Mario Cavalcanti
por — 17/03/2008 em Artigos

O tal do jornalismo semi-profissional

Mario Cavalcanti comenta uma recente tendência de aproveitamento de universitários em coberturas jornalísticas

Por (@mariocavalcanti)

A cada hora surge um novo termo nesse nosso mundinho do jornalismo online. Se tais expressões não forem levadas tão a sério (tem gente que dá ataque a cada vez que uma aparece), suas utilizações podem ajudar a classificar novos campos e formas de se trabalhar. Um desses termos, que vem sendo muito utilizado por veículos de língua inglesa, é o “jornalismo semi-profissional” (“semi-pro journalism”, no inglês). Como assim?

A expressão diz respeito, entre outros, ao envolvimento e utilização de aspirantes a jornalistas (leia principalmente estudantes universitários) em projetos colaborativos ou coberturas jornalísticas. Óbvio, tudo com a supervisão de jornalistas ou professores de jornalismo. Nada mal, pois, o que pode parecer mão-de-obra barata ou coisa do tipo, é um estímulo a quem pretende levar a profissão a sério, sem se iludir, e está disposto a encarar desde cedo os desafios do campo.

Para Maracy Guimarães, jornalista especializada em comunicação comunitária e professora de jornalismo, os projetos de jornalismo semi-profissional são também um processo de formar pessoas.

– As empresas estão investindo em formar pessoas para trabalhar para elas. É um processo onde quem souber lidar com toda essa técnica vai saber lidar com esse mercado. Acho que não é um processo só de barateamento de mão-de-obra, mas também de formar pessoas. Isso tem muito a ver com o fato de que pouca gente domina e quem domina está na fase da experimentação. Não tem nada consolidado, estamos na fase da experimentação, onde contratar veteranos pode não ser tão bom quanto contratar pessoas que estão descobrindo em conjunto, experimentando em conjunto com os novos projetos – analisa a professora de jornalismo.

O novo termo pegou carona e ganhou força com a chamada Web 2.0, onde as pessoas e a proposta de participação estão em primeiro plano. Isso sem falar nos recursos que auxiliam na criação de redes de contatos e exploração da multimídia. Eles estão aí, na mesa. É só se servir. Toda essa esfera que vemos diariamente, construída a partir da troca de conhecimentos e da popularização de serviços como Flickr e YouTube, se espelha em projetos sérios de jornalismo online semi-profissional (tudo bem se eu abandonar as aspas?), em projetos sérios de cobertura, análise, reflexão e voz.

Do ano passado para cá, alguns projetos envolvendo jornalistas semi-profissionais e tocados por empresas de mídia tradicionais vêm se mostrando realmente úteis para a sociedade. Que eu me lembre, assim de cabeça, foram uns seis sites ou seções lançados nesse período. E não estou incluindo projetos cidadãos abertos como o clássico e também importante CNN/YouTube Debates. Estou me referindo a projetos cidadãos que, na produção do conteúdo primário (o que não envolve comentários ou outras formas de interação secundária), fazem uso de grupos fechados, como, por exemplo, universidades. Alguns ganharam notoriedade e merecem mesmo atenção:

Street Team ’08

Lançado em dezembro de 2007, o Street Team nasceu de uma parceria entre a agência de notícias Associated Press (AP) e a MTV. Envolve 51 jornalistas cidadãos (um para cada estado americano), que estão responsáveis por cobrir as eleições presidenciais dos Estados Unidos. No projeto, estão sendo postadas semanalmente matérias em forma de textos, vídeos e podcasts. E todo esse conteúdo fica disponível em um site móvel da MTV (para visitar, digite m.streetteam08.com no navegador do seu celular), na rede de vídeos da AP e no site Think.MTV.com (que tem por proposta dar mais voz aos jovens). Entre o pessoal selecionado para representar a audiência jovem da MTV no Street Team estão editores de jornais estudantis, organizadores de comunidades e produtores de documentários.

Yoosk.com / City University

Na Inglaterra, o portal colaborativo Yoosk.com, que vende a idéia de que você, membro cadastrado, é um repórter em potencial, juntou-se com a City University de Londres para utilizar estudantes no processo de produção de conteúdo noticioso. Os universitários envolvidos com a empreitada recebem o título de jornalistas estudantes. O site encoraja também usuários registrados a enviarem opiniões e questões baseadas nas notícias publicadas. A aliança ganhou força mais ou menos na mesma época do Street Team.

ESPNU Campus Connection

Emissora afiliada da ESPN e especializada em esportes universitários, a ESPNU começou, também em dezembro do ano passado, a pedir ajuda de estudantes, professores e departamentos atléticos de 20 universidades para cobrir seus respectivos jogos escolares. Nas universidades dos Estados Unidos, alguns esportes, como ginástica, basquete e futebol americano, são levados muito a sério, tanto que é comum esse tipo de cobertura universitária pela grande mídia. Até o fim do ano passado, onze instituições de ensino já haviam formado parceria com a emissora, em uma aliança batizada de ESPNU Campus Connection. A ação é também parte de um esforço da companhia para utilizar mais conteúdo gerado pelo usuário. Nesse contexto, a emissora estava à procura de estudantes que pudessem fazer vídeos de jogadas, análises e reportagens. O conteúdo gerado pode vir a ser utilizado entre todos os sites e canais da ESPN, incluindo a ESPN2 (emissora irmã da ESPN principal, voltada para uma geração mais jovem de fãs de esportes), ESPN360.com (portal com conteúdo exclusivo para banda larga. A Walt Disney Company detém 80% das ações desse portal) e ESPN magazine.

É esperado que projetos de grande porte nesse sentido ganhem força aqui no Brasil. Segundo Maracy, o aproveitamento dos chamados jornalistas estudantes pode dar frutos a um jornalismo de qualidade.

– Se você reúne estudantes e começa a ver idéias, elas se soltam mais, porque não existe aquela defesa de mercado. A experiência conta, mas as pessoas estão muito preocupadas com a proteção de mercado. Ter cinco anos de experiência ou cinco minutos não faz a menor diferença no meio online, porque ainda estamos experimentando. Muita coisa interessante vem por aí, assim como muita coisa virá dos jogos eletrônicos, de um público acostumado a falar várias linguagens. No jornalismo, a reportagem anda enfraquecida, mas isso não é culpa do dinamismo ou do meio online, mas de quem investe, de quem está engessado. Olhando por esse lado, não acho bom o termo semi-profissional. Porque ele não é profissional, ele é menos? Me soa como uma forma de construir hierarquias. Não que eu seja contra ou a favor do diploma, mas isso depende muito da pessoa. Coisa de reserva do mercado. Pode ser que os jornalistas semi-profissionais criem um jornal melhor do que os que existem por aí e mostrem ao mundo um jornalismo de qualidade – acredita Maracy.

Melhor que criticar o uso de estudantes em reportagens, coberturas jornalísticas e processos de construção de notícias, é enxergar projetos de jornalismo semi-profissional como uma ferramenta com grande potencial para instruir, guiar e formar novas pessoas que vão lidar diariamente com tratamento de informação.

Sobre o autor |

Jornalista, developer, carioca e nerd de carteirinha. Editor do site Jornalistas da Web e adepto da retrocomputação.

Siga Mario Cavalcanti no Twitter Siga Mario Cavalcanti no Facebook Siga Mario Cavalcanti no Google+
Mario CavalcantiO tal do jornalismo semi-profissional