Mario Cavalcanti
por — 24/07/2002 em Notícias

Internet e Terceiro Setor – Parte 3

Por Geiza Rocha. A professora da PUC-Rio, Lucia Carregal, fala sobre o site e-comunidade, que explica como colocar projetos sociais online

Série Especial
Parte 3 – Entrevista com Lucia Thereza Carregal

Por Geiza Rocha (*)

Nesta entrevista com a professora da PUC-Rio, Lucia Thereza Carregal, vamos conhecer uma outra possibilidade de divulgação do trabalho das comunidades do Rio: o e-comunidade. O site, que integra o Núcleo de Comunicação Comunitária do Projeto Comunicar, da PUC-Rio, funciona numa casinha na Vila de Diretórios da Universidade. O objetivo do é possibilitar aos líderes comunitários a experiência de colocar na rede informações sobre sua comunidade e registrar os eventos que realizam. A partir de agosto, alunos de comunicação vão participar deste projeto, que aos poucos, por meio da propaganda boca-a-boca, vem crescendo.

JW – Gostaria que você contasse como funciona o e-comunidade. Quando ele foi criado?

Lucia Thereza – O e-comunidade funciona como um pequeno portal para jornais eletrônicos de comunidades diversas. O enfoque principal do projeto é a democratização da comunicação, daí o jornal privilegiar o trabalho com comunidades com pouco acesso à internet. Inicialmente, o e-comunidade foi apoiado pelo Instituto Gênesis, e funcionou, de abril de 2001 até maio de 2002, na Incubadora de Empresas da PUC. Estamos no ar desde 2001, mas ainda não fizemos divulgação para o grande público ou em sites de busca porque estamos ainda nos estruturando.

JW – Quando os líderes comunitários procuram pelo e-comunidade, o que eles buscam?

LT – No início, somos nós que procuramos o pessoal de comunidade, mostrando as vantagens da comunicação eletrônica e oferecendo nossos serviços de edição. Mas aos poucos, eles vão percebendo o que podem fazer e começam a nos enviar material novo ou de atualização, chegando depois a assumirem aos poucos a edição final. E lentamente as próprias comunidades vão falando do projeto para outras, divulgando assim o trabalho. 

JW – Para uma série de líderes comunitários o e-comunidade virou referência justamente porque dá liberdade a eles de escreverem livremente sobre os seus projetos. Qual a relação destes relatos com o jornalismo, na sua opinião?

LT – A idéia é justamente essa: fazer com que os jornais do portal sejam das comunidades, pautados e feitos por elas. A relação desses relatos com o jornalismo é que provavelmente essas pessoas estão comparando o trabalho realizado no site com o estilo mídia de massa e têm podido sentir a diferença: enquanto os que seguem a escola da grande mídia são levados, em nome da comunidade, a criar, pautar, apurar, redigir, editar, formatar e publicar, no nosso caso elas podem assumir estes papéis (ou só parte deles, se ainda não estiverem preparadas).

JW – E como isso funciona na prática?

LT – Encorajamos os integrantes de comunidades interessados em jornal web a exercerem uma função inicial de autores das matérias e depois, com a experiência, de subeditores do portal. Assim, eles aprendem as técnicas e refletem sobre a internet e seu papel no mundo de hoje. Com a prática, eles podem assumir a editoria de cada jornal e aí sua autonomia é completa, devendo prestar contas somente dos aspectos ligados ao nosso Código de Ética.

JW – E há algum tipo de edição das matérias?

LT – Quanto à edição, temos realmente a responsabilidade de organizar a informação e tornar os textos mais jornalísticos e objetivos, sem maiores erros de português, embora nos preocupemos sempre em manter a linguagem informal e popular. Nesse ponto, o principal é que nosso trabalho precisa ser aprovado pela comunidade para ir para o ar (ou ali se manter).

JW -A internet é o meio mais barato de divulgação para estas comunidades? E é o mais eficaz?

LT – Sabemos do tremendo fosso digital que caracteriza o Brasil: cerca de somente 6% da população possui computadores. Cremos, porém, que esse número deve crescer, na medida do barateamento dos equipamentos e da democratização do acesso à internet. Mesmo hoje, muitos não têm computadores em casa mas trabalham com informática e acessam a rede em seus locais de trabalho. Acredito que daqui a três anos a situação será diferente, com um percentual maior de pessoas conectadas. Aí, quem já estiver na estrada, com experiência e vontade de se atualizar, certamente sairá ganhando, seja por dispor de uma mídia muito barata (após a compra do equipamento, a publicação na internet, em qualquer periodicidade, tem custos mínimos) seja por contar com uma ferramenta de grande eficácia. Esse movimento é irreversível, apesar do atraso causado por incompetência ou corrupção. O programa governamental "Sociedade do Conhecimento", cuja meta era superar o analfabetismo digital dotando cada escola de um computador (embora não tivesse como prioridade a formação de pessoal qualificado para lidar com esse equipamento) e para isso dispunha de R$ 2 bilhões fracassou. Hoje, esses recursos foram desviados para o Fust – Fundo de Universalização das Telecomunicações, que por sua vez está cobrindo os prejuízos do atraso da votação da CPMF.

JW – Qual é para você a relação entre a rede social que vai se formando com esta experiência e a rede da internet?

LT – É uma relação de inovação: os mecanismos de rede tendem a se realizar plenamente na medida em que seus usuários conseguem superar a estrutura vertical e autoritária que caracteriza a sociedade. A vivência da comunicação em rede cria um fenômeno novo, que tende a impregnar as relações sociais de trabalho, grupais e até pessoais, com um espírito mais democrático e participativo.

JW – O Terceiro Setor vem sendo considerado pela mídia um bom mercado para os jornalistas, uma vez que as ONGs têm exigido uma maior especialização dos profissionais. O e-comunidade é um bom laboratório para experimentar esta relação com as comunidades? Você sente que há interesse dos alunos em trabalhar com este Setor?

LT – É um ótimo laboratório, pois as comunidades costumam ver as notícias, a realidade, com um olhar novo e com enfoques derivados de uma prática muito mais solidária, e a gente tem aprendido muito com elas. Quanto aos alunos, só um pequeno percentual deles revela interesse social ou comunitário. Muitas vezes, porém, o curso e depois a vida profissional acabam por despertar neles um sentimento de justiça e participação e fazem com que eles procurem trabalhos com uma abordagem mais humana e social. E à esse sentido, junta-se à criatividade e ao natural entusiasmo dos jovens, bem como a sua capacidade de adaptação à velocidade – fator onipresente hoje – e temos todas as condições para dar passos animadores. Além do Terceiro Setor ser considerado um bom mercado, veja também a importância dos jornalistas para ele: o trabalho em um veículo permite que o jornalista conheça e divulgue esforços de várias áreas da vida brasileira, o que estimula e reforça a esperança em um país mais justo e humano.

JW – O e-comunidade começou como um projeto da Incubadora da PUC e hoje está situado numa das casas da Vila dos Diretórios. Conte para nós como foi esta passagem.

LT – O site funciona numa área cedida pela PUC desde maio deste ano, mais especificamente em duas salas na Vila dos Diretórios, Casa X. O projeto integra o Núcleo de Comunicação Comunitária, que é um dos núcleos do Projeto Comunicar, o setor de Comunicação da Universidade (não é o Departamento de Comunicação, área acadêmica, mas sim o setor de divulgação de toda a PUC, interna e externamente). Por enquanto, o e-comunidade só conta com uma aluna estagiária, Lyana Vieira dos Santos, que está de saída, porque se forma agora, embora, informalmente, ela ainda continue ajudando. Em agosto, o Projeto Comunicar pretende lançar concurso entre os estudantes para preencher três vagas de estagiário no Núcleo de Comunicação Comunitária. Aí, então, teremos mais condições de ampliação do jornal eletrônico, que atualmente não está caminhando com velocidade pela falta de pessoal.

Parte 4 e última – A Informação na Rede e o marketing social

*Geiza Rocha é jornalista e redatora Web.

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