Mario Cavalcanti
por — 12/11/2007 em Notícias

A Internet em 2014 fará gol de cobertura?

Profissionais do meio online dão palpite sobre como será a Internet no ano em que o Brasil vai sediar a Copa do Mundo

Por Cristina Dissat (*)

Imagem ilustrativa: logotipo da Copa de 2014.No final de outubro saiu a notícia oficial da Fifa: o Brasil é a sede da Copa do Mundo 2014. A imprensa brasileira se mobilizou para passar as informações com bastante rapidez. Quem estava no trabalho, conseguiu acompanhar a transmissão ao vivo pela Internet, com ótima qualidade de áudio e vídeo.

A decisão da Fifa, na realidade, envolve muito mais do que o futebol e, por isso, começaram a surgir outros questionamentos paralelos. Entre alguns pontos, está o fato do Maracanã não só receber jogos importantíssimos, mas também ser a central de imprensa da competição – o que foi cogitado durante a coletiva da FIFA no gramado do estádio em agosto deste ano.

E como estará a Internet em 2014 para a cobertura da imprensa para a Copa do Mundo? Abaixo, alguns profissionais do meio online dão seus palpites:

Para Bruno Rodrigues, jornalista, autor do primeiro livro sobre webwriting e colunista do Webinsider e da Revista Webdesign, a Rede estará menos desktop e mais mobile. "Daí, para aproveitar, participar e cobrir uma Copa, será uma maravilha! A Web irá se tornar, de vez, a mídia de todos, em que texto, áudio e vídeo servirão como mix de apuração e impressão individual. O muro da tecnologia cairá definitivamente; qualquer programa, funcionalidade ou gadget que não se auto-explicar, estará morto ao chegar".

Na visão do jornalista Mario Lima Cavalcanti, fundador e diretor executivo do JW, em termos de cobertura jornalística, o aproveitamento cidadão por parte de veículos de comunicação já será uma prática mais que estabelecida em qualquer sociedade. "Novos rostos surgirão, fazendo frente aos apresentadores de telejornais e artistas convidados para comentarem eventos. Mas, o mais interessante serão as possibilidades de aprofundamento de discussões e propagação de opiniões disponíveis. Pessoas comuns poderão retransmitir eventos em tempo real e com qualidade de TV digital para o público em geral ou para um grupo específico. A narração e o ângulo de cada espectador-emissor representarão um diferencial nunca visto, que talvez só se compare aos dos ‘detentores de transmissões especiais’ (novo nome para o que antes era chamado de ‘detentores de direitos de transmissão’, termo obsoleto em 2014, já que, por direito, qualquer cidadão pode transmitir)".

Para Pollyana Ferrari, jornalista, professora da PUC-SP, pesquisadora em hipermídia e idealizadora do coletivo Remix Narrativo, em 2014, teremos uma Web com cenário híbrido para a Copa do Mundo no Brasil. "Vou explicar melhor: de um lado o velho Galvão Bueno, transmitindo os últimos lances, já num padrão HDTV, mas com o mesmo linguajar de 2007, com a companheira Fátima Bernardes e seus trigêmeos (já jovens), que poderão entrar no gramado do Maracanã, durante a entrada ao vivo da mãe-musa do futebol brasileiro global. Em contrapartida, pessoas comuns poderão retransmitir eventos em tempo real e com qualidade de TV digital para o público em geral ou para um grupo específico. Acredito que o celular será o grande formato da Copa. Imaginem a qualidade de celular que teremos em 2014? Cada espectador, nas diversas arquibancadas dos estádios brasileiros, poderá ser comparado aos ‘detentores de transmissões especiais’, que em 2014, especula-se que a Record, do Bispo, terá comprado o direito de transmissão exclusiva. Não podemos esquecer dos blogs, formato que deverá estar mais do que adotado pela grande mídia, da força de patrocinadores como a Nike, que vislumbram muitos SMSs, vídeos e estádios/comerciais no país de Pelé. A última Copa foi a Copa dos blogs, pois em 2014 será a Copa do José, do Raimundo, do Luís, da Maria. A Copa dos anônimos".

Professor associado da Faculdade de Comunicação da Bahia, PhD em Sociologia pela Université René Descartes, Sorbonne, André Lemos respondeu a entrevista do Canadá, onde está trabalhando atualmente como professor visitante. Ele acredita que as tecnologias estarão definitivamente na fase de sua conexão móvel. "Objetos trocarão informações locativas de forma quase que independente. Formas de vigilância e de controle crescerão também com essas tecnologias. Acho que teremos sistemas mais robustos e mais precisos de indexação de informação no espaço físico e formas mais simples e ágeis de receber e enviar informação em tempo real, em mobilidade, em dispositivos portáteis: e não só conteúdo, partindo dos jornalistas para as suas centrais, mas de centrais para os cidadãos e dos cidadãos entre eles… Talvez os micro blogs (jaiku, twister ou algo similar) permitam uma maior mobilidade informacional e o controle nas formas de envio e recebimento da informação. Acho que dispositivos como smartphones estarão disseminados e serão o que tenho chamado de ‘DHMCM’ (dispositivos móveis de conexão multirrede) e não mais ‘telefones’".

Imagem ilustrativa: telefone celular da Sony Ericsson.Para o jornalista José Roitberg, teremos ao mesmo tempo a tecnologia para qualquer pessoa transmitir vídeo e comentar de dentro dos estádios através de um celular. "Tenho a certeza de que os detentores dos direitos de transmissão vão meter um bloqueador de celular, cuja tecnologia vai evoluir também, inviabilizando a democratização da produção de informação. Na Copa passada, tínhamos, no escritório, três fontes para ver os jogos: TV aberta, TV por satélite SKY e pela Internet, através do Globo Media Center, em wide screen. Era muito curioso perceber a diferença de tempo que a informação levava para passar por todos os circuitos de cada sistema e chegar à tela. Em 2014, a banda da Web estará muito veloz e a disputa será feroz com a TV digital, que já estará implantada. Creio que a grande diferença, iniciada na Copa anterior, será a de que mais pessoas irão permanecer no trabalho durante os jogos, assistindo individualmente em seu computador, em monitores grandes, numa janelinha separada de seus ‘octa-cores’. Enquanto isso, continuam fazendo outras tarefas e aquela sensação de conexão com estranhos, de irmandade – de comunidade, que só há quando um monte de gente fica na calçada assistindo os jogos nas TVs de lojas e bares – vai perder espaço. Afinal, dos 75 mil ingressos do Maracanã, quantos serão destinados a um país com uns 200 milhões de habitantes à época?".

André Rosa, que atualmente é responsável pela gerência de Cursos do Comunique-se, acredita que serão mais de cem milhões conectados ou bem mais. "Assim como nos dias de hoje, pessoas estarão num pé de evolução tecnológica, experimentando o que está na crista da onda (busca semântica, Web 4.0 ou qualquer produto batuta inexistente agora, mas popularíssimo no futuro). Gerações 100% conectadas e colaborativas estarão borbulhando. Paralelamente, Dona Marocas, 45 anos, que passou sua vida inteira ‘consumindo informação’, vai descobrir pela primeira vez como é divertido participar. E esse abismo educacional, doença crônica de nosso país há cinco séculos, não vai mudar em cinco anos (espero errar aqui)".

André Rosa escreveu um artigo, do qual extraí o trecho acima (com a sua permissão), brincando com as possibilidades. E como ele mesmo diz, tudo é uma questão de palpite, com grandes chances de alguns equívocos, mas esse exercício de imaginar o trabalho dos jornalistas daqui a alguns anos é divertido e assustador. E em um dos trechos do artigo, ele brinca: "Lembre-se que, nos anos 60, um cururu da IBM viu o primeiro computador e disse: pra quê alguém vai querer um desses?".

A viagem sobre o que vai acontecer na Copa de 2014 agora é sua. Nossa maior aposta, e por enquanto a única, é que o Brasil será campeão. Será?

*Cristina Dissat é jornalista e sócia-diretora da Informed.

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