Mario Cavalcanti
por — 02/10/2006 em Notícias

Joyce Jane: a super-heroína do Globo On

Leia a entrevista colaborativa feita pelos leitores do JW com a jornalista Joyce Jane, editora-chefe do Globo Online

Por Mario Lima Cavalcanti (*) et al.

Há cerca de três semanas, dei início ao que seria a primeira entrevista colaborativa do JW. Convidei os leitores do site e os usuários da lista de discussão a enviarem perguntas para a jornalista Joyce Jane, editora-chefe do Globo Online. Durante uma semana, reuni e organizei as perguntas, que foram encaminhadas por email para a jornalista, atenciosamente já à espera.

Assim como dizem que o baixista Steve Harris é a cara do grupo Iron Maiden, eu diria que Joyce Jane é a cara do Globo Online. A "jornalista com nome de super-heroína" (como disse o prezado jornalista mineiro Marcelo Sander, um dos entrevistadores) está na edição online do jornal carioca desde o seu lançamento, em 1996, e foi uma das principais responsáveis pela recente reforma do portal.

Acompanhe abaixo a entrevista colaborativa com Joyce Jane:

Carlos d'Andréa, coordenador do curso de jornalismo do Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte, Minas Gerais – Joyce, a recente reformulação do Globo Online tem como inovação principal a incorporação definitiva (acredito eu) de recursos como podcasting, RSS, alertas, blogs e acesso por PDAs, muitas vezes esquecidos ou pouco valorizados por sites advindos da grande imprensa. Pensar nestes produtos, no entanto, significa adaptar-se às rotinas de um leitor/usuário típico da Internet, muitas vezes mais experiente que o leitor que apenas procura a versão online do jornal impresso que já assina ou lê. Pergunto: até que ponto a concepção dos novos produtos considerou a diversidade de públicos do site? Como os leitores menos experientes reagiram (aderiram?) às novidades? As estatísticas indicam uma grande adesão, por exemplo, ao RSS e ao podcasting?

Joyce Jane – Sim, ao criarmos essas novas formas de entrega de conteúdo consideramos nossa diversidade de públicos (temos 34% de público com idade entre 20 e 29 anos), tendências de mercado e a necessidade de introdução de novos conceitos para ampliar a audiência de nosso produto. As estatísticas mostram um movimento crescente de adesão, não uma explosão, especialmente em nossos podcasts. A média de downloads desses produtos cresceu em torno de 15% no primeiro mês do novo site, mas acreditamos que  é um formato de entrega de conteúdo que tem grande potencial.

Foto ilustrativa: edição digital do jornal O Globo.Raphael Perret, jornalista e mestre em informática – Ainda sobre a recente reforma, o Globo Online transformou o formato da edição digital do jornal: do tradicional HTML a uma tecnologia nova, que dá ao leitor a impressão de que manuseia o diário. A mudança foi feita em função de alguma pesquisa que constatou este desejo nos visitantes da página? Qual tem sido a reação dos leitores?

JJ – Foi uma decisão estratégica da empresa com o objetivo de oferecer um novo produto de maior valor agregado aos nossos leitores e anunciantes. Com relação à reação, o produto tem tido muita repercussão: recebemos vários elogios, leitores que estão bastante satisfeitos porque agora quando lêem a edição impressa na Internet visualizam a hierarquização das matérias e os anúncios, que também são uma forma de conteúdo. Mas também recebemos muitas críticas. Muitos leitores preferiam a forma antiga, por ser mais rápida e pelo hábito que já tinham. Mudança sempre gera também alguma reação. É assim em todos os redesenhos e foi assim também com a edição digital.

Gleice Couto, estudante de jornalismo da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro – A interatividade do jornalismo online por vezes é questionada. O uso de enquetes é, por exemplo, segundo Pollyana Ferrari, "muito primário, já que a participação do leitor pode ser muito mais ampla do que uma simples resposta elaborada com base em um assunto importante da semana, presente nos noticiários de TV, programas de auditório, jornais e revistas semanais". A seção "Eu-Repórter" do Globo Online, entretanto, está levando a interatividade a um nível mais avançado, além da opinião de leitor, passando a uma informação noticiada por ele. Já pode-se ver essa "mudança" em outros periódicos (JB Online, OhmyNews etc.). Essa é uma tendência que, na sua opinião, veio para ficar e pode mudar um pouco a face do jornalismo online?

JJ – O  Globo Online aposta com força na interatividade. Além de enquetes, fóruns de discussão e blogs, abrimos espaço para os leitores comentarem as notícias. Nos 30 primeiros dias, recebemos cinco mil comentários, em notícias publicadas em todas as editorias do site. O leitor também se sente participando da construção do site na medida em que pode alertar para erros nas notícias ou comentários impróprios. A nova seção de Opinião recebe artigos e o que chamamos "Opinião do leitor". A seção de jornalismo participativo "Eu-Repórter' reúne textos noticiosos, fotografias, vídeos e áudios enviados pelos leitores, analisados e selecionados pelos editores. O leitor é testemunha do cotidiano da cidade, da vida do país e dos grandes acontecimentos do mundo. O seu relato é de grande valor informativo. É um caminho sem volta, e que será aprofundado. Não mudará apenas o jornalismo online, mas todo o jornalismo. A CNN lançou sua área de jornalismo participativo, chamada I-report, que coincidentemente tem o mesmo nome e foi criada, se não me engano, na mesma semana que criamos a nossa. Acreditamos que os jornais impressos também abrirão mais espaço para o leitor falar e mostrar o que acontece a seu redor. 

José Antonio Meira da Rocha, jornalista, professor de Jornalismo Online e Planejamento Gráfico do Centro Universitário Univates, no Rio Grande do Sul – Que possibilidades você vê nos geobrowsers ou Geographic Information Systems (GIS) – Google Earth, NASA World Wind – como plataforma jornalística?

JJ – É possível conectar as pessoas em torno de assuntos do seu dia-a-dia, do lugar onde vivem, e fazê-las, mais do que participar de uma discussão, trazer a discussão para dentro das comunidades que podem ser formadas. Com isso, um conteúdo novo e diferenciado pode ser construído e explorado.

Ceila Santos, jornalista freelancer de São Paulo – Parece-me que a maioria dos portais resolveu colocar tudo que se produz na Internet, e minha sensação é que ainda não se encontrou uma "cara legal" para isso. O portal da Globo News, por exemplo,  por mais organizado que tenta ser, tem tanta divisão, que particularmente não me estimula a navegar. Ou seja, ali tem jornal, televisão e ainda uma cobertura online. Como jornalista, sei que o objetivo daquela cara é juntar ali todo o conteúdo da emissora. Esse modelo/estratégia representa o novo estilo do jornalismo digital ou retrata o meio do caminho da linguagem online?

JJ – É da natureza da Internet agregar as diversas mídias. Fazer um jornalismo online baseado apenas em texto será cada vez mais uma coisa do passado. Como fazer isso de forma eficaz é algo que ainda está sendo construído. Todos estamos aprendendo, dia após dia, como reunir e organizar conteúdos de mídias diferentes. Toda notícia pode e deve ser apresentada com textos, fotos, vídeos, áudios, de modo a permitir que o leitor decida em qual "formato" ele quer ser informado – talvez em todos. O trabalho dos arquitetos de informação é planejar uma navegação/apresentação do noticiário simples e eficiente para que o leitor encontre o que quer, no formato que quer, com facilidade e rapidez, e ainda possa ser "surpreendido" com conteúdos relacionados que ele não esperava encontrar, mas que são entregues pelo site.

Rita Paulino, professora e designer do Instituto Stela – Muito se fala nos recursos de multimídia, mas na prática a gente percebe que as notícias não utilizam muito o hipertexto. Geralmente são textos pequenos, e esses links com outras mídias (áudio, vídeo, banco de imagens e matérias afins) aparecem no dia seguinte. Como você vê essa utilização de vários meios em uma cobertura em tempo real?

JJ – O modelo de produção do noticiário online – a forma de trabalho de uma redação digital – já permite a integração de diversas mídias em tempo razoável. É claro que a primeira informação em geral será dada na forma de texto. Mas o desenvolvimento de novas tecnologias de transmissão de conteúdo acelerou o processo. Assim, por exemplo, já é possível transmitir fotos diretamente do gramado do Maracanã, em pleno jogo, para a redação. Em poucos minutos, a foto do gol estará no site, ilustrando a matéria. O uso de celular popularizou e vai popularizar ainda mais a transmissão e a troca de fotos. Com a tecnologia na mão, a nossa questão passa a ser cultural, de treinamento e de planejamento. Os jornalistas passam a ter que pensar sua pauta já como um "complexo" de mídias. Ao sair para fazer um perfil, além dos tópicos que serão abordados na entrevista, você já pensou e organizou a produção de um vídeo, listou e buscou áudios que ilustrarão o material a ser publicado, ou selecionou e organizou fotos de arquivo que ilustrarão a história do entrevistado. Essa riqueza de conteúdo, associada à interatividade, é o que define a Internet.

Divulgação: Joyce Jane. Fonte: Globo Online.Alexandre Gonçalves, editor do blog Coluna Extra e editor de conteúdo do site Empreendedor – O que leva um internauta a acessar diariamente um site/portal de notícias? Como atrair mais leitores?

JJ – A certeza de que encontrará o que procura é o que leva um leitor a acessar diariamente um site de notícias. Ele é fiel na medida em que sabe que estará bem informado naquele sítio. Portanto, tem uma relação direta com credibilidade e com variedade de informação.  Para atrair mais leitores, é necessário ampliar o cardápio do noticiário e, principalmente, estar atento às demandas. É preciso pesquisar o que o leitor gosta de ler e o que ele quer ler, mas não está encontrando.

Rita Paulino, professora e designer do Instituto Stela – Como acontece a dinâmica de redação, sendo um veículo online? Existem reuniões de pautas? Como é o dia-a-dia de uma redação online?

JJ – O Globo Online foi organizado como uma redação tradicional, dividida em editorias como as do impresso (cultura, economia, país etc.). Há uma equipe de capa, que coordena toda a produção e o cotidiano da redação – e que corresponde à chefia de redação de um jornal. São feitas reuniões diárias entre os editores, que apresentam as previsões do dia e avaliam o trabalho dos dias anteriores. Estamos repensando se a redação online não poderia se organizar de outra maneira, se desligando do modelo da redação do impresso.

Marcelo Sander, jornalista e profissional de atendimento/redação Web da Bhtec e:house, em Belo Horizonte, Minas Gerais – Haja vista que foi a última dos grandes conglomerados de comunicação a realmente investir no meio online (se não me engano, o portal Globo.com só teve mídia pesada de lançamento em 2001, quando o mercado Web já estava consolidado), a concepção que as Organizações Globo têm da Internet vem mudando? Os jornalismos da emissora e do impresso vêem a Internet como canibalização dos demais veículos ou como aliada? Enfim, como é a relação dos profissionais do portal com os profissionais do rádio, TV e impresso dentro da organização?

JJ – A Internet é uma aliada. Está claro para todos que é um caminho cheio de oportunidade para o crescimento do jornal, da TV, de todos os veículos. Ele soma. O Globo é um produtor de conteúdos noticiosos. Esses conteúdos podem ser distribuídos através do jornal, da Internet, de celular e de outros meios. No caso do jornal, a sinergia entre a redação do impresso e do online é um projeto que praticamente nasceu com o Globo Online, há 10 anos. O site publica "flashes" enviados por repórteres do impresso. O jornal publica matérias escritas pelos repórteres do online. A integração só vai crescer.

Alexandre Gonçalves, editor do blog Coluna Extra e editor de conteúdo do site Empreendedor – No atual momento, que obstáculos, na sua opinião, o jornalismo online brasileiro precisa superar com maior urgência?

JJ – Há desafios. É importante ampliar a cobertura regional. Acredito que há uma demanda por noticiário das cidades, isso em todo o Brasil. Aumentar a interatividade, trazendo o leitor para o dia a dia do site, fazendo dele um participante, é outro desafio. Um obstáculo é o pequeno número de brasileiros com acesso à Internet. É fundamental para a democratização da informação permitir que mais e mais brasileiros tenham acesso. Quando isso acontecer e as ferramentas de interatividade estiverem maduras, a troca de informações será um importante fator de desenvolvimento. Na Internet, não vamos ter apenas pequenos grupos falando o que pensam ou destacando o que acham importante. Todos poderão contribuir, dizer o que pensam e o que acham que deve ser destacado.

*Mario Lima Cavalcanti é editor do JW.

Participaram dessa entrevista colaborativa: Alexandre Gonçalves, Carlos d'Andréa, Ceila Santos, Gleice Couto, José Antonio Meira da Rocha, Marcelo Sander, Raphael Perret e Rita Paulino.

Mario CavalcantiJoyce Jane: a super-heroína do Globo On