Mario Cavalcanti
por — 29/01/2007 em Notícias

Impressões do ciberjornalismo angolano

Luciana Moherdaui conta sua experiência, no fim do ano passado, na Angola, onde ministrou oficinas de jornalismo digital

Por Luciana Moherdaui (*)

Ilustração da Africa ICT Policy Monitor / APC.orgQuando fui convidada pelo governo angolano no final do ano passado para apresentar uma palestra e ministrar duas oficinas sobre jornalismo digital, em Luanda, a profissionais da mídia estatal (impresso, TV, rádio e Internet) e alunos de jornalismo, fiz uma busca no Google para saber o estado da Internet na África.

Quase 24 milhões de africanos têm acesso à Rede, sendo 170 mil em Angola. Isso equivale a 9,4% da população (cerca de 16 milhões), segundo dados da empresa Clickz, que, entre outras coisas, mede acesso à Rede. Apesar de o uso da Internet ser restrito a um pequeno grupo, o interesse pelo jornalismo praticado na Web é muito grande. A imprensa daquele país investe em treinamento de profissionais para melhorar a produção de conteúdo noticioso em todos os formatos de mídia.

Os sites dos veículos de comunicação estão na primeira fase (transposição de conteúdo do impresso para a Internet), à exceção da Angop, agência noticiosa que trabalha com a noção de atualização constante vinte e quatro horas. Alguns deles ainda usam o Dreamweaver para publicar conteúdo.

Na palestra, uma apresentação do estado da arte do jornalismo digital no Brasil e no exterior animou o governo a aumentar investimentos nessa nova prática jornalística. Um mundo novo se abriu aos angolanos ao terem consciência das inovações tecnológicas, novas possibilidades de edição de conteúdo, novas configurações de páginas noticiosas.

A banda larga contribuiu para o aumento da audiência aos portais e sites noticiosos, ampliação do tempo em que os usuários ficam conectados e do aumento da oferta de multimídia, com destaques para imagens grandes nas homepages – como no El País – e diversidade de material em vídeo – como no YouTube.

Na oficina, que durou duas semanas e foi dividida em dois grupos (profissionais e estudantes), elaborei um plano de aula que contemplou teoria e prática em discussões que enriqueceram meu conhecimento sobre o tema, que estudo há quase dez anos, e também sobre meu trabalho como professora, tarefa que me dedico há pouco tempo.

Minha idéia foi dar uma noção geral sobre o assunto. Por conta disso, abordei as seguintes temáticas: o jornalismo digital inserido na Teoria do Jornalismo; história e fatos mais importantes; perfil do jornalista (raciocínio multimídia); processos de produção (pré-pauta, pauta, angulação, apuração, produção e edição); padronização e estilo; formatos de narrativas; velocidade e credibilidade da notícia; banco de dados (voltado à produção, apuração, mapeamento e open source); e gêneros (conceito e delimitação).

Os alunos aprenderam a lógica dos sistemas de publicação e de edição (abertos e fechados), tomaram conhecimento sobre plataformas de publicação (sites, celular, blog, fotolog, podcasting, palmtop, fóruns) e formatos de distribuição (email [newsletter, newsalert etc.], SMS, RSS, MMS, iPod, iPhone, entre outros)

Divulgação: Luciana Moherdaui ministrando oficina em Angola. Fonte: Angop.Também nortearam os debates o usuário (conceito, definição, perfil), jornalismo participativo, o contrato de interação entre usuário e site/provedor (discado/banda larga), aferição da audiência (métodos), conceito de tempo, modelos de negócio e integração das mídias, tema que está na ordem do dia nas grandes redações.

Os participantes aprenderam a fazer pesquisa na Internet e usaram como fonte de informação primária o blog Jornalismo & Internet, produzido por integrantes do GJOL – Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-line da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Apresentei à turma importantes pesquisadores como Marcos Palacios, Suzana Barbosa, Elias Machado, Jan Alyne Barbosa Luciana Mielniczuk, Beth Saad, Antonio Fidalgo, Mark Deuze, Pablo Boczkowski, Jay David Bolter, Javier Echeverría, John Pavlik, Javier Díaz Noci, Ramón Salaverría e Janet Murray, entre outros.

Ao final, aprenderam a montar um blog, tarefa que os deixou maravilhados com a possibilidade de publicar conteúdo sem ter de participar necessariamente de uma empresa de comunicação.

Após 47 dias de trabalho, deixei o país com a certeza de que o aproveitamento foi surpreendente.

Links relacionados:

AngolaPress (Angop)
Jornal de Angola
Rádio Nacional de Angola
Televisão Pública de Angola

*Luciana Moherdaui é jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas.

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