Mario Cavalcanti
por — 10/10/2006 em Notícias

Google Earth dá dimensão ao JOL

José Antonio Meira da Rocha fala sobre a relação entre o jornalismo e o sistema geográfico do Google

Por Mario Lima Cavalcanti (*)

Creio que ninguém tenha dúvida sobre a atual supremacia do Google como provedor de serviços online. Entre seus mais de 50 produtos – a empresa até decidiu interromper o lançamento de novos projetos para organizar os existentes -, alguns atingiram o ápice do sucesso. É o caso do sistema de informações geográficas Google Earth, que apresenta um modelo tridimensional do globo terrestre a partir de fotos de satélites obtidas de diversas fontes.

No campo do jornalismo digital, alguns profissionais começaram a se aventurar pelo Google Earth e estudar as possíveis aplicações do sistema nos noticiários online. Um deles é o jornalista gaúcho José Antonio Meira da Rocha. Professor de jornalismo online, Meira – que também atua como um dos editores do Ponto JOL, o weblog coletivo do JW -, dá cursos sobre a ferramenta geográfica e até criou nela recentemente um infográfico interativo sobre o acidente entre o avião Boeing da Gol Linhas Aéreas e o jato da Embraer.

Em entrevista via Google Talk, o jornalista gaúcho explica como funciona o Google Earth, cita possibilidades de uso e mostra algumas possíveis relações com o ciberjornalismo. Acompanhe abaixo:

JW – Fala, Meira. É uma boa hora para a gente bater aquele papo?

José Antonio Meira da Rocha – Claro!

JW – Ótimo. Então… Quer dizer que você está se tornando um especialista em "geocoisas", né? (risos). Como e quando surgiu o seu interesse pelo assunto?

Meira – Virei uma espécie de "Google Earth watcher". Quando a Keyhole lançou o programa, dei uma olhada, achei legal, mas era comercial. Não me atraiu muito. Nem testei. Mas o Sergey Brin, um dos caras do Google, usou e ficou doido com o programa. Compraram a Keyhole! Um ano depois, no meio de 2005, eles relançaram como Google Earth (GE), gratuito na versão simples. Aí eu pude testar e fiquei maluco com as possibilidades. Já estava usando o NASA World Wind também. Mas o GE dava mais possibilidades de usar jornalisticamente. Imediatamente, apliquei na minha turma de Jornalismo Online, na Unisinos [universidade perto de Porto Alegre, em São Leopoldo, onde Meira leciona]. E aí comecei a acompanhar o desenvolvimento da coisa toda, a cavar no fórum deles. E comecei também a mexer com mapas, usando um simulador de vôo FlighGear. Dá pra fazer mapas legais com informações gratuitas à disposição na rede. Foi isso. Eu fico horas pensando no que dá pra fazer. E vejo que as interfaces gráficas também estão ficando tridimensionais, como o projeto de X-Windows (Unix) e Windows Vista. Então, em poucos anos teremos um parque de computadores muito grande com capacidades tridimensionais. Me parece um caminho natural passarmos da interface plana como papel da Web (eu brinco que é plana como pergaminho) para uma interface tridimensional.

JW – Certo. Como deu-se exatamente o uso do GE pela sua turma de jornalismo online?

Meira – Foi muito legal. Eles pegaram muito fácil. A maior dificuldade é a natural, a de aprender HTML básico. Mas cada um escolheu um tema (sua cidade, geralmente) e desenvolveu uma "narrativa" usando placemarks do GE. Quatro ou cinco links, só. Mas é isso, uma matéria em geobrowser. Alguns textos curtos bastam. Tudo feito com o GE gratuito, que já dá pra fazer muitas coisas: gerar um "passeio" de um placemark a outro, mudar a visualização da "câmera" etc. Isso tudo é salvo num arquivo KMZ, com os links compactados junto com imagens de overlay (imagens no chão). Esse arquivo pode ser distribuído por email, colocado no final de outras notícias Web.

JW – Interessante, hein?

Quando alguém clica no anexo ou no link Web, abre-se o GE e a pessoa "viaja" até os pontos marcados no planeta. É uma espécie de "viajem de foguete", de um ponto a outro. Os placemarks aceitam um HTML básico: listas, negritos, cores, links Web, fotos. Pode-se colocar áreas e linhas no mapa. Mais recentemente, o Google liberou o SketchUp, um programa de maquetes 3D, que é outra história interessante do Google: os caras faziam este programa e foram no Google buscar informações técnicas para exportar modelos para o GE. O pessoal do Google gostou do programa e comprou a firma! E botou uma versão simples de graça, como é do modelo de negócios deles. Então, agora, a gente tem várias ferramentas gratuitas para criar narrativas tridimensionais. E dá pra fazer mais coisas. Um pós-doutor brasileiro faz um programa em Visual Basic [linguagem de programação criada pela Microsoft] para se criar gráficos de barras em cima de dados geográficos. É até recomendado pelo Google. Eu mesmo estou desenvolvendo um editor de linhas para se fazer "caminhos" pelo GE gratuito, que não tem este recurso. Você vai se movendo pelo GE e o programa vai desenhando a linha. Isso ajuda, por exemplo, para matérias sobre trânsito, estradas, vôos, roteiros turísticos, expedições, maratonas…

JW – É algo que daqui a pouco estará no visor dos computadores de bordo. Mas diga, você tem exemplos de veículos online e instituições educacionais ligadas ao campo de mídias digitais que já fazem bom uso de sistemas de informação geográfica (GIS)?

Meira – Fiz um exemplo de matéria GE quando a Polícia Federal estourou o roubo de bancos em Porto Alegre. Em uma hora e meia reproduzi os prédios com o SketchUp e fiz um arquivo KMZ contando o caso. Não conheço nenhuma, ainda. A crise nas universidades atingiu a Unisinos e eu fui demitido com quase uma centena de professores, e o trabalho foi interrompido lá.
Agora, em 2007, vou aplicar na Univates, uma outra universidade em Lajeado, perto de Porto Alegre. O pessoal de Geografia deve usar bastante, imagino, mas não como mídia.

JW – Isso tudo vai acabar virando uma disciplina

Meira – É, acho que um dia a coisa se especializará tanto que virará disciplina à parte.

JW – Já existe uma espécie de RSS pro GE ou eu to viajando? o KML seria isso?

Meira – É, seria isso. O KMZ e KML são formatos XML. Podem ser gerados programaticamente.

JW – E como eles funcionam exatamente?

Divulgação: José Antonio Meira da Rocha / WebcamMeira – Um sistema jornalístico moderno, que concentra a produção jornalística num banco de dados, pode gerar automaticamente os placemarks KML. O KML funciona com alguns parâmetros como posição, ângulo da câmera, aproximação do objeto etc. É um grupo de parâmetros muito simples, mas já dá pra fazer muitas coisas, pois a "viajem" de um ponto a outro é controlada pelo programa cliente, pelo Google Earth. Esses KML definem também objetos 3D como prédios e linhas, caminhos… Na versão mais nova, o GE permite que se usem texturas nos objetos, como um videogame moderno. Tudo isto, mais o texto HTML, vai embutido no KML ou KMZ (KMZ é um KML zipado/comprimido, com imagens). O GE tem uma arquitetura interessante… As informações geográficas estão nos servidores do Google. São uns 9 terabytes de fotos e informações altimétricas. Mas, além dessas informações, o GE pode buscar um KMZ com modelos. Em qualquer lugar, como uma Web. Então, um jornal pode ter seu próprio modelo, seu próprio mundo 3D. O GE fornece o "papel" (o planeta), e o jornal fornece "as letrinhas" (os placemarks e modelos). Cada veículo poderia ter seu próprio mundo.

JW – Nesse sentido poderiam então entrar padronizações para infográficos, não é?

Meira – Sim! Modelos pré-prontos. Poderia haver troca de modelos. O GE mantém um site onde a comunidade troca modelos.
Mas o veículo que se adiantar, terá quase uma hegemonia do mercado. Mais ou menos como o Orkut monopolizou o cenário no Brasil. O "mundo" mais legal, pioneiro, será o mundo mais visitado.

JW – Você tem o link dessa comunidade de geoviciados como você? (risos)

Meira – Peraí (…) Aqui está. Existem diversas categorias de placemarks, trocas de dicas, modelos 3D.

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*Mario Lima Cavalcanti é editor do JW.

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