Mario Cavalcanti
por — 23/03/2008 em Artigos

Aprendendo com os mais acessados

Mario Cavalcanti comenta brevemente o que os sites de notícias mais visitados nos EUA têm em comum

Por (@mariocavalcanti)

Na última semana, a Nielsen Online, entidade americana de pesquisa que afere e analisa publicidade, audiência e comércio na Web, divulgou sua lista de sites de notícias mais acessados nos Estados Unidos em fevereiro deste ano.

A lista trouxe a CNN Digital Network em primeiro lugar, com 37.181 usuários únicos. O grupo veio seguido por Yahoo! News (35.274), MSNBC Digital Network (34.013), AOLGerald-Levin-on-Fear News (21.119) e NYTimes.com (18.975). Vale frisar que o ranking diz respeito aos acessos feitos nos Estados Unidos, ou seja, não foram contabilizados acessos globais.

Nos últimos meses, estes cinco players mantiveram suas posições ou alternaram entre si. O Yahoo! News, por exemplo, já ficou em primeiro lugar várias vezes. Mas o que eles têm em comum (além do fato de todos receberem rodadas recheadas de investimento)? A partir de uma breve análise comportamental, sem nenhuma investigação profunda, vamos observar algumas manobras feitas e decisões tomadas pelos cinco mais da Nielsen Online em suas respectivas home pages.

Noticiário em primeiro plano

Em se tratando de veículos noticiosos, pode parecer óbvio, mas há quem não invista em cuidar das chamadas para notícias textuais e demais conteúdos. Nesse quesito, todos, sem exceção, colocam suas chamadas em primeiro plano. O Yahoo! News consegue destacar todas as suas editorias logo na home, coisa que a AOL.com faz na sua página principal, mas deixa de fazer na AOL News (que seria a concorrente direta do Yahoo! News). De quebra, este ainda lista as notícias mais populares e permite aos usuários dos Estados Unidos buscar notícias locais com base no CEP. Informações hiperlocais (focadas em um bairro, vizinha, condado, comunidade ou determinada redondeza) me parecem um caminho a ser tomado pelos veículos de grande porte (e não só).

Promoção de vídeos online

Depois da popularização do YouTube, no início de 2006 (o portal de compartilhamento de vídeos foi fundado em janeiro de 2005, mas só ganhou expressão mundial no ano seguinte), começou uma gigante corrida do ouro entre jornais virtuais e portais de informação para oferecer vídeos online. Hoje em dia, é difícil encontrar um jornal virtual de grande ou médio porte que não ofereça vídeos. Da nossa lista dos cinco mais, todos, novamente sem exceção, promovem vídeos logo no início da home. Alguns, como o CNN.com e o Yahoo! News, colocam seus vídeos exatamente ao lado das notícias textuais, atribuindo assim o mesmo peso aos dois. Um fato curioso: o CNN.com, inclusive, fornece vídeos para o Yahoo! News. Outro fato curioso: em 2006, o NYTimes.com, edição online do diário americano The New York Times, começou a criar links para vídeos do YouTube, ação que começou a apontar novos rumos no meio online (jornais online tradicionais fazendo links para novos serviços).

Envolvimento em projetos colaborativos

O envolvimento em projetos de colaboração e de conteúdo gerado pelos usuários (seja por criação ou aquisição) é outro ponto comum entre os cinco mais da Nielsen Online. Exemplos? Em sua home, o Yahoo! News faz uso do conteúdo publicado no Flickr, serviço de compartilhamento de fotos comprado pelo Yahoo! em 2005; A CNN, percebendo um nicho crescente de mercado, lançou em 2006 o iReport.com (tanto na TV quanto na Web), que exibe vídeos de cunho noticioso produzido por cidadãos; Em junho de 2007, a AOL anunciou que a reformulação de seu site de notícias (AOL News) iria compreender conteúdo produzido pelos usuários; Em outubro do ano passado, o MSNBC.com comprou o Newsvine.com, um dos sites sociais de notícias (no estilo Digg.com) mais acessados do mundo. Na época, a compra reforçou a tendência de grupos tradicionais investindo em novos players do mercado; O mesmo MSNBC.com lançou ainda o FirstPerson, concorrente direto do iReport.com, da CNN; Também em outubro de 2007, o NYTimes.com lançou um blog sobre Nova York, o City Room, que passou a publicar vídeos de usuários.

Alianças e Mashups

Parcerias são algo comum na vida dos grandes players de Internet. Dos cinco mais, a maioria fez recentemente algum tipo de aliança para permuta de conteúdo ou algum mashup (portal ou aplicação online que utiliza conteúdo de mais de uma fonte para desenvolver um novo serviço completo). Em setembro de 2007, o Yahoo! juntou forças com a revista virtual Slate (20º na lista de fevereiro da Nielsen Online) e com o The Huffington Post (31º) para lançar o Democratic Candidate Mashup, portal americano político que faz uso de comentários de usuários, vídeos e textos para comparar as opiniões dos candidatos sobre temas como Iraque, saúde e educação; Em novembro de 2007 a Associated Press (AP) e o Yahoo! News se juntaram para fazer uma enquete sobre as eleições presidenciais americanas. A pesquisa foi feita com dois mil usuários, entre democratas e republicanos; Em janeiro deste ano, o NYTimes.com e a CNBC decidiram compartilhar seus conteúdos, aproveitando o que cada um tem de melhor. Com a parceria, artigos do diário americano passaram a aparecer no site da CNBC, enquanto vídeos da CNBC passaram a figurar no NYTimes.com. O New York Times já possuía acordo de permuta de conteúdo com a MSNBC e com a NBC.

Os quesitos destacados acima nos ajudam a perceber o que é tendência hoje no mercado online e o que os investidores estão dispostos a abraçar. Não à toa muitos dos comportamentos e ações apresentados acima estão presentes também nos outros sites que compõem a lista dos 25 mais acessados nos Estados Unidos, que inclui nomes como ABC News, AP, Fox, Google News, USAToday.com e Washingtonpost.com.

A partir daí podemos perceber muitas outras coisas, entre elas: 1) O por que de a Microsoft demonstrar tanto interesse pelo Yahoo!; 2) O por que de a Microsoft temer que o Yahoo! se alie a outros grandes players como AOL, Disney e Google; 3) Concorrentes podem sim fazer alianças; 4) Um serviço noticioso (ainda mais no meio online) não se desenvolve se ele não tiver um bom relacionamento com temas e setores como finanças, marketing, publicidade, tecnologia e tendências. Por isso, vale ficar de olho nos mais acessados, navegar bastante e ler nas entrelinhas.

Sobre o autor |

Jornalista, developer, carioca e nerd de carteirinha. Editor do site Jornalistas da Web e adepto da retrocomputação.

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