Mario Cavalcanti
por — 05/08/2007 em Notícias

Notas de uma cobertura multimídia (com estudantes)

Para Carlos d´Andréa, o jornalismo multimídia ainda é uma utopia para a grande maiora das redações e cursos de comunicação brasileiros

Por Carlos d'Andréa*

Imagem ilustrativa: para Carlos D'Andréa muitas universidades não estão preparadas para o jornalismo multimídia. Arte de JW com uso de fotos de divulgação.Eis que surgiu um convite: realizar uma cobertura multimídia do II Festival de Inverno da Savassi, que aconteceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, de 01 a 15 de julho de 2007. Os desafios da colega e coordenadora do curso de webjornalismo Joana Ziller eram coordenar uma equipe de oito estagiários de Jornalismo e Cinema e Vídeo do Centro Universitário UNA e produzir, editar, publicar e divulgar vídeos, podcasts, textos e fotos no site do evento, além de SMS.

Antes, foi preciso conceber a cobertura. Quantos produtos, de qual duração, com qual freqüência e com que linguagem? A primeira tentação é sempre fazer uma cobertura em "tempo real", publicando inúmeras notinhas com fatos recém-acontecidos ou podcasts com a programação diária. Mas, sejamos práticos: quantas pessoas escutariam um podcast postado pela manhã até que sua validade vencesse no fim do dia? Um, quatro, dez "ouvintes"? Não seria muito mais fácil e habitual consultar a programação em texto? Corríamos o risco de amanhecer no dia 16 com um site cheio de conteúdos que nem para embrulhar peixe serveriam.

A Internet, mesmo para o jornalismo, é um grande banco de dados. A memória é uma de suas características essenciais, ensina [arquivo PDF] Marcos Palacios. A aposta, então, foi produzir um material essencialmente atemporal. Um ou dois dias antes do evento, ou na hora em que ele acontecesse, produziríamos vídeos e áudios que continuariam relevantes meses ou anos após o evento. A data do evento era registrada na fala do repórter, mas em nada incomodaria um visitante tardio. A cobertura mais factual ficou a cargo do blog, que destacava eventos do dia e registrava as atrações da noite anterior.

Como viabilizar tecnicamente uma cobertura multimídia de pequeno porte e curto prazo? Um gravador digital – quem sabe um bom pendrive – é suficiente para registrar as entrevistas para o podcast. Com os handsets gravam-se as falas do repórter, e com o software gratuito Audacity edita-se tudo com uma facilidade surpreendente. Para hospedagem, sigo sempre o que considero uma das grandes vantagens da Internet: alie-se aos melhores. Se um YouTube me oferece, de graça, hospedagem de quantos arquivos quiser com até dez minutos de duração, interface Web, estatística de acesso e código para "embutir" o vídeo em qualquer site, por que não o usaria para publicar os vídeos? Além disso, ainda conquistamos, em longo prazo, a audiência via tags vinda da busca em um dos sites mais populares da atualidade. Enfim: criamos uma conta lá e inserimos cada vídeo no site oficial.

No caso dos podcasts, não foi tão fácil. O Odeo, feito para compartilhar arquivos de áudio, também oferece hospedagem ilimitada (mas apenas para usuários antigos, possível sinal de sua estagnação) e demais recursos, mas dificulta na compatibilidade de arquivos MP3. Os formatos e taxa de amostragem têm que estar com uma configuração capaz de enlouquecer qualquer leigo em áudio. É demais para um jornalista. Deixamos pra lá após inúmeros uploads frustrados e recorremos ao player em flash produzido pelo programador do site. Funcionou bem.

Sabemos que a Internet não impõe uma série de restrições dos meios de massa. Um vídeo ou um podcast na Web pode ter dois ou vinte minutos de duração. Tecnicamente não faz diferença, a não ser por algumas limitações como a já citada do YouTube. Então podemos disponibilizar matérias e entrevistas enormes, certo? Não exatamente. A concisão é uma virtude em qualquer meio. E manter a atenção do visitante na Internet não é fácil. Assim, a meta foi produzir vídeos de dois a três minutos, o suficiente para os alunos sentirem na pele a dolorosa prática de editar informações menos relevantes. Os podcasts tiveram mais fôlego: dez minutos, que viraram 15 em várias ocasiões.

A linguagem deve ser estritamente jornalística? Ao meu ver, não. Um blog que prende-se à pirâmide invertida pode perder seu leitor porque não aproxima-se dele. Nunca ouvi um podcast interessante que não parecesse minimamente com uma conversa entre conhecidos. E o vídeo “entubado”, deve ter passagem do repórter, crédito para o entrevistado e outros recursos do telejornalismo? Algumas experiências, inclusive de veículos tradicionais, dizem que não, mas vá explicar a um aluno que ainda briga para achar o lead que ele deve “dialogar”, quem sabe em primeira pessoa, com seu público…

As ações por SMS foram um caso à parte. Não tínhamos uma base de usuários cadastrados. Os amigos se interessam em receber mensagens, fichas coletaram o cadastro de interessados da região e alguns emails chegam através do blog. Tudo meio improvisado, mas respeitando o opt-in. Se uma ação via SMS tem como característica essencial convidar para uma ação – a chamada call-to-action -, optamos por convocar uma visita ao blog, onde eram postadas mais informações sobre o evento. Dos 150 caracteres, 60 eram sempre ocupados por "informações no blog do www.festivaldeinvernodasavassi.com.br" (êta domínio grande!). Vale abreviar palavras? Vale! Tem que valer. “Tb”, “p/” e “até +” foram usados (e q o prof de redação jornalística ñ leia este txt). 🙂

Desafios para uma próxima cobertura? Dois principais: cada aluno assumiu um produto do site e concentrou-se apenas na produção dele. A alardeada integração das linguagens por profissionais multitarefa aconteceu num nível bem inicial. Dadas as condições de produção e o momento de aprendizagem dos alunos, não teria como ser muito diferente; Faltou também o chamado jornalismo participativo. Nem comentários o blog recebia, já que a ferramenta desenvolvida internamente não tinha essa funcionalidade, e na correria acabou ficando sem mesmo. Um recurso muito bacana seria convocar, via SMS, o público a enviar fotos e vídeos dos eventos, e publicar os mais interessantes no site. Não seria tão difícil. Talvez na próxima.

A próxima cobertura, aliás, não deve tardar. A equipe já foi convidada para repetir a dose no Jazz Festival, já agora no início de agosto. 🙂

*Carlos d'Andréa é jornalista e mestre em Ciência da Informação pela UFMG. Especializado em mídias digitais, já implementou e coordenou sites e projetos multimídia nas áreas cultural, jornalística e institucional. É professor universitário e coordenador do curso de pós-graduação em Projetos Editoriais Impressos e Multimídia no Centro Universitário UNA. Edita o blog NovasM, NMídias.

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