Mario Cavalcanti
por — 10/10/2006 em Notícias

Google Earth dá dimensão ao JOL – Pág. 2

Continuação da entrevista com o jornalista José Antonio Meira da Rocha sobre o sistema geográfico do Google

Por Mario Lima Cavalcanti (*)

JW – Recentemente você fez um infográfico no GE sobre o acidente entre o avião Boeing da Gol Linhas Aéreas e o jato da Embraer [leia aqui nota no JW sobre o infográfico]. Teve muito retorno?

Meira – Só no dia seguinte. Ele fica meio escondido no site da Keyhole. Deu 447 downloads.

JW – Que grandes relações você enxerga entre GIS e jornalismo online? Digo, em que situações você acha que esse casamento seria mais útil?

Meira – Turismo é o mais óbvio. Roteiros turísticos ficam sensacionais neste formato. Mas em notícias em geral, que tenham uma "geografisidade", cai muito bem. Notícias sobre trânsito podem indicar avenidas engarrafadas e os caminhos alternativos. Notícias de acidentes podem indicar a trajetória dos veículos ou aviões envolvidos. Eu fiz, por exemplo, um mashup mostrando o Boeing 757 entrando no Pentágono. Já teve mais de dois mil downloads na comunidades. Outro membro fez o avião indo paras as torres gêmeas… Mas qualquer notícia pode ter seu KML. A CBS está fazendo isso, de uma forma muito ruim. Cada noticiazinha tem um placemark para o país. Mas isso não adiciona muita informação à notícia. A National Geographic tem roteiros pré-carregados no GE, um tour pela África, por exemplo. São pequenos textos e fotos que chamam para a versão Web da revista.

JW – Nesse caso da CBS, o placemark só exibe a localização do país?

Meira – É. A CBS só mostra o centro da capital do país. Muito pobre. O formato KML permite até mesmo a colocação de imagens de webcams, mas paradas. Ainda não trabalha com vídeo ao vivo. Mas é só questão de tempo. No entanto, nada disso está sendo explorado.

JW – Você acha então que a informação online tende a caminhar para esse lado do GIS? É mais uma daquelas tecnologias que em breve todo mundo estará usando ou implementando?

Meira – O veículo que criar seu "mundo particular" terá um futuro brilhante pela frente. Vai dominar a área. Acho que será o futuro. Por alguma razão, as pessoas comuns adoram o GE. Não é só coisa de geógrafos acadêmicos. Acho que tem a ver com nosso "mundo real", que é 3D. Com o poderio dos computadores crescendo sempre, vejo esses programas geográficos 3D como o caminho natural dos navegadores, como a nova Web. Nestes programas, você tem a parte plana (a Web atual) e um mundo bem mais interessante, tridimensional, onde as pessoas podem colocar seu material, podem colocar suas casas, seus locais de trabalho, seus bares. Este aspecto de comunidade também é interessante.

JW – Quem diria… Quantos universos e ferramentas 3d já tivemos e não vingaram… Teve o chat tridimensional The Palace, o TerraServer, até mesmo linguagens como o 3DML, o VRML, voltadas para a criação de mundos virtuais.

Meira – É… o VRML foi o maior fiasco! Nunca vingou. Por várias razões, acho… Não havia poder computacional, placas de vídeo 3D, memória suficiente, rede rápida… Mas, principalmente, não havia este modelo criado pela Keyhole, um servidor de fotos de satélite que pode ser populacionado pela comunidade.

JW – Para quem quiser se aventurar – ou até mesmo para professores interessados em estudar a coisa toda – nessa esfera de jornalismo online + Google Earth, existe algum tutorial?

Meira – Existe o nosso curso (risos) e vários tutoriais no Google SketchUp. Alguns em Flash, muito bons. Nosso curso é de nível básico, mas já mostra como fazer narrativas 3D com as ferramentas atuais, gratuitas.

JW – O curso é oferecido pela Univates?

Meira – Não, pelo site de aulas particulares que tenho com colegas. Usamos o ambiente Moodle para ensino à distância. É todo pela Internet. Não acredito mais em aulas presenciais (risos). Atendemos por email, por comunidadores pessoais, por Skype… É uma boa para jornalistas de turismo ou assessores de imprensa que quiserem colocar suas empresa no GE. Estou preparando um curso mais avançado, com técnicas de programação CGI para gerar os arquivos KML. Este é mais indicado para o pessoal "de sistemas" dos veículos. Ou para micreiros. Ele mostrará como gerar os KML na hora, a partir dos dados e da posição dos leitores no globo. O GE permite agora uma coisa muito interessante: os objetos aparecem só quando você se aproxima de um ponto.

JW – Entendo. Isso evita poluição.

Meira – É, fica mais leve a navegação. O cara chega perto de lençóis, no Maranhão, e aparecem os hotéis, trilhas, fotos, preços dos pacotes turísticos… A interação entre o leitor e o servidor é pobre. O GE só envia as coordenadas do que está sendo visto e os ângulos da "câmera" imaginária. Mas, com isso, já dá pra se calcular a posição no globo em que a pessoa está. Dá para se enviar dados referentes àquela posição, colocar objetos 3D no solo… Um dos programa que farei até o fim do ano será um mapa com todos os vôos comerciais do Brasil. Os vôos aparecerão como placemark em "tempo quase real", com o logotipo da empresa "voando" no trajeto entre um aeroporto e outro. Isso será feito com dados em tabela HTML da Infraero. As informações serão filtradas e será gerado um KML com a posição dos vôos. É esse tipo de conteúdo que entrará no curso avançado. Mas ainda estou estudando o sistema todo. Não é difícil, mas são muitas informações novas para aprender.

JW – É um nicho e tanto.

Meira – É um excelente nicho! E a empresa jornalística que pular na frente vai dominar. Estou procurando gente que se interesse, para desenvolvermos um trabalho juntos.

JW – Boa sorte! Meira, agradeço pelo papo. Se você fosse entrevistar um jornalista perito em GE, qual seria o titulo da entrevista? (risos).

Meira – Bá! Agora tu me pegou… Deixa eu pensar (…) Algum trocadilho com dimensão (…) Talvez "GE dá nova dimensão ao jornalismo".

JW – Tá ótimo. Assim será. Talvez com alguns ajustes, mas gostei (risos). Obrigado pela entrevista.

Meira – Por nada. Abraços! 😉

Glossário

GIS – Abreviação de Geographic Information Systems, Sistemas de Informação Geográfica. Refere-se a qualquer sistema desenvolvido para criação, armazenamento, análise e gerenciamento de dados espaciais e propriedades associadas.

Google Earth – Sistema de informação geográfica da empresa Google. Foi criado inicialmente pela Keyhole, companhia posteriormente comprada pela Google.

Keyhole – Empresa adquirida pela Google e que desenvolveu o sistema de informação geográfica conhecido hoje como Google Earth.

KML – Abreviação de Keyhole Markup Language (Linguagem de Marcação da Keyhole). Linguagem baseada em XML para gerenciar dados geoespaciais tridimensioniais em programas como Google Earth, Google Maps e Google Mobile. Chama-se também de KML um arquivo criado nesse formato.

KMZ – Versão compactada de um arquivo KML.

Mashups ou Mash ups – Sites ou programas de computadores que combinam conteúdos oriundos de fontes diferentes.

Placemarks – Posições onde são inseridas informações.

SketchUp – Programa de modelagem 3D inicialmente desenvolvido para profissionais como arquitetos, engenheiros civis e desenvolvedores de jogos.

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*Mario Lima Cavalcanti é editor do JW.

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