Mario Cavalcanti
por — 08/01/2007 em Notícias

O jornalista que não agüenta mais atualizar

Ceila Santos opina sobre a profissão do ciberjornalista e fatores que podem melhorar a qualidade de jornais virtuais

Por Ceila Santos (*)

Tenho acesso à Internet desde o final dos anos 90, quando comecei a trabalhar como jornalista. Em 2000, inclusive, resolvi até adquirir uma linha telefônica da Vésper a fim de deixar a outra disponível para a Web em casa, mas desisiti da iniciativa por causa do custo. Mas só considero que fiz minha estréia na WWW em novembro de 2006. Antes, era uma jornalista-que-não-agüenta-mais-atualizar-site. Agora, sou internauta.

Imagem ilustrativaDeixei de ver a Internet como estorvo desde quando saí da redação (há cerca de um ano). Não tinha ódio da Web em si, mas sim da jornada maluca de fazer reportagens para o "papel", atualizar o site, ser sempre o primeiro a dar furo na Web e jamais esquecer que prioridade é tudo (leia-se papel e online) e que o timing é agora sempre. Poucos confessam, mas não há nada pior que parar uma reportagem no meio do caminho, justamente quando ela estava fluindo, para correr atrás da repercussão da saída do presidente X da empresa Y. É um saco!

Dois meses atrás conversava com presidente de um importante portal de conteúdo/provedor de Internet que ressaltava a convergência das mídias dizendo que "o jornalista vai poder escrever, gravar uma reportagem e ainda transmití-la ao vivo pela rádio online". Lógico que também comentou sobre o texto que será feito para site, para o celular e até para TV. "Nossa, então, nos próximos anos, haverá oferta de empregos para jornalistas", brinquei (sei que na cabeça do executivo quem vai fazer isso é a mesma equipe de duas ou quatro pessoas que compõem a redação hoje). Não aguentei e perguntei: "Você sabia que um jornalista que tem poder de síntese nem sempre é analítico para escrever laudas e mais laudas de white paper?". Como assim?

O jornalista, meu caro presidente de um dos provedores de Internet mais importantes do Brasil, tem perfil. Eu, por exemplo, odeio TV. Tenho pânico de câmera, mas adoro escrever. E acredito que só faz um bom trabalho quem gosta daquilo que faz, ou não? Duvido muito que o cara que escreve muito bem grandes reportagens seja o melhor jornalista de mensagem de texto para o celular. Multimídia, eu conheço apenas um: Marcelo Tas, que não é só um excelente jornalista, mas também ator, radialista, apresentador, enfim, ele é único. Quantos "Marcelos-Tases" você conhece no Brasil?

Entre parênteses

Óbvio que nem todo jornalista online é um jornalista-que-não-agüenta-mais-atualizar-site, mas sou uma prova viva de que aquele que "não aguenta mais" existe. Particularmente, a Web me fascina muito, mas nunca tive tempo suficiente para navegar enquanto precisava atualizar site. Acredito que o ideal seria, pelo menos, ter uma equipe exclusiva para o jornalismo online. Depois, se possível, que essa equipe não fosse composta somente de um editor e dois repórteres. Uma equipe, no mínimo, com número de repórteres adequados para suprir o volume de informações de cada editoria. O sonho aumenta quando se imagina esta equipe com tempo livre para navegar, descobrir novas fontes, conhecer o desconhecido e dar oportunidades para leitor ler pautas diferenciadas.

Impossível? Nem tanto. O que não falta são bons profissionais fora do mercado em busca de oportunidades. Muitos deles nem precisam ser contratados e até aceitam ser apenas colaboradores em troca de espaço ou simplesmente de remuneração pelo conteúdo escrito.

*Ceila Santos é jornalista freelancer e coordenadora do portal Desabafo de Mãe.

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