Mario Cavalcanti
por — 17/07/2002 em Notícias

Internet e Terceiro Setor – Parte 2

Por Geiza Rocha. A jornalista conversa com Cristiane Ramalho, redatora do Viva Favela, na segunda parte do especial

Série Especial
Parte 2 – Contrastes e responsabilidade social do jornalista

Por Geiza Rocha (*)

Ao trabalhar numa Organização Não Governamental, o jornalista vai descobrindo aos poucos qual a sua parcela de responsabilidade social e como pode encurtar as distâncias entre asfalto e favela. Na segunda entrevista da série "Jornalismo e Terceiro Setor" conversamos com a redatora do site Viva Favela, Cristiane Ramalho, e descobrimos como funciona este relacionamento entre os correspondentes, que vivem o dia a dia nas comunidades e os jornalistas na produção do conteúdo para o site que, segundo a própria Cristiane é um dos projetos mais bem sucedidos do Viva Rio.

JW – Que tipo de olhar se desenvolve quando se trabalha no Terceiro Setor com informação e comunicação?

CR – No meu caso, um olhar mais sensível para os moradores de favela, que fazem parte de um segmento quase sempre excluído pela abordagem da grande imprensa. A convivência com eles me permitiu uma troca de idéias e experiências extremamente rica. Em geral, acho que o trabalho no Terceiro Setor devolve ao jornalista a certeza de que ele também tem sua parcela de responsabilidade social.

JW – Como vocês fazem para chegar até as comunidades? E como é o trabalho dos correspondentes, que estão baseados nas favelas?

CR – O Viva Favela trabalha com um corpo de "correspondentes" nas favelas. São moradores das comunidades que atuam como repórteres e fotógrafos para o portal. Todos têm o segundo grau completo e experiência anterior em veículos de comunicação na própria favela – rádios comunitárias, jornais locais etc. Eles produzem matérias que eles mesmos sugerem e que são apresentadas numa reunião de pauta semanal na redação do Viva Favela. Também dão suporte sempre que os repórteres do staff de jornalistas do portal precisam entrar em alguma favela.

JW – O site Viva Favela é definido como uma ponte virtual entre asfalto e favela. Como ele funciona na prática? Busca-se nas matérias uma abordagem diferente do que é veiculado na grande imprensa sobre a vida nas favelas? E como é feito isso?

CR – O grande diferencial do Viva Favela é justamente o olhar dos "correspondentes" das favelas. Como moradores, eles vivenciam no seu cotidiano todas as mazelas e alegrias de se viver numa comunidade. E reproduzem isso nas matérias, ao descobrir personagens curiosos do morro, ou denunciar o descaso do poder público, ou jogar luz sobre aspectos da favela que passam despercebidos. A maior prova de que essa ponte começa a dar certo é a grande mídia – Globo, inclusive – recorrer sistematicamente ao Viva Favela como fonte de pautas.

JW – Atualmente está havendo uma preocupação maior por parte das ONGs em produzir seu próprio material e estabelecer uma rede de comunicações não apenas com o seu público-alvo mas também com os financiadores e com a sociedade em geral. Você concorda com esta visão? Como a internet colabora com isso?

CR – Não tenho informações precisas, mas tenho a mesma impressão. Aos poucos, as ONGs começam a perceber a importância de comunicar para a sociedade o que são e o que fazem. Mas a imensa maioria ainda está longe de ter um jornalista contratado para fazer esse trabalho. É um mercado que deve crescer em breve. E que terá como desafio atrair os jornalistas e quebrar um certo preconceito com relação às ONGs que ainda vigora nas redações tradicionais.

JW – Como o site Viva Favela se sustenta? E qual a relação dele com o Viva Rio e os projetos que a ONG desenvolve? Qualquer pessoa de qualquer comunidade pode colaborar para o Viva Favela?

CR – O Viva Favela é dos projetos mais bem-sucedidos do Viva Rio. E luta para reduzir a exclusão digital nas comunidades de baixa renda. O projeto conta com uma série de financiadores que investem nas duas pontas principais do projeto. Nas Estações Futuro – 'cafés cibernéticos' instalados pelo Viva Rio nas favelas – onde os moradores têm acesso à Internet e aulas de informática a preços acessíveis _ e na produção de informação para o site. Toda colaboração é sempre bem-vinda, desde que dentro dos critérios editoriais do Portal.

JW – Há muita procura por parte das comunidades para a divulgação de seus projetos? É dado algum "tratamento jornalístico" ao que eles escrevem?

CR – A procura ainda é pequena. Mas, aos poucos, o portal começa a conquistar o público das comunidades. O potencial é imenso. Este exemplo é recente: fizemos uma matéria sobre pessoas que se perderam de seus parentes após migrarem para o Rio. A matéria fez o maior sucesso porque houve identificação. Muitos simplesmente perdem o rastro da família dentro do próprio país, às vezes morando no mesmo estado. O material produzido pelos "correspondentes" do Viva Favela é editado pela redação. Aliás, a redação acompanha o trabalho dos "correspondentes" da pauta até o texto final.

JW – Como é o trabalho de uma redatora no site Viva Favela?

CR – Muito mais do que simplesmente revisar erros ortográficos, o trabalho de um redator do Viva Favela inclui várias funções que vão desde acompanhar a elaboração das pautas até orientar o correspondente durante a finalização da matéria. O maior desafio de todos é justamente dar o que você chamou de "tratamento jornalístico" – ou seja, editar um texto, quase sempre fazendo inúmeras alterações no original, mas preservando ao máximo o 'estilo' e, sobretudo, a visão de cada correspondente e o conteúdo do material apurado por ele.

JW – Quando penso neste assunto, Jornalismo e Terceiro Setor, fico tentando formar a imagem na minha cabeça de um perfil ideal de jornalista que trabalha em ONGs na produção de informações. Você que trabalha no Viva Favela conseguiria delinear um perfil?

CR – Uma boa dose de idealismo é sempre recomendável. Sabe aquele sujeito que sonhava, ainda na faculdade, em "mudar o mundo"? Ele com certeza não vai "mudar o mundo" trabalhando numa ONG, mas tem boas chances de se realizar profissionalmente ao contribuir, mesmo que de forma limitada, para a transformação social do país. Não se pode esquecer, no entanto, que um bom jornalista é sempre um bom jornalista – não importa a empresa ou o veículo para o qual trabalhe. Isso vale ainda mais para quem está numa ONG, onde aparentemente ainda há muito poucos profissionais de comunicação atuando.Com ou sem idealismo.

JW – Você acredita que este mercado de jornalismo para o Terceiro Setor está realmente crescendo?

CR – Me parece que sim. Mas é apenas uma impressão. Espero que seja verdadeira, porque já está mais do que na hora de as ONGs se profissionalizarem na área de comunicação. E de mostrarem, de forma mais criativa e menos sonhadora, que podem ser atores importantes na sociedade brasileira.

Parte 3 – Entrevista com Lucia Thereza Carregal

*Geiza Rocha é jornalista e redatora Web.

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