Mario Cavalcanti
por — 07/11/2001 em Notícias

Noticiários em portais de saúde

Stella Galvão conta sua experiência em um portal de B2B voltado para o setor hospitalar

Por Stella Galvão (*)

Depois de atuar como repórter na imprensa diária por 15 anos, dez dos quais dedicados quase que exclusivamente à área de saúde-medicina-ciência, deparei-me com o maior desafio até então proposto em minha vida profissional. Conceber, quase que literalmente, o conteúdo de um portal de B2B voltado ao setor hospitalar.

Tratava-se de renovar diariamente três notícias e semanalmente três artigos ou textos mais embasados. Os tópicos teriam que ser de interesse do setor hospitalar, e envolveriam negócios do setor, investimentos e inovações tecnológicas. 

Deveriam, ainda, contemplar aspectos gerais referentes a políticas para o setor, numa interface entre os setores público e privado, sem esquecer da forte indústria farmacêutica e as condições conjunturais que a cercam, incluindo as dificuldades de acesso de parte expressiva da população aos medicamentos e assistência médico-hospitalar.

Quem seria o leitor potencial desse noticiário? Administradores hospitalares, funcionários dos setores de compras e suprimentos destas instituições, dirigentes de entidades, médicos em atividade no setor hospitalar. Por isso mesmo, deveria contemplar também as ações de entidades médicas, sociedades de especialidades, protocolos clínicos, estudos em andamento com novas drogas ou determinada abordagem clínica. Sem esquecer, é claro, da nova fase de uma vigorosa produção científica nacional, cujo salto espetacular foram os feitos na área do Genoma Humano, com importantes contribuições destacadas no meio científico mundial. Enfim, uma anamnese geral, como diria um bom clínico referindo-se à boa e velha consulta que esmiuça a vida do paciente.

Essa clareza do perfil do noticiário a ser produzido advinha justamente da experiência acumulada de cobertura de um setor produtivo-econômico que somente a partir da década de 90 passou a ocupar espaços editoriais antes praticamente monopolizados pela tríade política-economia-cultura. Uma vez no Bionexo.com, já inserida no mundo externamente glamouroso da internet, o caos estava instalado. Onde auscultar? Como decidir pela melhor terapêutica?

A primeira providência consistiu em mapear todas as agências de notícias disponíveis na internet brasileira para ter acesso diário a um espécie de radar do setor. Mas, então, apresentou-se a primeira dificuldade óbvia quando se trata de tema especializado. O noticiário diário voltado a tópicos de saúde é difuso e pouco voltado para aqueles que decidem. De olho no usuário final, o alvo primordial é o consumidor, que é também o leitor de jornal e telespectador do noticiário televisivo, como é ainda essa estranha figura do internauta, viés refinado de consumidor. Tudo, ou boa parte, fala ao bolso desse usuário e às preocupações vitais associados ao processo de adoecimento.

Nem se tratava, no caso, de reunir bibliografia e consultar pioneiros do mundo pontocom para concluir quanto ao melhor formato de texto para noticiários online. Essa discussão era quase inócua, dado o problema mais premente: o da montagem da estrutura noticiosa em si. O velho princípio da objetividade, afinal, vencera qualquer vã discussão sobre o alter-texto para internet. Parágrafos curtos com no máximo duas linhas? Três linhas corrida na tela, jamais nada além ou aquém disso? Na experiência do Bionexo, tamanho de texto, extensão do título e intertítulo foram estabelecidos por critérios pouco objetivos, ouso dizer mais ligados ao intuir do formato adequado. Não se adequou fórmula, escassearam fontes de referência. Três linhas estão de muito bom tamanho, sim! E não vamos nos ater a artigos técnicos sobre o número de vezes estabelecido por legislação e por boas práticas de medicina sobre o reuso de um artefato, como um catéter, potencialmente descartável. Os artigos vão tratar de políticas de gestão capazes de potencializar o trânsito de pacientes pelo setor de hemodinâmica de um grande hospital, reduzir custos globais ou reciclar funcionários de modo a fazê-los partícipes e não meros coadjuvantes da assistência ao paciente.

A clareza editorial ajudou bastante. Uma revista planejada no formato tradicional foi readequada à proposta do site, e as seções e abordagens transportas para o ambiente online. Outra alternativa imediata foi contratar uma agência de notícias que se proponha fornecer conteúdo dirigido. Um fiasco. Os textos traíam a falta de intimidade com o assunto – como o laboratório Aché, o maior dentre aqueles de capital nacional, ser grafado como o ritmo de música que alcançou o país a partir da Bahia -, ou pecavam pelo vício do consumidor, com os conhecidos textos de prestação de serviços e os "novos" velhos tratamentos disponíveis na praça.

Outra saída foi contatar assessorias de imprensa inicialmente institucionais e privadas – universidades, entidades setoriais, órgãos de governo, hospitais – inserindo-nos nos mailings para envio de informações. Em paralelo, a inserção constante em espaço editorial de várias mídias deu visibilidade ao portal. O setor privado e assessorias relacionadas interessaram-se. A mágica estava completada! Dez meses depois de muito trabalho e persistência em nos fazermos reconhecidos como mídia digna de registro, passamos a receber tanta informação quanto um repórter setorista de um jornal de grande circulação.

*Stella Galvão é gerente de mercado e mídia do Bionexo.com. Ex-repórter de O Estado de S. Paulo, montou uma agência, a ActaCom Informação, que fornece conteúdo para sites relacionados ao setor saúde.

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