Mario Cavalcanti
por — 03/07/2002 em Notícias

Internet e Terceiro Setor – Parte 1

Por Geiza Rocha. Na primeira parte do especial, a jornalista entrevista Graciela Selaimen, coordenadora de informação da Rits

Série Especial
Parte 1 – Entrevista com Graciela Baroni Selaimen

Por Geiza Rocha (*)

Com o crescimento da importância das Organizações Não Governamentais (ONGs), ampliam-se as redes de contato e de informação. O mercado de trabalho nesta área, que exige cada vez mais especialização, se amplia também para o jornalista que possui algum nível de envolvimento com causas sociais, seja a partir de experiência profissional ou de ações voluntárias.

Para discutir este assunto, será realizada uma série que aborda a relação da imprensa com o Terceiro Setor. Nossa primeira entrevista será com a editora da Revista de Informação do Terceiro Setor (Rets) e coordenadora da área de informação da Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits), Graciela Baroni Selaimen, site que hoje é uma das referências no Brasil para quem trabalha em ONGs.

JW – O desenvolvimento dos sites com conteúdo jornalístico e o seu crescimento facilitou a troca de informações entre as ONGs?

GBS – Falando de uma maneira genérica, pode-se dizer que sim, facilita. Entretanto, se nos propusermos a pensar em resultados ou em ações mais específicas, não consigo perceber a presença de mais e maiores sites de informação como um fator que estimule trocas entre as ONGs. É óbvio que quanto maior for a disponibilização de informação de qualidade, em língua portuguesa, melhor para todo mundo – inclusive para as ONGs. Mas o simples acesso à informação não significa necessariamente que elas vão trocar entre si. Para estimular este intercâmbio, é necessário um esforço mais específico e concentrado – como a criação de espaços comuns, a proposição de uma agenda ou uma pauta, o acesso a ferramentas que facilitem a comunicação e a atividade de animação ou facilitação. Estas são ações que desenvolvemos, além do site. O site da Rits é uma referência para as organizações. A articulação de ações e projetos entre diferentes ONGs é outro trabalho que fazemos, além de oferecer para as organizações os meios, as ferramentas que facilitam e viabilizam uma troca efetiva.

JW – O assunto "jornalismo no terceiro setor" me interessa bastante. No entanto, sinto que há uma certa resistência dos jornais em publicar notícias destes projetos. O que você acha disso?

GBS – Há dificuldade em conseguir espaço nos veículos, sim. Muitas organizações reclamam da falta de interesse da mídia em se aprofundar nas questões relativas às atividades das organizações da sociedade civil. Mesmo quando surge a possibilidade de divulgação, ouve-se a queixa de que os jornalistas não estão familiarizados com alguns conceitos e há confusão ou superficialidade na cobertura. Acho que parte dessa "resistência" (se podemos chamar assim) deve-se muito à falta de informação dos próprios jornalistas sobre as atividades das ONGs. Por outro lado, para a maioria dessas organizações, ter um profissional de comunicação dedicado ao relacionamento com a mídia ainda é um "luxo", se comparado a outras necessidades. É um desafio, sem dúvida.

JW – Não seria também a velha resistência à "boa notícia"?

GBS – Também há quem diga que boa notícia não vende jornal. Não sei até que ponto isso é verdade. O que sei é que as organizações da sociedade civil não são apenas sinônimo de "boa notícia". É ingênuo pensar no trabalho das ONGs e movimentos sociais dessa maneira. Há muita luta legítima, articulações interessantes, acompanhamento e proposição de políticas públicas, cidadãos organizados, agindo efetivamente pelo exercício pleno da cidadania. Isso merece – e deve – ser divulgado.

JW – Como você descreveria a relação entre a rede (Internet) e a rede (que sustenta e alimenta as ONGs)?

GBS – A nossa rede se consolida na Internet. Como disse antes, o uso cidadão da Internet e sua percepção como um potencial de articulação de organizações em redes de comunicação e trabalho colaborativo é uma de nossas vocações. Para a Rits, a Internet é um espaço que deve ser cada vez mais ocupado pelas organizações da sociedade civil. É nesse sentido que trabalhamos e desenvolvemos nossos projetos: buscando a apropriação das novas tecnologias pelas ONGs e movimentos sociais, colocando a Internet a serviço da participação cidadã.

JW – Como foi criada a Rede de Informações sobre o Terceiro Setor?

GBS – A Rits foi criada em 1997 (e funciona desde o início de 1998) a partir de uma idéia de construir um catálogo das organizações sem fins lucrativos no Brasil. A decisão de fazer este catálogo na Internet se deveu à necessidade de criar um sistema interativo de informações, fácil de atualizar. A proposta era que as próprias organizações pudessem inserir e atualizar seus dados. Para estimular esta participação, passamos a divulgar no site da Rits informações úteis para as organizações como a legislação sobre o terceiro setor, informações sobre gestão, estudos, pesquisas e publicações sobre terceiro setor. Logo em seguida, surgiu a idéia de oferecermos também serviços – ferramentas de comunicação e informação a um custo acessível para as organizações da sociedade civil. 

JW – E como ela funciona hoje?

GBS – Hoje a Rits desenvolve suas atividades baseada em quatro eixos principais: produção e difusão gratuita de informações qualificadas sobre e para as organizações do terceiro setor, a partir da Internet; articulação de organizações em rede, promovendo o intercâmbio de experiências e o fortalecimento de iniciativas; disponibilização de recursos tecnológicos que apóiam as organizações no uso das tecnologias digitais de comunicação e otimizar o alcance de seus objetivos institucionais além da capacitação das organizações para o uso efetivo destas tecnologias. Desde o início de suas atividades, a Rits atua com o objetivo de ser um instrumento de modernização das organizações da sociedade civil e se consolidou como uma iniciativa pioneira se tornando uma referência no que diz respeito à produção de conteúdos voltados para os interesses do terceiro setor. Cada vez mais a Rits se coloca à frente de discussões estratégicas sobre o acesso à Informação, a infoexclusão e suas conseqüências para o país. 

JW – E a revista Rets? O que é notícia para ela? Ela possui versão impressa?

GBS – A Rets foi criada no segundo semestre de 98. As notícias da Rets são as atividades das organizações da sociedade civil – as conquistas, as dificuldades, os projetos inovadores, as parcerias que são feitas. Divulgamos as campanhas, os protestos, as opiniões das pessoas que trabalham no campo social e as informações que são úteis: financiamentos, concursos, prêmios, editais. Temos uma área de notas, que é atualizada diariamente, onde divulgamos cursos, eventos, oportunidades de trabalho no terceiro setor. E sempre buscamos divulgar o olhar das ONGs – como elas se posicionam em relação a temas específicos. A revista não tem versão impressa – afinal, a Rits busca estimular e facilitar a utilização das tecnologias digitais pelas organizações. É natural que a nossa produção de informação seja veiculada na Web.

JW – Você acha que o Terceiro Setor está se tornando mais visível hoje do que há 5 ou 10 anos atrás?

GBS – Tenho certeza que sim. Embora tenha dito, no início da entrevista, que há pouco espaço na grande mídia para as organizações que compõem o Terceiro Setor, é óbvio que a exposição hoje é muito maior. Acho que essa ampliação da visibilidade das ações da sociedade civil organizada deve-se, em parte, à ampliação do espaço para a divulgação de informações de maneira alternativa – leia-se Internet. Há muita coisa boa sendo feita na Internet e que divulga idéias, valores e o pensamento de instituições ou afinam-se com as propostas de equidade, justiça social, desenvolvimento sustentável, exercício da democracia. Iniciativas como a Ciranda da Informação Independente, a Nova-E, newsletters como a do WWI-UMA, a rede CTA-JMA. Também é importante ressaltar que há um interesse muito grande na informação que é produzida sobre as ONGs e os movimentos sociais. Temos um ótimo exemplo disso: durante o Fórum Social Mundial, em fevereiro, passado, tivemos um número de acessos ao site do Fórum que nos deu motivo para muita comemoração – 500 mil page views num só dia, dá pra imaginar? 

JW – Que sites de terceiro setor são referência para você? E os de informação, quais costuma acessar?

GBS – Eu gosto muito dos sites da Andi, da Fase, do Ibase, do WWF, do ISA, do Cemina, entre outros tantos. Não posso deixar de citar o site do Fórum Social Mundial, que também é hospedado pela Rits. Quanto aos sites de informação, eu consulto principalmente o JB Online, o Globo, a Folha e o Estadão. 

JW – Como o site se sustenta?

GBS – A Rits se sustenta das associações das organizações que utilizam nossos serviços e as soluções tecnológicas que oferecemos. Além disso , desenvolvemos diferentes projetos (nas áreas de capacitação, serviços de informação, produção de conteúdos) que têm apoio de diversas fontes. O site é uma parte de nosso trabalho, e toda a informação que disponibilizamos é gratuita.

JW – Quantas pessoas trabalham para alimentar o site? A atualização é diária?

GBS – Contamos com quatro jornalistas e dois estagiários de jornalismo, além de uma profissional para atualizar as áreas de Catálogo, Acervo e Estudos, um consultor e uma estagiária para a área de Legislação e um consultor para a área de Gestão. A equipe de jornalistas trabalha na atualização do site, na produção da revista e em projetos como o site DH Online, que é uma parceria entre a Rits e o British Council, o site da Action Aid Brasil, que também é atualizado por nós – entre outros. O site da Rits é atualizado diariamente.

Parte 2 – Contrastes e responsabilidade social do jornalista

*Geiza Rocha é jornalista e redatora Web.

Mario CavalcantiInternet e Terceiro Setor – Parte 1