Mario Cavalcanti
por — 22/01/2007 em Notícias

O novo senhor do mundo móvel

O especialista em mobile Paulo Henrique Ferreira fala sobre o sucesso do iPhone

Por Mario Lima Cavalcanti (*)

No último dia 9 de janeiro, na edição 2007 da MacWorld – evento em que a empresa Apple apresenta suas novidades tecnológicas -, realizado na Califórnia, nos Estados Unidos, Steve Jobs, presidente da companhia, apresenta ao público o tão esperado iPhone, um misto de telefone celular inteligente, organizador pessoal e iPod.

Com uma interface inovadora, o aparelho, que ganhou as capas das revistas semanais Época e Veja e enriqueceu o noticiário do JW, será vendido nos Estados Unidos em junho deste ano e na Europa e na Ásia em 2008.

Para entendermos melhor porque o iPhone é tido como o dispositivo móvel mais revolucionário dos últimos tempos, conversamos com o especialista em mobile Paulo Henrique de Oliveira Ferreira, diretor da Accenda – empresa brasileira de consultoria em marketing – e mestre pela USP em comunicação e tecnologias móveis. Em entrevista via email, Paulo fala, entre outras coisas, sobre a nova porta aberta pela Apple, como as concorrentes devem reagir e quais devem ser os novos rumos do conteúdo/noticiário móvel. Acompanhe abaixo:

JW – Parece que a nova cartada da Apple elevou ao máximo o conceito de smartphone, podendo ser considerado um verdadeiro comunicador pessoal portátil. O que o lançamento do iPhone pode significar para o mercado móvel como um todo?

Paulo Henrique Ferreira – Um novo paradigma, que todos já esperavam, mas ninguém sabia realmente como implementar. Como escreveu o jornalista Tom Standage, o futuro da internet móvel seguirá caminhos imprevisíveis e inovadores, e terá seus próprios paradigmas. Assim como o telefone se desvencilhou do telégrafo e criou, para si, um universo próprio e extenso, a "Internet móvel" – ainda hoje muito voltada para o telefone – abrirá seus próprios e imprevisíveis caminhos. E o iPhone sintetiza esta ruptura. Apesar do "Phone" no nome do produto, aquilo não é um mero telefone. É um comunicador móvel. A vocação daquele aparelho não é apenas "ouvir e falar". É ver, falar, ouvir, tocar, conectar. Pode ser que Jobs entre para o mundo da Internet, como Bell entrou para o mundo do telégrafo: como um inventor que, ao dar continuidade ao processo de desenvolvimento de uma determinada tecnologia, rompeu com antigos paradigmas e abriu uma fase totalmente nova de desenvolvimento. Então, se a gente pensar em Wimax, telefonia VOIP, Web 2.0, TV Digital, tudo junto, a gente vislumbra que, realmente, o lançamento do iPhone é de arrepiar. As possibilidades são tão grandes quanto os violentos desafios que os diferentes setores da indústria, profissionais e governos têm pela frente. O iPhone apenas catalisa e simboliza toda esta potencialidade e, por isso, com razão, causa todo este espanto e frisson.
 
JW – Você já tem alguma notícia sobre o lançamento do iPhone aqui no Brasil?

PHF – Por enquanto não. Como o lançamento é recente e a Apple tem uma relação de exclusividade com a Cingular, os usuários brasileiros vão ter que esperar alguns movimentos comerciais das empresas envolvidas, antes de poderem utilizar o iPhone por aqui. Ainda faltam alguns meses para o lançamento nos Estados Unidos. Na Europa, a expectativa é que o lançamento aconteça mais para o final de 2007 e, na Ásia, em 2008. Então, tudo é muito novo e qualquer palpite é mera especulação. Por enquanto, só nos resta olhar de longe esta belezinha… =)

JW – Sei que existem acordos entre empresas, "regras" de mercado, mas por que, nos dias atuais, um dispositivo como o iPhone continua demorando tanto a chegar no Brasil? Daqui a dois anos provavelmente já teremos algo mais evoluído em relação ao iPhone.

PHF – Bom, acho que não vai demorar 2 anos. As operadoras brasileiras provavelmente já terão algumas reuniões com representantes da Apple ainda neste semestre. A operadora que trouxer o dispositivo primeiro vai agregar um componente de inovação e marketing fortíssimo. Seria este o movimento de entrada da Vivo no padrão GSM, para atrair os usuários de outras operadoras do mesmo padrão? Ou um movimento de expansão da Oi, que tem um apelo de juventude muito forte? Ou então, vai que a Claro, que tem bala na agulha, queira trazer logo o aparelho para o Brasil? Ou seria a Tim, que já faz um marketing forte baseado em inovação, com lançamentos de outros smartphones?

Enfim, como você pode ver tudo é especulação. Não dá para saber. Conversei sobre este assunto com alguns executivos do mercado de Internet móvel brasileiro e, se eu fosse "chutar" a partir destas opiniões, diria que o iPhone deva chegar no Brasil mais ou menos junto com a Ásia, talvez no natal de 2007 e no início de 2008, já com o produto lançado nos EUA e Europa. Mas isto é um chute, apenas.

Mas, como você observou, um dispositivo como o iPhone demora para chegar porque o Brasil não é um centro de inovação. E tratamos inovação aqui não apenas como desenvolvimento da tecnologia em si, mas a engenharia para também colocá-la no mercado e conquistar um mercado consumidor rapidamente. Todo este ecossistema que determina um país como líder ou seguidor no mundo da tecnologia. E o Brasil é um seguidor. Então, as empresas não olham para o Brasil como um grande consumidor de dispositivos "high-end", ou seja, muito sofisticados, pois existem outros mercados mais atraentes como o americano, europeu e asiático. Mesmo porque, a plena utilização deste produto demanda de bons pacotes de conexão à Internet através das operadoras, modelo que está progredindo, mas ainda está longe de ser viável para o consumidor médio brasileiro.

JW – Temos no mercado alguns smartphones, como o BlackBerry Pearl, o Nokia E62 e o Samsumg SGH-i321, alguns deles lançados há bem pouco tempo, que são considerados top de linha. E o iPhone chega cheio de novidades, fazendo os modelos citados parecerem (com um pouco de exagero da minha parte) ultrapassados. Como você acha que as fabricantes reagirão?

PHF – O lançamento do iPhone causou um frisson coletivo. Empresas e pessoas ficaram admiradas com a façanha da Apple que conseguiu o "óbvio": fabricar um dispositivo móvel altamente sofisticado, com interface intuitiva e com funções de iPod, telefone celular e Internet. Eu disse "óbvio" porque este sempre foi o caminho apontado pelos analistas e fabricantes. Mas conseguir fazer o mais simples e mais óbvio, muitas vezes é o mais difícil, pois, na verdade, quem conseguisse encontrar este caminho, sairia na frente.E a Apple conseguiu este feito, com maestria. Então os concorrentes terão que mudar os seus próprios paradigmas. Por exemplo, a Nokia, que, na minha visão, também preza pela simplicidade do uso de terminais móveis, terá que repensar todo seu projeto de usabilidade e interface homem-máquina. Ou seja, a Apple vai obrigar seus concorrentes a rever seus conceitos sobre como utilizar um dispositivo móvel. Se não me engano, a LG já planeja lançar um aparelho similar ao iPhone, mostrando que os concorrentes estão dispostos a tentar reverter o prejuízo que a pioneira Apple os impôs. Em suma, a Apple abriu uma nova estrada, que certamente será adotada por todos os concorrentes. Steve Jobs deu o pontapé para o início da nova etapa da comunicação móvel, que vai unir o conceito de "telefone celular", "computador conectado à Internet", "máquina fotográfica", "tocador de música pessoal", entre outros aparelhos, em um dispositivo portátil de uso simples e conexão permanente, cuja nomenclatura padrão sequer foi definida.

JW – De acordo com uma notícia publicada na Folha Online, o iPhone é exibido como revolucionário, mas alguns analistas apontaram defeitos. Apesar de tanta qualidade, quais defeitos, em qualquer aspecto, você enxerga no iPhone?

PHF – Qualquer lançamento "realmente" inovador apresenta uma série de problemas, antes de sua real adequação ao mercado. Foi assim como o próprio telégrafo de Morse e o telefone de Graham Bell, aparelhos que precisaram de anos de pesquisa e desenvolvimento para se livrarem de problemas elementares que suas interfaces e usos apresentavam. O próprio computador pessoal ainda enfrenta este processo. Então, por isso, o iPhone pode apresentar inadequações técnicas, como a falta de acesso a rede 3G ou necessidade de ajustes das redes das operadoras para algum serviços específico, como o serviço de "Voicemail", por exemplo. Mas os problemas técnicos e "falhas" são facilmente contornáveis. Os problemas reais que o iPhone vai enfrentar são de outra natureza, estão muito mais voltados para o âmbito político e de negócios, que envolvem barreiras regulatórias e padrões de mercado (por exemplo, o iPhone não roda aplicativos de Windows). Estes sim são problemas que o aparelho terá que resolver para não ser superado por entrantes tardios que vão tentar, por todos os meios, tirar a vantagem da Apple — pioneira nesta nova fase da comunicação móvel. Resumindo, sustentar a vantagem que obteve ao ser pioneiro em um mercado desta magnitude será o principal desafio do iPhone.

JW – Em relação àquele conceito dos quatro canais de conteúdo móvel (Web, SMS, sinais ao vivo/por demanda e aplicações), saindo um pouco do assunto iPhone e entrando mais na questão da informação móvel, no mundo dos smartphones, que tipo de conteúdo informativo/noticioso você acha que vai prevalecer (se é que algum crescerá com mais força que os outros)?

PHF – Com certeza, com o rápido processo de consolidação da Web 2.0 e lançamento de aparelhos móveis sofisticados, o conteúdo noticioso móvel que vai prevalecer será multimídia. Uma combinação de textos, fotos, vídeo e alertas que devem, gradativamente, tomar conta dos serviços noticiosos disponíveis para estes terminais. No entanto, o mercado jornalístico terá que respeitar a evolução natural das redes tecnológicas, as regras de mercado e mesmo suas barreiras regulatórias. Um dos resultados que verifiquei durante minha pesquisa de mestrado foi a necessidade dos grupos de mídia acompanharem (e muitas vezes esperarem) a evolução das redes móveis. No ano 2000, para dar um exemplo concreto, o Brasil inteiro se frustrou com o barulho em torno do lançamento da "Internet móvel", liderado na época pela Telesp Celular. Aquela "Internet móvel" era, na verdade, o lento e monocromático WAP 1.0. Esta precipitação fez o mercado de conteúdo móvel já nascer sem crédito perante o consumidor o que, inclusive, atrasou o desenvolvimento de outras tecnologias móveis no Brasil, como o SMS. Até mesmo as questões regulatórias – que vão definir o futuro do WiMax, da rede 3G e da TV Digital no Brasil – são questões relevantes para o futuro do jornalismo digital móvel, independente da sofisticação dos terminais portáteis já disponíveis no mercado. Mas, sem dúvida, o caminho é promissor. Já temos serviços que oferecem SMS, vídeos, MMS e WAP por celular e geram receita significativas para grandes grupos de mídia. E este caminho não tem volta, o jornalismo digital será móvel. E multimídia. Steve Jobs, com seu iPhone, que o diga. 

JW – Existe atualmente algum modelo de noticiário/conteúdo móvel caminhando nesse sentido (multimídia) ou que lhe agrade?

Site do diário americano The New York Times na versão móvel do navegador Safari, no iPhone. Fonte: Apple.PHF – Não, por enquanto não existe nada realmente integrado, multimídia. Ou você tem um conteúdo em vídeo para download, ou um boletim de SMS, ou uma fotolegenda, baseada em MMS [torpedo multimídia]. Temos, para citar serviços mais avançados, algumas aplicações de podcast via celular e moblog. Mas ainda estamos na fase de desenvolver os serviços separadamente, pois o mercado ainda está estudando como obter retorno consistente com conteúdo no celular. Na Europa e no Japão já existem alguns sites que podem ser acessados por celulares que rodam vídeos e são bastante similares à Internet. No entanto, para que os produtores invistam em um serviço de jornalismo móvel realmente multimídia será necessário um mercado consumidor mais maduro, com dispositivos sofisticados e de fácil utilização – como o iPhone – bem mais disseminado entre os consumidores e com pacotes de conexões que permitam um número maior de consumidores.

JW – Você chegou a ver a nagegação Web no iPhone, mesmo através de vídeos? A experiência de navegação no Safari móvel é mais prática que eu outros smartphones? Aproveitando, como você vê a navegação Web nesses últimos modelos de smartphones e palmtops? Acha que pode evoluir para algo mais confortável?

PHF – Vi apenas a simulação. Me pareceu muito bom mesmo, bastante confortável, sobretudo utilizando o toque para a navegação. Tornou mais confortável que o palmtop e os atuais smartphones, sem dúvida. Pois estes últimos modelos ainda não oferecem uma navegação natural, seja por sua interface, ou mesmo, como já citado, pela dificuldade de real conexão à Internet através das operadoras, seja pela conectividade, quanto pelo modelo de negócio. Agora, sem dúvida o iPhone determinou o caminho da evolução destes terminais para o uso real da Internet móvel e mostrou para outros fabricantes que é possível pensar em uma navegação realmente confortável utilizando dispositivos móveis. Mas isso tudo é só o começo. Mesmo o iPhone ainda apresentará muitas melhorias em suas próximas versões.

Em tempo:

A dissertação de mestrado de Paulo Henrique de Oliveira Ferreira, “Notícias no celular: uma introdução ao tema”, pode ser baixada em formato PDF aqui (496 Kb).

*Mario Lima Cavalcanti é editor do JW.

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