ano. O El Tiempo.com, da Colômbia, o Miami Herald, o WallStreetJournal.com, e o New York Times, dos Estados Unidos, e o Daily Telegraph, na Inglaterra, mostraram como suas redações estão sendo integradas e quais os desafios na implementação de uma nova rotina produtiva. Modelos de negócios da mídia tradicional e de uma geração de organizações midiáticas com estrutura mais flexível; os efeitos da audiência na construção da notícia com a formação de comunidades; a relação entre multimídia e interatividade nos projetos do jornalismo digital foram as temáticas de painéis que, sob diferentes aspectos, discutiram as alterações que o sistema de produção jornalístico vem sofrendo. Destaca-se a presença dos espanhóis, tanto na parte acadêmica, com o professor Ramón Salaverría falando sobre o processo de convergência na Espanha, quanto no mercado, com Alberto Cairo, um dos maiores responsáveis pelos avanços em linguagem multimídia no El Mundo, e Mário Táscon, atual diretor de conteúdos do Prisacom/El País.

No ano passado, os processos de transformação das grandes organizações midiáticas em relação à convergência empresarial, às alterações em modelos de negócios com a participação da audiência; à inclusão do cidadão na produção e disseminação das informações e às técnicas narrativas com uso do vídeo e interatividade deram o tom ao Simpósio. Andrew DeVigal, editor de multimídia no NYTimes.com; Nora Paul, diretora do Instituto para Estudo das Novas Mídias; o repórter-videográfico Jorge Sanhueza-Lyon, do Austin Statesman.com e de Brian Storm, presidente da MediaStorm Multimedia, um estúdio de produção de projetos jornalísticos em multimídia, mostraram como a imagem em movimento pode ser utilizada na abordagem e construção narrativa de uma matéria.

Na edição anterior, houve a discussão de como a mídia tradicional estaria cooperando com a revolução digital, com ênfase para a linguagem multimídia. O painel “Narrativa Jornalística Multimídia”, com Ashley Wells, produtor executivo da MSNBC.com, dois representantes de empresas de desenvolvimento de tecnologias multmidiáticas, Mindy McAdams, autora de Flash Journalism, e Jose Manuel Valenzuela, Editor do El País, apresentou exemplos de matérias com áudio, texto, animações, vídeos, fotografias, mapas em diferentes contextos. Restou para a audiência a certeza de que há um ciberjornalismo diferenciado sendo praticado com o uso de tecnologias facilitadoras para edição e publicação dos conteúdos.

De forma geral, os temas mais recorrentes do Simpósio nos últimos anos relacionaram-se ao impacto do jornalismo cidadão, aos efeitos da audiência na construção da notícia, às narrativas multimídias e à união das redações do impresso e online (ou seja, o processo de convergência em nível das redações). Sempre discutidos em termos da reconfiguração da mídia tradicional e de modelos de negócios.

Realizado em dois dias, o primeiro e o começo da manhã do segundo contemplam o mercado, com editores, jornalistas e executivos das mais importantes organizações de comunicação do mundo, de produtos como o NYTimes.com, Washington Post,  The Los Angeles Times, OhMyNews, Le Monde, El País, The Chicago Tribune, The Wall Street Journal, El Tiempo, El Comercio, MSNBC.com, El Mundo, BBC, UOL, dentre outros. Neste espaço para convidados, também representantes de empresas desenvolvedoras de tecnologia Internet, de marketing, de modelos de negócios para o jornalismo digital, bem como profissionais envolvidos em experiências diferenciadas como a do Poynter Institute e do J-Lab discutem dados, argumentos ou mostram caminhos percorridos.

No segundo dia tem início o Simpósio Acadêmico, com apresentações de textos previamente selecionados de pesquisadores vinculados a universidades. Através de relatos de experiência, pesquisa aplicada, estudo de caso em trabalhos inéditos, o olhar da academia sistematiza, propõe, analisa e conceitua significados para a prática profissional do ciberjornalismo. Para Mark Tremayne, coordenador do simpósio acadêmico, a apresentação de artigos passou a acontecer em 2004, como avanço e consolidação do evento.

Um dos diferenciais do simpósio do Texas é que a vasta experiência de Alves como correspondente internacional, tema para o qual foi convidado a ministrar aulas na Universidade do Texas (UT) em 1996,  faz com que seu olhar esteja sempre “além fronteiras”. As apresentações, desde 2003 quando o simpósio se internacionalizou, contemplam os cinco continentes, inclusive com a África, que geralmente fica à margem de análises mundiais do jornalismo digital.

Se você já ouviu falar em alguma experiência de destaque na Internet nos Estados Unidos, tenha a certeza de que os jornalistas envolvidos, em algum momento passaram pelas discussões em Austin. O Simpósio é um dos mais consolidados e o mais duradouro sobre jornalismo online no país. As inscrições, além de gratuitas, fato raríssimo em um evento com as características desse, dão direito à alimentação.

Artigos e apresentações estão no site. Os alunos da disciplina Jornalismo Multimídia, ministrada por Alves no mestrado da UT, realizam a cobertura do evento, que também é transmitido em tempo real. A sugestão que fica é a de verificar o que aconteceu até agora para ter uma noção das questões que norteiam há praticamente uma década mercado e academia quando o assunto é ciberjornalismo na terra do Tio Sam.

Sobre o autor |

Jornalista formada pela Fabico/UFRGS. Possui mestrado em Cibercultura e faz doutorado em Jornalismo Digital, no GJOL, Ciberpesquisa, do PósCom/UFBA. Trabalha como arquiteta da informação em projetos Internet desde 1995. Possui o blog Sistemas para o Ciberjornalismo.

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